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Jorge Rita diz que o futuro do leite será o que os governos, a indústria e a distribuição quiserem e apela a uma concertação entre todos

A Federação Agrícola dos Açores esteve reunida, no final de Fevereiro, no Porto, com a ANIL – Associação de Industriais de Lacticínios dos Açores e com a Lactogal com o objectivo de concertarem posições sobre a definição de um preço por litro à produção que seja “justo” para os produtores e, consequentemente, garanta uma constante estabilidade financeiras das empresas agropecuárias açorianas.
Jorge Rita afirmou, a propósito, ao Correio dos Açores que o encontro foi “interessante”, manifestando-se todos “preocupados” com o impacto das crises e das guerras na Ucrânia e em Israel com influência na normal navegação no Mar Vermelho no sector leiteiro a nível nacional, europeu e mundial.

Produção, indústria
e transformação ‘condenados’
a entenderem-se

A mensagem que a Federação Agrícola dos Açores transmitiu, quer à ANIL como aos representantes da Lactogal, foi a de que “não há indústria sem produção, e também sabemos que não há produção sem indústria”. Neste contexto, Jorge Rita destacou também o papel “importantíssimo” da distribuição: “Para além da comunicação dos produtos como bens-essenciais para a nossa alimentação, também tem que se ver que a distribuição não pode condicionar demasiado as indústrias, porque, depois, ao fim ao cabo”, a pressão de preços entre uns (indústrias) e outros (distribuição), acaba por afectar sempre o preço do leite ao produtor como tem acontecido ao longo dos anos.
O fundamental, no entender de Jorge Rita, “é perceber o que nos custa produzir cada litro de leite”, o ‘rendimento’ que tem a indústria com este mesmo litro de leite e o valor a que a distribuição vai vender este litro de leite ao consumidor”. O que não pode acontecer é haver uma indústria sem uma estratégia e um rumo definido que, num ano quer uma coisa e, no ano a seguir, quer outra, o que “desorienta” os produtores, alega. “Temos de saber o que a indústria pretende e precisa” e, como salienta, isso não se consegue quando, num ano, se restringe a produção de leite e, no ano seguinte, se afirma que, sem leite, não se pode colocar produtos lácteos açorianos em determinados mercados. Com esta “oscilação” de opiniões “parece que não há estratégia” da indústria.
“Obviamente”, afirma Jorge Rita, que “nós precisamos e pretendemos ter um rendimento justo e com dignidade para que os agricultores continuam a acreditar e apostar num sector que é importante na nossa economia e que não é substituível por outros. Esta equação tem de ser pensada por todos”.

“Tem de haver competência
de todas as partes…”

Normalmente, não basta dizer que vamos baixar o preço do leite à produção para resolver o problema das indústrias porque esta fileira também passa pela distribuição até ao consumidor. “Tem que haver competência de todas as partes, como é óbvio. E o que nós queremos, nesta fase, atendendo a tudo o que se está a acontecer, é que haja um melhor entendimento entre todas as partes”, afirma. “ E se não há este entendimento, “tem que ser feito, obviamente, por quem percebe a nível regional e nacional.”
O que “temos”, afirma Jorge Rita, “são oscilações no preço, os desequilíbrios e a desconfiança que se tem criado ao longo dos anos em relação ao sector leiteiro sobre a produção, a indústria, a distribuição até ao consumidor. O que verificamos é que baixa o preço do leite ao produtor e só depois de passado demasiado tempo, é que baixa o preço ao consumidor. E o argumento, a justificação para tal é o mercado. É verdade que nós sabemos como funciona os mercados. Sabemos que há anos melhores e outros piores e não pode ser sempre a produção a acomodar, nos anos piores, as situações que são piores.”
O Presidente da Federação Agrícola dos Açores considera importante o diálogo com a indústria e, prosseguiu, “Obviamente que há a possibilidade de nós falarmos mais” em reuniões em que esteve o Secretário da Agricultura, António Ventura e o futuro Ministro da Agricultura.

Construir pontes

“Obviamente que temos de fazer essas pontes, e é importante, independentemente de estarmos muitas vezes em desacordo com a indústria e até a distribuição, nós dependemos uns dos outros e temos de conversar”, defende Jorge Rita, desejando que o responsável pelo sector agrícola na Região “também tenha esse comportamento, no sentido de todos estarmos juntos e não dar cabo de uma fileira que é extremamente importante para a nossa economia, para a nossa coesão económica e para a nossa balança comercial.”
Jorge Rita voltou a falar no óbvio, a “excelente qualidade” do leite que se produz nos Açores. O que nos faz falta claramente – e acho que é óbvio e é perceptível por todos – é a valorização dos nossos produtos nos mercados, e esse trabalho não compete à produção. Esse trabalho compete à indústria e à distribuição. E daqueles que governam espera-se que dêem os mecanismos para que as indústrias criem condições para valorizar e criar novos produtos com valor acrescentado mais elevado. E que esta aposta seja entendida pela distribuição.
Questionado pelo jornalista sobre qual a reacção da ANIL e da Lactogal à posição da Federação Agrícola, Jorge Rita concentra a sua atenção no que se está a passar na Terceira. A Lactogal é importante na Terceira, onde tem o preço do leite à produção mais baixo do que é pago no continente. “É preciso encurtar essas distâncias. Mas”, prosseguiu, “temos de ter uma estratégia conjunta, de comunicação, em que a distribuição não pode ficar aliviada desta situação.”
“É preciso termos aqui uma linha de rumo e essa linha de rumo tem que ser articulada entre todos e não podemos estar de costas viradas. O que precisamos é ter uma estratégia mais concertada e aprofundada em prol da Região Autónoma dos Açores num sector deveras importante para a nossa economia”, sublinhou Jorge Rita.

O diálogo “não é a única via”

A via para resolver os problemas dos lavrados açorianos é o diálogo? “Não é só. O diálogo é uma das vantagens. (…) Aquilo que é para nós os rendimentos dos agricultores por via do peso do preço do leite à produção é sempre uma situação que, ao longo dos anos, se arrasta. Temos falado com o Presidente do Governo dos Açores sobre esta situação. Tem que encontrar todos um preço que achamos seja justo para todos, tendo por base o dinheiro gasto naquilo que são os custos de produção e, noutra base, naquilo que chega até ao consumidor”.
Se não se chegar a um acordo, “o que pode acontecer num futuro é haver menos produtores de leite, menos pessoas ligadas ao sector, menos economia e menos trabalho e este não é um cenário positivo. Por isso, a procura de entendimento tem de ser uma responsabilidade de todos. Na minha indústria, ninguém pode estar a pensar no sector no dia-a-dia ou no mês-a-mês, tem de se pensar no longo prazo, para se ter sustentabilidade. E é com medidas a longo prazo que temos de agir em conjunto, mesmo que nem sempre concordemos uns com os outros”. O que é “importante e fundamental” é “estar conscientes da problemática do sector, das dificuldades que o sector tem passado ao longo dos anos, da desmotivação que pode existir, temos todos a obrigação, sem excepção, de actuar para que as pessoas acreditem e confiem neste sector.”

“O futuro depende da indústria”

Perante a questão sobre se antevê cenários de grandes quebras na produção de leite nos próximos tempos nos Açores?, o Presidente da Federação Agrícola responde com a sua experiência do dia-a-dia: “o que vejo é o que vai chegando por grande parte dos produtores, atendendo à situação actual, à insegurança que as pessoas têm na produção de leite, aqueles que vão mudando por necessidade. As pessoas só saíram da produção de leite porque não tinham rendimentos suficientes, não tinham confiança no que a indústria estava a fazer. E temos a falta de mão-de-obra e a falta de expectativas em relação do sector.”
O comportamento da indústria, segundo Jorge Rita, “é que vai definir, no futuro, claramente aquilo que a produção vai fazer. Não são os produtores, não são as associações que definem, quem define são as indústrias. Se continuarem a pagar melhor, obviamente que vão ter o leite que querem e a quantidade que querem. Caso não façam essa parte, os produtores têm que resolver esse problema. Não podem ficar amarrados a mais endividamento para produzir mais leite para as indústrias. Obviamente que não compensa em termos de rendimentos.”
“A grande responsabilidade do sucesso do sector leiteiro na Região passa e muito pelas indústrias de lacticínios. Não só, nós temos de saber que esta conversa depois pode surgir e é bom que surja. É preciso tentar sempre reduzir os custos de produção. (…).
“Para o futuro, há que melhorar toda a fileira do leite desde a produção, a transformação, a distribuição até ao consumidor e isso faz-se com o envolvimento do Governo dos Açores e do Governo da República”, concluiu Jorge Rita.

João Paz
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