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“O Papa actualizou a tradição do louvor arreigada nas comunidades cristãs açorianas, chamando-lhe24 horas para o Senhor”, diz o padre José Paulo Machado

O padre José Paulo Machado, pároco da Fajã de Baixo, fala nesta entrevista sobre a essência da oração e o seu impacto na comunidade cristã e no mundo. Reflecte sobre o convite do Papa Francisco para rezar pelas pessoas que arriscam as suas vidas pelo Evangelho e como esse apelo à coragem e ao compromisso missionário ressoa na nossa própria caminhada de fé. Partilha, ainda, os projectos existentes na sua paróquia para fortalecer a prática da oração e da espiritualidade dos fiéis.

Correio dos Açores – Qual é o significado e a importância do Dia Mundial da Oração para a comunidade católica e para o mundo em geral?
Padre José Paulo Machado (Pároco da Fajã de Baixo) – Trata-se de uma iniciativa surgida no seio das confissões cristãs norte-americanas, no início do século XX, essencialmente conduzida por senhoras, portadora de uma latitude que extravasa as fronteiras confessionais dos credos. O Dia Mundial da Oração abraça o rezar como uma singular proposta unificadora, capaz de derrubar separatismos culturuais e étnicos. Sublinha-se o facto de esta efeméride ter sido adoptada por cento e setenta países, o que traduz o milagre da oração enquanto fenómeno que está nos antípodas de uma visão auto-referencial.
A componente espiritual, intrínseca a todo o homem, está na origem da vontade de rezar. A espiritualidade começa quando vou para além do meu eu e sou capaz de me projectar no outro.
A esse respeito, a antropologia confirma a inexistência de tribos ateias. Portanto, os nossos antepassados sempre ligaram as coisas do mundo a um ser superior. Está-nos nos genes a vontade de ligar o transitório a algo muito mais profundo, ao Mistério.

Na sua opinião, como define aquilo que se designa de oração?
As palavras “rezar” ou “orar” são portadoras de duas componentes semânticas: a ligação ao sobrenatural (rezar, religar, integrar) e o discurso para com o Sagrado (orar). Portanto, conexão e discurso compaginam-se no desejo de aceder a Deus. É dia para se realçar o desejo da alma humana estar em sintonia com Deus. Há muitas maneiras de fazê-lo e não se pode afirmar que há uma melhor do que a outra. Pode-se orar individualmente ou colectivamente; há quem reze com fórmulas, ou, ao invés, prescindindo delas quando se dirige ao transcendente de maneira espontânea; há quem reze cantando e há quem ore através de recitações. Face a todas estas formas, podemos afirmar: santa liberdade dos filhos de Deus! O mais importante no meio de todas estas expressões é perceber que o desejo de chegar até Deus é transversal a todo o homem. Jesus revela-nos a possibilidade de permanecer em Deus. Aliás, um dos livros da literatura cristã mais lidos – “Relatos de um Peregrino Russo”, escrito por um autor anónimo do século XIX – pronuncia dois desejos constantes da alma humana: aprender a rezar e como rezar sem cessar. A conclusão da obra, depois de o peregrino acabar de percorrer a vastidão dos territórios russos, é esta: podemos, de facto, rezar sem cessar. Anuímos que o desejo de permanência com o sobrenatural é transversal a todo o homem.

Existem projectos na sua paróquia que visam fortalecer a prática da oração e a espiritualidade dos fiéis?
Sublinho a importância que os Lausperenes (louvor/adoração permanente) têm nas paróquias da Diocese. O Papa actualizou de algum modo esta tradição arreigada nas comunidades cristãs açorianas, chamando-lhe “24 horas para o Senhor”. Na adoração eucarística, há uma subversão do próprio eu. Ou seja, quem reza diante do sinal maior que actualiza Deus (a hóstia consagrada) descentra-se nos outros e imprime à sua vida a felicidade de amar porque se sabe amado. Parafraseando o livro de Job, “antes de orar conhece-se a Deus por ouvir falar”. Depois, “por experimentar”. Realço a adoração eucarística, existente em quase todas as paróquias, que vai ao encontro da sugestão de Jesus para a oração: não inventar muitas palavras. Diante de Deus, não há lugar para silêncios incómodos. O diálogo interior flui inexplicavelmente. Não há como fugir a isto quando se tem a coragem de nos demorarmos com o Sagrado. Falamos de um diálogo profundamente libertador. Deus conhece os nossos anseios e necessidades. Na oração eucarística, não são precisos muitos discursos, nem palavras e mais palavras. Apenas estar diante de Deus, face a face.

Na sua intenção de oração para Março, o Papa Francisco convida-nos a rezar este mês pelas pessoas que arriscam as suas vidas pelo Evangelho. Como deve ser entendido este convite?
“O que é que fazemos pelas nossas convicções? Temos de as defender!” – foi um dos últimos comunicados de Alexei Navalny. Quando ele aterrou na Rússia, depois de regressar da Alemanha, sabia que tinha o seu destino traçado. Dificilmente sobreviveria aos sucessivos encarceramentos impostos pelo regime russo. Dar a cara e a vida pelas convicções tem um valor que estala com os calculismos, as zonas de conforto que tanto prezamos. Havia que fazer a pergunta: defendemos as nossas convicções? Se elas são realmente importantes, damos a cara por elas?
Ora, arriscar a vida pelo ideal cristão é algo que interpela profundamente. Vejamos algo muito actual, acontecido há nove anos: a 15 de Fevereiro de 2015, o Estado Islâmico, divulgou um vídeo de cinco minutos mostrando a execução de vinte e um cristãos egípcios. O vídeo mostra vários dos cristãos orando antes de serem mortos – “o Senhor é meu Pastor nada me falta!”. A degolação destes mártires foi selvagem, indescritível, efectuada com um pequeno canivete equivalente aos procedimentos existentes nas matanças dos carneiros, algo comum nas tradições festivas dos povos do Médio Oriente. A barbárie gravada no vídeo esteve por algum tempo disponível para os cibernautas. Trata-se de um espectáculo dantesco, nada apetecível de visionar. Contudo, no horrível cenário inerente à tragédia do martírio, ressalta a força incrível de duas dezenas de crentes conscientes das suas convicções, capazes de dar a vida por elas.
Sejam convicções políticas ou convicções religiosas, nenhum sangue derramado por uma causa justa é derramado em vão. Mártir significa testemunha. O Papa está consciente de que a intensidade da entrega dos mártires possui uma força incomparável na gestação de frutos novos.

O Papa Francisco fala também na importância de estarmos abertos à graça do martírio. Como podemos entender e viver esse chamamento à coragem e ao compromisso missionário nas nossas próprias vidas?
Os martírios patrocinados pelos imperadores romanos perduraram até ao século IV. Os martírios voltaram a eclodir, a partir do século XV, nas campanhas de missionação no contexto dos descobrimentos. E agora mais do que nunca, quinhentos anos depois, em lugares como Nigéria, Síria, Egipto, Nicarágua, Índia… só para citarmos alguns casos. A cruel perseguição à fé cristã praticamente não é noticiada. Cabe, por isso mesmo, aos media promover essa divulgação. Impressiona perceber que é quase um tabu falar-se da inexplicável perseguição que os cristãos estão a sentir em todo o mundo. Trata-se de uma notícia banida dos prime times noticiosos.
O mártir é aquele que dá a vida, que é capaz de se gastar pessoalmente, devido às convicções da sua fé.
O mártir não vende a sua alma a ninguém. “A alma é só de Deus”, como diz Fernando Pessoa na Mensagem. É sempre motivo de sobressalto quem não se mostra mole nas suas convicções e que, por isso mesmo, põe a questão da fé num patamar inegociável.

Carlota Pimentel

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