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A primeira escola de Biodanza dos Açores tem cada vez mais adeptos de todas as ilhas

A Biodanza é “sistema de desenvolvimento humano” criado pelo chileno Rolando Toro, e asaulas recém-chegadas aos Açores, focam-se no bem-estar e na saúde dos seus alunos. Envolvem dança e têm benefícios terapêuticos, mas não se encaixam numa dança performativa ou numa terapia no sentido tradicional do termo. O Director da Escola de Biodanza – São Miguel, Açores explica que a necessidade de criar uma escola na Região, o que aconteceu em Abril do ano passado, foi impulsionada pela adesão dos micaelenses pois as aulas chegam a ter 50 participantes.

Correio dos Açores – Pode explicar qual o conceito de Biodanza? Não é comparável a nenhum que já exista nos Açores? Pode explicar?
Vasco Fretes (Director Escola de Biodanza – São Miguel, Açores) – Biodanza é um Sistema de Desenvolvimento Humano. O termo ‘Bio’ vem de Vida, e ‘Danza’ é o termo espanhol para dança, pois o criador, Rolando Toro Araneda, era chileno. Biodanza é a dança da vida. Uma dança em que se aprende a viver, a ganhar recursos para enfrentar os desafios da vida e sermos mais felizes e integrados nas nossas acções. Não é uma dança performativa pois não tem o objectivo de se aprender a dançar. Por isso, todos podem fazer Biodanza, incluindo os “pés de chumbo”.
Quando surge algo de novo na nossa vida, é natural que façamos comparações com aquilo que conhecemos. Tentamos fazer uma aproximação a algo que já experimentámos, ou que conhecemos e fazemos. A Biodanza é um conceito vivencial, ou seja, é na experiência que sabemos o que é. Assim, todas as palavras que se possam usar para explicar o que é a Biodanza são insuficientes em relação à experiência.

Em que contexto encontrou a Biodanza?
A minha formação de base é Educação Física e Desporto. Ao longo do curso fui percebendo que a competição não era o meu futuro. A dada altura senti a que a alegria da vitória se misturava com a tristeza de ver o outro perder. Percebi que alguém ficaria triste com a alegria de outros e, neste sentido, deixou de fazer sentido. Costumo dizer nas minhas aulas que gosto muito de ténis de praia porque os dois estão lá para ganhar, para não deixar cair a bola na areia. A Biodanza é assim: todos ganhamos. O grupo influencia positivamente cada um para que possamos ser todos mais felizes e íntegros. Somos todos responsáveis pela felicidade do outro. A Biodanza oferece recursos de bem-estar pessoal, mas, acima de tudo, bem-estar comunitário. Que as sociedades sejam mais solidárias, menos críticas e mais empáticas.

De que modo é que a Biodanza se distingue de outras formas de terapias?
Em primeiro lugar, a Biodanza não é uma terapia, mas tem efeitos terapêuticos — o que é diferente. A Biodanza faz despertar aquilo que as pessoas têm de melhor. Alguns ambientes e pessoas fazem precisamente o contrário: despertam o pior das pessoas e muitas vezes ficamos doentes sem saber o porquê. E o pior é que pensamos que o problema é nosso, quando, no fundo, estão em causa problemas relacionais ou de ambientes tóxicos.
Biodanza foca-se na saúde e no potencial de saúde que todos temos. Rolando Toro Araneda criou o conceito de ‘Inconsciente Vital’, que consiste no psiquismo celular e inteligência organísmica em prol da vida. Ou seja, em nós há um inconsciente que favorece a vida e que nos mantém vivos. Já pensou na alta tecnologia que é o funcionamento do nosso corpo? Eu não digo para o coração bater ou para fazer a digestão. São processos autónomos, inconscientes e de verdadeira alta tecnologia. A doença surge, muitas vezes, de uma desregulação do inconsciente vital, de estilos de vida não orgânicos, de sociedades adrenérgicas, de alimentação não congruente com o que necessitamos, de dormir mal…
Com a Biodanza é muito comum muitas as pessoas regularem o stress, despertas, descansarem e dormirem melhor ou sentirem efeitos ansiolíticos Alguns dos efeitos terapêuticos mais comuns da Biodanza passam por as pessoas sentirem efeitos ansiolíticos, uma regulação do stresse, o ganho de uma maior vitalidade, descanso e sono com melhor qualidade. A Biodanza é uma prática complementar poderosíssima. No entanto, não substitui nenhuma outra prática e muito menos medicação ou algo do género. Complementa e muito bem, na maioria dos casos.

Quais são os exercícios que são feitos e qual o tipo de música adoptada nas aulas?
A operar a nível mundial, existe o CIMEB – Centro de Investigação de Músicas e Exercícios de Biodanza que estuda e avalia as músicas a usar nas aulas. Existe um catálogo, ainda feito por Rolando Toro Araneda, com todos os exercícios e músicas de Biodanza. Claro que com o tempo se vão integrando novas músicas, mas com bastante critério semântico. Nós usamos todo o tipo de estilos musicais, desde que as músicas tenham um critério orgânico e harmonizador. Harmonia não só no sentido melódico, mas rítmico também. Que nos ajudem na ‘regulação vital’. Ritmos que sejam congruentes com o que o nosso organismo necessita. Caminhar com uma música de ritmo jazz, por exemplo, ajuda imenso a balança neurovegetativa equilibrando o sistema simpático adrenérgico. Mas o samba numa sincronização vital ou numa roda, desperta a alegria e a euforia de nos sentirmos vivos e apaixonados pela Vida. Fazemos também exercícios de fluidez com músicas suaves e melódicas que nos deixam em estado relaxado e desacelerado, prontos para descansar. E muitos outros. Cada aula tem em médio entre 12 a 15 exercícios.

Qual é o papel do instrutor de Biodanza e como é que orienta as sessões?
O instrutor/professor de Biodanza chama-se Facilitador. Rolando Toro Araneda integrou o termo criado por Carl Rogers que diz o seguinte: nós somos a ponte que faz despertar e que facilita o encontro das pessoas com a maravilha que elas são. Somos gestores de grupo, preparamos as aulas consoante o caminho que o grupo necessita e damos “as margens para as águas seguirem o seu caminho”. Ou seja, para que nos encontremos como seres especiais e não nos perdermos. E se porventura alguém se perder no caminho de encontro consigo mesmo, temos a segurança e confiança que haverá quem nos dê a mão e nos ponha no caminho novamente. Porque, tal como Clarice Lispector nos diz, “perder também é caminho”.
A Biodanza também é um sistema de autoconhecimento. E, para algumas pessoas, este processo envolve perceber que que os caminhos actuais podem já não fazer sentido. É nestes momentos em que percebemos que já não estamos a viver a Vida que queremos, que a Biodanza nos ajuda a descobrir novos caminhos, a criar novos horizontes, conhecer novas pessoas e novas formas de ver o mundo.

Porque é que a Biodanza só poder ser praticada em grupo?
O ser humano é completamente dependente entre pois só nos tornarmos humanos na convivência com outros humanos. Uma vez que esta dependência existe, então vamos criar formas de viver saudáveis. Vamos criar sociedades com respeito e empatia e colocar limites ao que não queremos. Somos as mesmas pessoas dentro e fora da sala, a diferença é que em sala temos um ambiente seguro e de confiança para vermo-nos a próprios de outra forma, o que muitas vezes é difícil nas rotinas do dia a dia.
Costumamos dizer que o outro traz notícias de mim. E se vivêssemos numa sociedade onde só chegassem notícias boas e maravilhosas? Como seria? Pois bem, em Biodanza há uma grande probabilidade de isso acontecer.
E com isto não quer dizer que nos vamos dar bem com todos, ou que as pessoas de Biodanza são melhores que outras. Somos exactamente as mesmas pessoas, mas vamos integrando recursos e instrumentos para lidar com pessoas próximas, menos próximas, com estranhos e relações tóxicas. Viver em sociedade e ser feliz não é fecharmo-nos só para aqueles que nos são próximos, a isso chama-se egoísmo e egocentrismo.

Como surgiu a oportunidade de estabelecer a escola nos Açores?
Costumo dizer que esta escola é das pessoas que a quiseram, pois, a intenção de a criar não partiu de mim. Mas, ao longo do tempo e com a assiduidade enorme das aulas mensais, percebemos que não havia outro caminho senão o de formar pessoas para criar grupos regulares e desenvolver trabalhos sociais. Levar a Biodanza para as escolas, universidade, lares e outras instituições onde a Biodanza pode ter mais impacto.
Apesar das dificuldades inerentes a quem não é residente em São Miguel, este trabalho social — nomeadamente com crianças, jovens e idosos — está a ser feito pela minha colega Sofia Marques. Ela está em São Miguel quando tem um conjunto de aulas com estas populações específicas para suprir os gastos de quem se desloca do continente.
No entanto, neste momento a Escola de Biodanza ocupa um lugar muito importante e estamos a trabalhar para que as pessoas tenham mais aulas. Durante o fim-de-semana há quatro aulas, assim a escola não ocupa apenas um lugar de formação, mas também de usufruto de aulas de Biodanza de forma mais intensiva.

Nas sessões mensais que têm realizado em São Miguel, qual tem sido a participação dos micaelenses?
A participação dos micaelenses tem sido uma surpresa. Desde Abril de 2022 que temos em média 40 a 50 pessoas em sala tendo chegado a 80 pessoas no dia de apresentação da Escola de Biodanza de São Miguel.
No fim-de-semana da Escola, o número é inferior porque temos limite de inscrições.

Que dimensão vai ter a escola na Região?
Neste momento, a escola está a criar as suas bases e estamos a investir imenso na qualidade da formação. Costumo dizer que prefiro passos seguros a passos apressados. Com boas bases e uma estrutura adequada à realidade de São Miguel, acreditamos que poderemos ter um impacto extremamente positivo na realidade das pessoas, das empresas e das instituições no geral.
Com o início da escola, elaboramos algumas investigações estamos com trabalhos em empresas, escolas e lares com a resposta possível.
Ultimamente temos tido contactos para protocolos e, inclusive, estamos a iniciar protocolos com escolas de Biodanza estrangeiras a fim de receber pessoas de outros países na nossa escola. Já há movimento para fazer festivais e congressos locais e, em tão pouco tempo, a Escola de Biodanza de São Miguel já conquistou uma grande projecção internacional onde muitas pessoas querer conhecer a nossa realidade.
Acredito que mais desafiante seja fazer com que os locais sintam a potencialidade da Biodanza. Porque, aqueles que já estão familiarizados com esta prática e vêm conhecer São Miguel, vão perceber que não há sítio melhor no Mundo para a Biodanza.

Tem alguma história de sucesso vivida em sessões de Biodanza que queira partilhar?
As histórias são semanais, e já posso mencionar várias que tiveram lugar em São Miguel. Por exemplo, tivemos a história de uma pessoa que vivia em São Miguel há anos e, no entanto, nunca se tinha sentido ilha. A Biodanza ajudou-a a estabelecer conexões com pessoas novas, a sentir-se em casa e integrada na ilha. Pode parecer esquisito dizer isto, mas a história de São Miguel que provavelmente teve mais impacto para mim, foi ver um dos vários homens que têm experimentado as aulas — com a timidez natural de quem está a experimentar algo novo — sentir-se bem, feliz e tranquilo. No final da aula, disse-me que estava habituado a dançar de ‘copo não mão’ e que ali não precisa de nada disso, que podemos ser felizes só com o que temos e somos.

A Biodanza, numa fase posterior, pode chegar a outras ilhas dos Açores?
Já está a chegar. Temos tido alunos na escola oriundos da Terceira, de Santa Maria, Faial e Pico. A coordenadora da nossa escola, Ana Carvalho, está a começar um grupo na ilha Terceira.
A Ana é a primeira facilitadora dos Açores, formada em Lisboa e é com ela que surge a primeira oportunidade de fazer Biodanza semanalmente.

Daniela Canha

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