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Docente reformada da UAc defende que escassez de enfermeiros nos Açores leva à falta de tempo para prestar um cuidado integral aos utentes

Com 40 anos de experiência no ensino de Enfermagem, Delfina Andrade, 73 anos, está actualmente reformada. Natural da Fajã de Cima, esta enfermeira e docente, que desempenhou as suas funções primeiramente na Escola de Enfermagem de Angra do Heroísmo e depois em Ponta Delgada, destaca a importância do respeito e da ética na formação de enfermeiros. Aponta a escassez de enfermeiros como um dos maiores desafios enfrentados pela enfermagem nos Açores e realça, também, a necessidade de valorizar a profissão.

Correio dos Açores – Como decidiu tornar-se enfermeira e qual foi o percurso até se tornar professora da Escola de Enfermagem da Universidade dos Açores?
Delfina Andrade (Professora de Enfermagem) – Tornei-me enfermeira por uma razão pessoal. O meu marido faleceu no Ultramar em 1974 e voltei para São Miguel. Como já tinha feito um ano da universidade em Coimbra, em Germânicas, havia a possibilidade de regressar, no entanto, na altura, o meu filho tinha um ano de idade e eu não queria deixá-lo. Ainda não havia universidade em Ponta Delgada, mas havia o Magistério Primário e a Escola de Enfermagem. Como eu tinha alguma ligação à área da Saúde, por via do meu marido que era médico, acabei por optar pela Enfermagem. Escolhi a Enfermagem, não por vocação, mas porque achei que talvez fosse um percurso para a minha vida. Depois, com o tempo, fui gostando.
Comecei o curso com 24 anos e terminei aos 27, em Ponta Delgada. Como tinha boas notas e demonstrei, ao longo do curso, que tinha facilidade de comunicação, fui convidada pela Directora da Escola de Enfermagem de Angra de Heroísmo para leccionar. Quando a Escola de Ponta Delgada abriu concurso, consegui o lugar e fiz a transferência. O meu filho era pequeno e estava em São Miguel, por isso estava inquieta para regressar. Estive três anos na Terceira. Fui em 1977 e regressei a Ponta Delgada em 1981.

Quais foram os principais desafios que enfrentou ao longo da sua carreira como professora da Escola Superior de Enfermagem?
Talvez o maior desafio da minha carreira tenha sido a integração da Escola de Enfermagem na Universidade dos Açores. Éramos uma escola independente. Geríamos a escola e tínhamos todo o poder para tomar decisões, e acabámos por ter de nos adaptar às regras da Universidade. Tínhamos que pedir autorização à academia para aprovar os nossos planos de ensino, entre outros, e as coisas não foram muito fáceis. Tivemos que nos adaptar às regras e a tudo o que a universidade implicava, quando antes fazíamos como entendíamos, embora tivéssemos sempre que nos cingir às regras do continente para as escolas de enfermagem. Éramos autónomos e deixámos de o ser, e não é fácil para ninguém perder a sua autonomia.

Quais são os principais aspectos que considera importantes na formação de enfermeiros?
Aprender as técnicas e a tecnologia é relevante, mas o mais importante é aprender a ver o utente como um ser humano. O respeito e a ética são fundamentais num curso de Enfermagem. A ética profissional, a maneira de lidar com a outra pessoa e as técnicas de comunicação, para mim, são importantíssimas. Muitas vezes, isto é posto em segundo plano. O que querem, cada vez mais, é rapidez e pouca gente a trabalhar para se pagar pouco. Os enfermeiros, mesmo que queiram demorar mais tempo a conversar e a prestar atenção ao utente, não conseguem fazê-lo. Acabam por não saber cuidar e focar-se apenas na parte técnica. Os nossos enfermeiros são muito bons. Quando têm que emigrar, demonstram que são muito bem formados, mas julgo que se está a perder esta outra parte por não haver tempo.
É notório que há falta de enfermeiros e, se há escassez, eles têm de se limitar a fazer o que é prioritário. O que acontece, muitas vezes, é que sabem fazer boas técnicas, mas não têm tempo para cuidar do outro na globalidade.

Em sua opinião, quais são as competências essenciais que um enfermeiro deve ter para ser bem sucedido na profissão?
A parte relacional, de cuidar do outro no todo. Por experiência própria, quando estive internada, vi que os enfermeiros tinham que se cingir ao prioritário, para salvar as vidas e não tinham tempo para estar com a pessoa, saber das suas dificuldades e conseguir, efectivamente, ajudá-la.
Na verdade, antes, a afluência aos hospitais não era tão grande e a tecnologia também não estava tão evoluída. A taxa de mortalidade era mais elevada. Agora, a esperança média de vida é maior, mas não sei se a qualidade é assim tão boa.

Quais foram as mudanças mais significativas que testemunhou na prática da enfermagem ao longo dos anos?
O pior que aconteceu foi, realmente, a escassez de pessoal. Muita gente emigrou e acabámos por ficar com menos mão-de-obra. O problema de haver pouca gente é que é tudo a correr. A Enfermagem é uma área em que a pessoa precisa de ter tempo para conversar. O médico dá uma consulta em 10 minutos, observa e está feito. Já o enfermeiro, no caso de uma grávida, por exemplo, tem de falar com aquela mãe posteriormente, ensinar-lhe como se cuida e lida com um bebé, etc. Não interessa apenas o peso e o tamanho da criança, e o enfermeiro tem esse papel fundamental.
Trata-se da unha do diabético, ensina-se este utente a lidar com a insulina e com a máquina, etc. Mas, para explicar-lhe o que deve comer, a que horas, como se deve cuidar e fazer a sua higiene, entre outros, não há tempo e, a meu ver, isso era fundamental para impedir recidivas, entre outras coisas.
Hoje, devido à falta de tempo, os enfermeiros acabam muitas vezes por fazer as vacinas e os curativos, que é o mais necessário, e o resto fica aquém. Limitam-se ao essencial. As vacinas e os pensos são importantíssimos, agora fazê-los com tempo e ver a pessoa de uma forma holística, no seu todo, é o que considero que está a faltar. Considero que o “ensinar para a saúde” está em falta.

Qual o maior desafio enfrentado pela Enfermagem nos Açores actualmente?
Penso que o maior problema é mesmo a falta de pessoal de enfermagem. O rácio nos Açores é muito abaixo da média. Os enfermeiros querem fazer um melhor trabalho mas não conseguem e não os culpo, porque não há pessoal.

Como vê o futuro da enfermagem nos Açores? Quais são as suas esperanças para a profissão?
É necessário um serviço de saúde que valorize os enfermeiros que tem. Não me refiro apenas a uma questão económica. O enfermeiro também é pouco valorizado em termos sociais. Muitas vezes, quando se fala da saúde, fala-se de médicos e, no fundo, o enfermeiro é que passa 24 horas com o utente nos hospitais. É o enfermeiro que conhece o utente com quem está a lidar. São os enfermeiros que atendem os utentes quando estes chegam às urgências e precisam de um maior apoio, numa cama de hospital ou centro de saúde. Valoriza-se a falta de médicos, que não digo que não seja uma realidade e que não sejam necessários, mas esquecem-se dos enfermeiros.
Para mim, a valorização da enfermagem é urgente e necessária. É preciso valorizar o papel do enfermeiro no sistema de saúde. (…)

Que conselhos dá a quem está a começar as suas carreiras?
Que se entreguem à sua profissão. Antigamente, havia muito a questão da vocação e de as pessoas se deixarem humilhar de certa forma, porque faziam tudo em prol do utente. Hoje em dia, creio que as pessoas devem ir por gosto, mas devem fazer valer a sua opinião.
O papel do enfermeiro não é cumprir ordens médicas. O enfermeiro tem o seu código profissional e uma ordem que o defende. São estes profissionais que sabem se o que fazem está certo ou errado. Não cabe aos médicos supervisionar o trabalho do enfermeiro. Os enfermeiros têm de se fazer valer e, por vezes, entendo que eles próprios acabam por não se valorizar.

Carlota Pimentel

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