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Paralisia cerebral não impede Simão Assunção de chegar ao 12º ano de escolaridade e de querer licenciar-se em Jornalismo, no Porto

Simão Assunção é aluno do 12º ano na Escola Secundária Antero de Quental. Nunca perdeu um ano e tem uma média de 17 valores. Já foi convidado numa aula a falar sobre as causas que defende e vai a outras escolas falar sobre a sua vida. Quer licenciar-se em Jornalismo no Porto e sublinha que “acima de tudo, temos de lutar pelos nossos sonhos”.

Correio dos Açores – Como foi o seu percurso até aos dias de hoje?
Simão Assunção – Tenho 18 anos e sempre vivi em São Miguel. Nos primeiros dois anos de vida, vivi com os meus pais e, depois, devido a algumas circunstâncias, fui viver juntamente com o meu irmão com os meus avós maternos. Considero-me um bom aluno e sempre tive bons resultados académicos.

A sua condição física, que o faz andar de cadeira de rodas, é de nascença ou foi devido a algum acidente?
É de nascença. Eu tenho paralisia cerebral devido a algumas complicações que houve, tendo inclusive nascido prematuro. Fiquei com algumas lesões cerebrais que afectaram a minha condição física.

Na sua opinião, quais são as suas principais limitações?
A principal limitação é não poder fazer uma vida normal devido aos condicionalismos que existem na estrutura da cidade, ou seja, subir passeios ou ir às lojas. Muitas vezes, na baixa da cidade, não consigo entrar numa loja porque existe um degrau e se há um degrau a cadeira não sobe. Mas, sem ser isso, consigo fazer tudo. Também tenho alguns problemas físicos, por exemplo se for para andar sem cadeira tenho que andar de canadianas e tenho alguns problemas nas mãos visto que elas tremem. Apesar disto tudo, tenho noção de que há quem esteja pior e que tenha mais limitações do que eu e, por isso, encaro a vida de frente. Aceito os problemas que tenho e aprendi a viver com as minhas condicionantes.

Quando é que surge o gosto pelo jornalismo?
Sempre gostei muito de ver televisão e sempre tive um grande fascínio e interesse pela caixinha mágica. Sempre tive um grande interesse em perceber como as coisas acontecem, não necessariamente o produto final, mas sim como se chega ao produto final, perceber como são os bastidores. O jornalismo só me veio à ideia no 11º ano. Ao analisar o meu percurso e as minhas capacidades e juntando ao gosto que tenho por estas áreas, percebi que o jornalismo era uma área que me interessava.

Dentro do jornalismo há alguma área que desperte mais o seu interesse? Porquê?
O jornalismo de investigação. Porque é uma área de jornalismo onde tem que se ter um maior rigor. Com isto, não quero dizer que nas outras áreas de jornalismo não existe rigor, apenas acho que existe mais rigor no jornalismo de investigação. Neste tipo de jornalismo há sempre uma análise mais meticulosa. Estamos a fazer uma investigação que pode, eventualmente, interferir com a vida de uma ou mais pessoas. Então, temos que ter um certo cuidado com o que dizemos e com a forma como tratamos os assuntos. O processo todo, desde as fontes que se tem, à forma como se trata a informação que nos é dada e montamos o puzzle da investigação, para mim, é muito interessante. Mais uma vez não se trata tanto do produto final, mas sim compreender tudo o que está à volta da investigação. É como se tivesse a montar um puzzle.

A sua condição permite-te ter uma vida social normal?
Eu nunca senti que a minha condição física me impedisse de ter uma vida social. Eu sou introvertido por natureza, tenho alguns amigos mas nunca senti que a minha condição fosse um impedimento a isto. Claro que há sempre a curiosidade inicial de perceberem porque estou numa cadeira de rodas ou o porquê de não andar. Já fui vítima de bullying e também já fui vítima de algumas piadas de mau gosto, mas também aprendi que isto faz parte, ainda que esteja errado. É algo que não posso mudar e por isso tenho que aceitar.

Quer descrever melhor como é que foi vítima de bullying?
Aconteceram algumas situações que levaram a que fosse vítima de bullying, nomeadamente através de alguns insultos verbais. Obviamente que ao inicio mexeu comigo, mas aprendi a lidar com as condicionantes que tenho. Não me dou bem com toda a gente mas também não me dou mal com toda a gente. Como tenho algumas opiniões muito vincadas, e luto por elas até ao fim, isto também contribuiu para estas situações. Acho que não tem propriamente a ver com a minha condição física, mas sim com a minha personalidade.

Para ser jornalista tem que se formar fora da ilha. Está preparado para as condicionantes que outra realidade pode trazer?
Não sinto que estou preparado nem que não estou preparado. Sei que é um mundo totalmente diferente do que se vive na nossa Região e tenho noção que vou ter algumas dificuldades. As distâncias são maiores e vou ter que arranjar mecanismos, diferentes dos normais, para me adaptar. A minha vida toda sempre foi feita por isso, sempre tive que me adaptar à minha realidade. Sei que vai ser difícil. Como é óbvio, sei que vou ter dificuldades para chegar onde outros chegam e até na percepção que vão ter de mim. Já me preparei psicologicamente para enfrentar isso. Sei que é difícil mas faz parte do processo. É um sonho que tenho, algo que quero concretizar na minha vida e sempre lutei. Não é agora que vou desistir.

A sua história toda é de superação. Como encontra motivação para, todos os dias, atingir os seus planos?
Não se pode chamar bem de motivação, isto é algo que sempre me foi passado pela minha avó materna. Desde sempre que me foi ensinado que se não consigo fazer as coisas de uma maneira que não há problema, faz-se de outra. A minha família nunca me tratou de maneira diferente do meu irmão. Nunca fui menorizado e acho que isso também se reflecte na minha mentalidade e na forma como vejo a vida. Acho que o tipo de vivência de que se tem na Região, o de se ir levando a vida, não foi o que me foi passado. Sei que posso receber alguns apoios devido ao meu estado, mas quero ir mais além. Quero conquistar as coisas pelo meu trabalho e não quero chegar ao final da vida e pensar que o que conquistei foi devido à minha condição. Irei ter as minhas conquistas e caso não as consiga, serão pela minha responsabilidade e não devido a alguém.

Que planos tem para o futuro?
Esta é uma pergunta difícil. Não tenho propriamente planos. Eu acredito que há um Deus que nos vai guiando ao longo da vida, logo ponho sempre a fé na equação. Tenho todos os sonhos que fazem parte da vida de uma pessoa, como por exemplo casar e ter filhos, mas aceito o que vier. Gostava de deixar a minha marca nas pessoas com quem lido diariamente.

Se pudesse mudar algo na sociedade, o que mudaria?
Mudava a forma com se vê a vida. Vê-se a vida muito no presente, no agora e no hoje, e isso limita a progressão de uma sociedade. É preciso pensar mais além. Não sabemos como vai ser o dia de amanhã, mas não podemos pensar só no imediato. Temos que pensar no futuro para alcançar algo mais, precisamos de ver algo mais além do óbvio.

Tem alguma mensagem que queira deixar?
O mais importante de tudo é não desistirmos dos nossos sonhos nem daquilo que queremos concretizar por qualquer adversidade que nos possa aparecer na vida. Para além das adversidades, todos nos temos valor e vamos chegar a algum lado. Acima de tudo, temos de lutar pelos nossos sonhos.

Frederico Figueiredo

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