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Francisco Matos: “Há modalidades nos Açores que formam campeões nacionais e que têm pouco apoio institucional na Região…”

Correio dos Açores – Como foi o seu percurso como jogador e como treinador?
Francisco Matos – Comecei a jogar golfe aos oito anos. Ia para o campo da Batalha com o meu pai e o meu avô. Eles, na altura, jogavam, mas havia uma limitação para as crianças e jovens. Por isso, não comecei a jogar mais cedo. Com a abertura do Campo da Batalha, em 1994, começaram a disponibilizar actividades para crianças e eu fui experimentar. Depois de experimentar, decidi que queria fazer vida disto, descobri uma paixão e nunca mais deixei de jogar. Em 2014, vinte anos depois de começar a jogar, passei a ser profissional de golfe. Este processo pode ser feito de duas maneiras: ou ser jogador da selecção nacional nos tempos recentes e considerado jogador com nível para jogar como profissional ou fazer um teste de habilidade de jogo, em que se faz uma competição com profissionais e, o campo, está preparado para este nível de competição e ter um objectivo a cumprir quando realizar o teste.
Nesse ano entrei em conversações com a associação de profissionais de golfe, PGA Portugal, para lhes informar da minha intenção de ser profissional e também para saber quais os torneios que estavam habilitados para isso. Fui informado que havia um torneio com qualificações em Ponta Delgada e que poderia fazer este torneio. Em Outubro de 2014 fiz o teste, ainda como amador fiquei em terceiro lugar neste torneio e passei a profissional em Janeiro de 2015. Aí fiz um investimento pessoal, fazendo o circuito de torneios nesse ano. Acabei o circuito em 5/6 lugar na Ordem de Mérito tendo feito alguns segundos lugar e alguns top5. Neste ano, também joguei pela selecção nacional numa competição contra a selecção nacional de Espanha, entre treinadores. Joguei ainda um jogo de exibição que costuma haver entre a selecção profissional e a selecção de amadores de Portugal.
Em 2016 tomei a decisão de não jogar com tanta regularidade devido à ausência de patrocinadores e ao esforço financeiro que já tinha feito no ano anterior. Quando fiz o teste para passar a profissional, comecei a dar aulas de golfe no Campo da Batalha e, em 2016, estava a dar um maior número de aulas devido ao bom ano anterior que tive. Como aumentei o número de aulas, tinha menos tempo para treinar e os resultados já não foram tão positivos. Nesse ano, fui jogar o campeonato europeu de ensino, para treinadores de golfe, na Bulgária. Foi uma experiência incrível.
Deixei de jogar enquanto profissional, de forma regular, devido ao investimento pessoal feito. Não era viável continuar assim.

Sendo amador existe a possibilidade de integrar a selecção nacional?
Sim. Temos duas selecções nacionais: amadora e profissional. A que tem mais apoio e mais vertente competitiva é a amadora. A profissional tem apenas jogos pontuais.

É difícil encontrar patrocinadores para o golfe?
No patamar em que estava, sim. Não tinha grande historial no golfe uma vez que o investimento que fiz enquanto miúdo foi mais na modalidade de natação. Não era uma referência ao nível do golfe e, desta maneira, era impossível atrair patrocinadores. Fiz um bom ano, com investimento próprio, com um projecto de atrair patrocinadores para o ano seguinte. O problema é que os patrocinadores dão pouca importância ao nível nacional porque não há grande visibilidade para eles. Como não tinha grande projecção para fora de Portugal, e não tinha margem financeira para investir, optei pela carreira de treinador.

Sente-se satisfeito com a carreira de treinador?
Gosto muito do que faço. Mesmo quando jogava com pessoas mais velhas, e tenho histórias com alguns sócios com quem privei em jovem que contam que eu adorava ensinar golfe. Gostava de partilhar os ensinamentos que ia adquirindo. Toda a minha carreira actual está ligada à formação dentro da área do desporto. Sinto-me bem a ensinar e ensinar golfe foi um dos primeiros objectivos que tive na minha vida.

Referiu que também fez natação em jovem. Quando é que a natação entrou na sua vida?
Comecei a ter aulas de natação com seis meses de idade. Obviamente que ali só estava a aprender a lidar com a água. Entrei na vertente de competição aos seis anos e quando o golfe aparece eu já fazia natação de competição e também praticava ginástica desde os três anos. O golfe é aquele que aparece mais tarde e acaba por ser o que tem maior presença ao longo da minha vida.
Fiz natação de competição entre os seis anos e os 21, portanto foram 15 anos na carreira de competição mais a sério a nível regional. Quando voltei da universidade fui competir pelo Clube Naval de Ponta Delgada para os ajudar, de alguma forma, uma vez que, nas distâncias mais curtas, ainda conseguia ajudar. Além disso, pratiquei ginástica dos três aos 15 anos.

A certa altura teve que optar entre golfe e natação. Foi difícil fazer a opção?
Muito. Tinha amizades de uma vida na natação. O nosso maior contacto era na piscina e afastar-me da piscina significava afastar-me dessas pessoas. Adorava o ambiente, era como se fosse uma segunda família. Entre os 16 e os 18 anos fazia nove treinos por semana e treinávamos cerca de três horas em cada treino. Passava muito tempo com as mesmas pessoas, éramos uma equipa muito unida. São mesmo amizades muito fortes e que são muito importantes. Por isso, tomar a decisão pelo golfe, que é um desporto mais individualizado, não foi fácil. Também o facto de estar a aproximar-me de uma fase, na natação, em que para ser bom o investimento pessoal, em termos de tempo, teria que ser muito, decidi optar pelo golfe porque foi algo que sempre disse que queria e porque também tenho a possibilidade de ter uma carreira mais longínqua nesta modalidade.

Se tivesse que descrever o seu melhor momento como jogador, qual seria?
O torneio em que passei a profissional de golfe. O facto de jogar em casa e ter o público a puxar por mim e a seguir o meu torneio foi uma sensação incrível. Sente-se um apoio especial. Quando dás boas pancadas o público celebra e quando estás numa fase menos boa, dá-te apoio para subires o nível. Acho que este foi um dos factores que me ajudou a ter o nível que apresentei naquele fim-de-semana. Eu em competição de dois dias, com aquele nível de dificuldade que normalmente encontramos nos torneios do circuito da federação, nunca tinha feito uma competição em que terminasse com o número de pancadas espectável. E naquele fim-de-semana, em que tinha a minha vida em jogo, consegui.

E como treinador, qual é a sua melhor memória até agora?
Foi em 2020. Em plena covid tive uma aluna, a Ivete Rodrigues, que foi campeã nacional de sub-18. Era uma geração bem competitiva e ela não era a favorita a ganhar o torneio. Havia quatro jogadoras que tinham hipóteses de ser campeãs e ela seria a menos favorita das quatro. As condições em que jogamos, o próprio campo, que não era propício ao jogo dela, fazem com que seja o momento que mais me marcou.

Foi difícil conciliar a vida pessoal com tanta modalidade que praticou?
Encontrei os meus amigos nas modalidades que praticava o que facilitou o processo. Nunca fui uma pessoa muito boémia, um pouco por medo de poder entrar em caminhos com os quais não me identifico. Estava sempre com os meus amigos na escola ou nos treinos. Também tive um grande suporte em casa, o que também me ajudou. Os estudos acabaram por ficar um pouco para trás, mas foi uma fase da minha vida com memórias incríveis. Tudo isto permitiu-me crescer e ser a pessoa que sou hoje.

Em 2015 consegue fazer três eagles (duas pancadas abaixo do par) num torneio, o que é algo raro. Como se sentiu?
Senti-me no céu e no inferno. De facto, fazer três eagles, que são duas pancadas abaixo do par num buraco só, não é normal mas também tive outros buracos onde não estive muito bem. Fazendo um paralelismo com o futebol, era como se tivesse batido uma bola à Pelé e outra à Mané. Mas o facto de ter essa referência é algo satisfatório e que estava num caminho bom. Infelizmente, por circunstâncias da vida, não deu para dar seguimento a isso.

Na sua opinião, o desporto é pouco apoiado nos Açores?
Sem dúvida alguma, principalmente o desporto jovem. É uma realidade do país e acaba por ser uma realidade em muitos países do mundo. O futebol é o desporto-rei e as verbas são muito canalizadas para este desporto. Gosto muito de futebol, mas vemos muitos atletas a sobressaírem em outras modalidades e não se consegue dar apoio, quer em termos de infra-estruturas quer no acompanhamento ao nível de treinos, acompanhamento psicológico, nutricional e tudo mais. Temos campeões nacionais em diversas modalidades que chegam onde chegam pela sua vontade e pelo carinho e disponibilidade de um treinador que, depois, tira pouco proveito dessa carreira.
Se houvesse uma forma de canalizar mais verbas para outras modalidades, e temos o exemplo do Diogo Ribeiro, que foi campeão do mundo em duas provas, provavelmente teríamos mais resultados. É preciso olhar para as outras modalidades que formam campeões nacionais e que têm grandes resultados regularmente e não há apoio para esses atletas.

Há algum tempo decidiu experimentar uma nova modalidade. O que o levou a experimentar o padel?
O padel aparece na minha vida através de uma familiar que praticava ténis. Já tinha experimentado antes, e não tinha gostado, mas quando experimentei com ela fez-se um ‘click’. Agora, este é um outro espaço onde encontrei muito prazer a jogar e seguindo aquilo que eu gosto de fazer na vida, ensinar e partilhar com as pessoas os conhecimentos que tenho, surgiu a oportunidade de ser treinador. Sempre que tiver alguém ao meu lado, que sinta que possa ser útil para ele, vou sempre tentar ajudar.
É uma modalidade recente, principalmente aqui nos Açores, com um potencial muito grande quer a nível competitivo, quer a nível de aumentar os níveis de actividade física. Assim, acabei por me envolver no projecto do Azores Padel Club.

Consegue explicar a adesão exponencial que o padel está a ter?
O padel tem duas vertentes muito boas: a nível inicial é muito fácil entrar no campo e sentir prazer a jogar e atingir os níveis mínimos de sucesso. Tem a vertente de actividade física onde, nos primeiros patamares, é fácil de se sentir sucesso a praticar e depois tem a vertente social. Estamos a competir a pares e há sempre convívio em campo. Temos uma maior interacção quer com o nosso parceiro quer com a dupla adversária. E, depois, a parte social que existe dentro do campo transfere-se para fora do campo. Estes dois factores fazem com que a modalidade esteja a ter um crescimento muito grande.
O fenómeno do Azores Padel Club acontece porque há uma pessoa associada ao projecto, o André Delmar, que implantou a modalidade em campo fechado. Trouxe do Dubai projectos com infra-estruturas que nos permitem jogar em dias de chuva e revolucionaram a modalidade em São Miguel. Vamos com quase 30 anos de atraso e é uma modalidade que está a aparecer no mundo inteiro. É um fenómeno que vai ser mundial.

Que torneios de golfe e de padel costumam organizar?
Vou começar pelo golfe. Temos torneios a nível local para os nossos membros e torneios de academia para os jogadores jovens. Também temos o circuito de rookies, para jogadores em iniciação. Existe a academia para os jovens e, depois, os membros podem lá jogar regularmente. Actualmente, o nosso jogador mais velho tem 85 anos. Temos competição para todos eles. No golfe há um factor de relatividade em relação à habilidade do jogador que permite que hajam jogadores de vários níveis a competir pelo mesmo prémio. Isto permite-nos ter mais gente a jogar golfe, independente do seu nível.
No padel temos dois tipos de competição: um de cariz mais social que acontece todas as semanas de Segunda a Quinta. Aqui tentamos envolver todas as classificações de praticantes que temos no clube. Temos masculinos, femininos e mistos. Depois, temos um torneio realizado mais à seria que é realizado uma vez por mês durante um fim-de-semana. Este tipo de torneio engloba um kit de boas-vindas, melhores prémios e temos sempre algum tipo de actividade para oferecer aos clientes. Toda a organização tem maior cuidado e maior atenção ao cliente.
Este ano o clube pretende trazer competições da Federação Portuguesa de Padel para cá e esta é uma das razoes da expansão da sua área. Começaram com quatro campos e agora têm o dobro da capacidade. Vão melhorar as infra-estruturas, com algumas surpresas para os utilizadores e clientes que serão reveladas a seu tempo.

Que planos tem para o futuro?
O futuro é muito incerto neste momento. A carreira de treinador de golfe pode ser muito boa neste momento. Surgiram alguns contactos para englobar clubes fora daqui, que poderão acontecer agora ou mais tarde.
No padel comecei a dar aulas há cerca de um ano. Tenho pouco tempo ainda no clube, o clube está a crescer e poderei ter uma maior presença.
Para já, mantenho-me como treinador de golfe, feliz com aquilo que faço, ambicioso e com o objectivo de trazer mais campeões nacionais à Região. No padel quero fazer parte do crescimento da modalidade e, no futuro próximo, queremos ter campeões nacionais quer nos jovens quer nos adultos no clube.

Frederico Figueiredo
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