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Jakow Trachtenberg: a genialidade que triunfou sobre a tragédia

Caro leitor, tal como prometi no meu último artigo, eis uma síntese biográfica do criador do Método deTrachtenberg, que propõe um conjunto de regras para efetuar cálculo mental rápido e eficiente. Este resumo é baseado no seu livro TheTrachtenberg Speed Systemof Basic Mathematics, o qual merece ser lido, pois“a vida de Trachtenberg é tão surpreendente quanto o seu brilhante sistema matemático, que muitos especialistas acreditam que acabará por revolucionar o ensino da Aritmética nas escolas de todoo mundo.”
Jakow Trachtenberg nasceu a 17 de junho de 1888,em Odessa, na altura, uma cidade costeira do Império Russo situada nas margens do Mar Negro. Desde cedo mostrou a sua aptidão para a matemática. Frequentou escolas de prestígio e licenciou-se com distinção no afamado Instituto de Engenharia de Mineração, Berginstitut, de São Petersburgo, tendo ingressado nos estaleiros de Obuschoff, conhecidos mundialmente, ainda como estudante de engenharia. Com apenas vinte e poucos anos foi nomeado engenheiro-chefe. Naqueles dias governados pelo Czar, havia a ambição de se criar uma marinha de excelência e 11 000 homens estavam sob a supervisão de Trachtenberg, que apesar de chefiar os estaleiros era um dedicado pacifista.
Com o romper da Primeira Guerra Mundial, ele organizou a Sociedade dos Bons Samaritanos, que treinou estudantes russos para cuidar dos feridos, um trabalho que recebeu reconhecimento especial do Czar. O assassinato da família imperial em 1918 pôs fim ao sonho russo de uma marinha grandiosa e acabou com a expectativa dele emter uma vida pacata e feliz.
Após a morte do Czar assistiu-se na Rússia a atos de grande violência contra os quais Trachtenberg se manifestou, colocando a própria vida em perigo. No início de 1919, soube que ia ser assassinado e, disfarçando-se de camponês, deslocava-se à noite e escondia-se durante o dia, conseguindo chegar até à Alemanha.
Berlim, cidade com ruas largas eclima frio, lembrava-lhe São Petersburgo, tornando-se assim o seu lar. Num simples e modesto quarto, ele recomeçou a sua vida e fez amizade com os jovens intelectuais amargurados e desiludidos do pós-guerra. Como editor de uma revista, falava frequentemente em nome deste grupo quando suplicava à Alemanha um futuro de paz.
Trachtenberg casou-se com uma bela mulher da aristocracia, a condessa Alice. A sua reputação cresceu à medida que ele escreveu uma série de obras críticas sobre a Rússia e compilou o primeiro livro de referência sobre a indústria russa, chegando a ser considerado o maior especialista europeu em assuntos russos. Graças à sua mente inventiva desenvolveu um método de ensino de línguas estrangeiras que ainda é usado em muitas escolas alemãs.
A agitação dos seus primeiros anos parecia ter ficado para trás. Mas com a chegada de Hitler, voltou a correr risco de vida. Com coragem, manifestou-se contra o fascismo. A sua reputação era tal que Hitler inicialmente optou por ignorar os seus ataques. Todavia, quando as suas acusações se tornaram mais contundentes, Hitler marcou-o para o esquecimento.
Em 1934, sabendo que se permanecesse na Alemanha seria morto, Trachtenberg, mais uma vez, fugiu para sobreviver. Acompanhado pela mulher fugiram para Viena, onde se tornou editor de um periódico científico internacional. Enquanto o mundo se preparava para a guerra, Trachtenberg, para promover a causa da paz, escreveu Das Friedensministerium (O Ministério da Paz), uma obra amplamente lida que lhe rendeu os aplausos de governantes como Roosevelt, Masaryk e Van Zeeland. Contudo, no mundo inteiro a paz estava comprometida e por um fio.
Os alemães marcharam sobre a Áustria e o nome de Trachtenberg encabeçou a lista dos mais procurados por Hitler, acabando por ser preso. Conseguiu escapar para a Jugoslávia, onde ele e Alice, viviam amedrontados. Raramente aventuravam-se a sair durante o dia, não fazendo qualquer amizade.
Mas esta liberdade durou pouco. Certa noite foi capturado pela Gestapo e enviado para um campo de concentração conhecido pela sua brutalidade. O menor desrespeito das regras resultava em formas ultrajantes de punição. Diariamente as fileiras da prisão eram dizimadas pela seleção aleatória de vítimas para os fornos.
Para manter a sua sanidade mental perante a brutalidade do cárcere, Trachtenberg refugiou-se na matemática que lhe proporcionava um mundo de lógica e ordem. Sem quaisquer recursos, recorrendo apenas à sua mente como ferramenta, criou um método infalível para realizar cálculos mentais complexos. A matemática, até então um passatempo, tornou-se na sua tábua de salvação.
Durante os quase sete anos em que esteve em cativeiro, cada momento livre foi gasto no seu sistema simplificado de cálculo. Os gritos das celas húmidas e das câmaras de tortura, a fetidez dos fornos e a constante ameaça de morte, desvaneceram-se à medida que ele calculava obstinadamente combinações matemáticas—inventado regras e provando-as repetidamente, para tornar o sistema ainda mais simples. As dificuldades estimularam a sua genialidade.
Não dispondo de meios, anotou as suas conclusões em restos de papel de embrulho e em velhos envelopes, trabalhando tudo mentalmente. Como esses pedaços de papel eram valiosos! Hoje, quem usa o Método de Trachtenberg acha-o tão fácil que todos os problemas podem ser trabalhados mentalmente e apenas as respostas anotadas.
Pouco depois da Páscoa de 1944, Trachtenberg soube que ia ser executado. Conformando-se com o seu destino, refugiou-se ainda mais no seu mundo próprio. Calmamente, continuou a trabalhar, com o intuito de terminar seu sistema e confiou o seu trabalho a um companheiro de prisão.
A condessa Alice, que nunca esteve longe do campo de concentração, soube da sentença de morte. Despojando-se do que restava das suas jóias e dinheiro, ela subornou os serviços e conseguiu transferir o marido clandestinamente para outro campo pouco antes da sentença ser executada.
Foi enviado para Leipzig, que havia sido fortemente bombardeada e que estava num caos. Não havia comida, nem aquecimento, nem quaisquer instalações. No sombrio quartel, as fileiras crescentes de beliches duros estavam tão lotadas que era impossível deitar-se. Sentia-se completamente desmoralizado. Muitas vezes os mortos jaziam durante dias, os reclusos estavam demasiado fracos para cavar sepulturas e os guardas em pânico para fazer cumprir as ordens. Na confusão, qualquer prisioneiro determinado, disposto a arriscar a vida, poderia escapar para a liberdade. Aproveitando a oportunidade, rastejou no escuro da noite, conseguindo passar as cercas duplas de arame farpado.
Juntou-se à esposa, que lhe dedicou todo o seu tempo, força e dinheiro para ajudá-lo. Mas ele não tinha passaporte nem qualquer tipo de documento. Sendo um cidadão sem pátria, estava sujeito a ser preso e, mais uma vez, foi levado sob custódia. Um alto funcionário que conhecia o seu trabalho enviou-o para um campo de trabalhos forçados em Trieste, Itália, onde passava o dia a partir pedra, mas o tempo estava mais ameno e os guardas não eram tão severos. Silenciosamente, Alice subornou alguns guardas para levarem mensagens ao marido e uma fuga foi novamente planeada. Numa noite sem estrelas no início de 1945, Trachtenberg galgou uma cerca de arame e rastejou pela relva alta enquanto os guardas, nas torres de vigia, disparavam contra ele. Foi a sua última fuga. Alice esperava-o no local combinado e juntos atravessaram a fronteira para a Suíça.
Recuperou parte das suas forças num campo para refugiados. À medida que convalescia lentamente, aperfeiçoou o seu sistema de cálculo, aquele que o impediu de enlouquecer no cativeiro e que agora lhe permitia começar uma nova vida.
Após a guerra , Jakow emigrou para os Estados Unidos, onde publicou o seu método no livro intitulado The Trachtenberg Speed System of Mathematics, o qual foi um sucesso, tendo sido traduzido para vários idiomas.
Ao longo da sua vida, Trachtenberg continuou a desenvolver e a aperfeiçoar o seu método, tendo escrito outros livros sobre matemática, incluindo The Trachtenberg Speed Systemof Mental Calculation e The Trachtenberg Speed Systemof Roman Numerals. Considerado um dos pioneiros do cálculo mental, ele tinha interesse numa ampla gama de assuntos, incluindo matemática, ciência, filosofia e música, tendo inclusive estudado música também na Universidade de Odessa. Foi um defensor do ensino da matemática de forma divertida e envolvente, tendo fundado em 1950 o Instituto Matemático de Zurique, onde se dedicou à pesquisa e ensino da matemática.
Morreu em 1953, em Zurique, deixando um legado de resiliência, inteligência e criatividade.
E com a história deste homem desejo a todos um excelente dia da mulher!

Maria do Carmo Martins

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