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Estudante da Universidade de Coimbra faz tese de mestrado sobre o impacto e sustentabilidade do turismo na ilha do Pico na óptica do residente

João Algarvio é um estudante, de 22 anos, que está a tirar um mestrado no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Apesar de natural e residente em Coimbra, decidiu realizar uma dissertação de mestrado sobre o “impacto e sustentabilidade do turismo na ilha do Pico, na perspetiva dos residentes”. Até agora, sente que há uma grande participação dos picoenses no inquérito, o que “mostra preocupação com a sua ilha”.

Correio dos Açores – Qual é o motivo para que o tema da sua tese de mestrado na Universidade de Coimbra seja sobre a sustentabilidade do turismo no Pico?
João Algarvio – Decidi fazer sobre a lha do Pico quando a visitei pela primeira vez, em 2020, por percepcionar que havia lá muitos problemas relacionados com os impactos ambientais e também sócio-culturais. Isto foi o que me motivou para iniciar esta investigação. Como sou um estudante em turismo, fiz uma licenciatura em Turismo, Território e Património, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e estou agora a realizar um mestrado, sendo que no primeiro ano do mestrado tive uma unidade curricular relacionada com a sustentabilidade, e isso motivou-me para ter conhecimento teóricos e práticos para partir para esta investigação. Tenho de salientar que a Região Autónoma dos Açores foi considerada, em 2019, o primeiro arquipélago sustentável do mundo. Isto atribuiu uma importância significativa aos Açores. É uma região com um atributo único, a sua natureza, cultura e património local.

Apesar de não ter nascido nos Açores, o que lhe despertou interesse no Pico?
Eu nasci e cresci aqui em Coimbra, mas os Açores sempre me despertaram muita atenção. Vejo a minha vida profissional e pessoal na ilha do Pico. A minha namorada, inclusive, é da ilha do Pico e também estuda na Faculdade de Línguas Modernas, em Coimbra. E o facto de ter essa ligação com ela deu-me a hipótese de entrar em contacto com os residentes. Quando estive no PIco pela primeira vez, posso dizer que fui muito como turista, visto que eu não tinha muito contacto com as pessoas. Quando começamos a ter uma relação, de ter essa ligação, comecei a falar com mais pessoas da ilha, de diferentes concelhos de lá, isso foi fundamental para o estudo. Apesar de ser algo mais pessoal, isso tem sempre influência.

Porquê um estudo somente sobre a ilha do Pico?
É uma pergunta muito interessante. Isto está relacionado com o objecto de estudo. Muitas vezes, em geografia e no turismo, é muito importante quando nós temos um foco num só espaço, num só território. Por vezes, é fácil gerar confusão, por exemplo, fazer um estudo geral dos Açores como estou a fazer sobre os impactos ambientais e socioculturais para uma dissertação de mestrado seria demasiado extenso. Não digo para uma tese de doutoramento, apesar de fazer todo o sentido. Por exemplo, estou a fazer um inquérito à população da ilha do Pico, agora eu sozinho a fazer uma dissertação de mestrado a fazer um inquérito a todos os residentes dos Açores. Acho que seria muito importante e interessante fazer isso, mas eu prefiro fazer focar-me numa só ilha para ter os resultado específicos de uma ilha. Aliás, são nove ilhas e todas elas são diferentes. Cada uma das ilhas tem os seus problemas.

Qual é o impacto do turismo no Pico?
O turismo, como em qualquer território – e isto está estudado –, tem sempre impactos positivos e impactos negativos. Posso referir alguns impactos do turismo na ilha do Pico. Há três impactos ambientais que o turismo pode ter. Em primeiro lugar, o nível de sobrecarga em espaços naturais, ou seja, em termos de poluição e o desgasto do solo. Em segundo lugar, o impacto que a actividade de aviação tem, mas é preciso lembrar que se não houvesse aviação, quase não haveria turismo nos Açores, visto que é o que permite a maioria dos turistas viajar para o arquipélago. Por fim, a paisagem fica alterada com a construção de alojamentos, infraestruturas e equipamentos turísticos, e isso já noto na ilha. Estou a dizer os impactos gerais, não significa que corresponde totalmente à realidade de lá. Por exemplo, os impactos económicos negativos são a subida dos preços, o aumento do custo de vida, o aumento geral da restauração, do comércio, dos transportes e dos serviços, além da falta da mão-de-obra. A nível sociocultural, por exemplo, o artesanato vir quase todo do estrangeiro, o aumento da criminalidade e a perda da identidade cultural, com a questão da globalização. Estou a referir de um modo geral. Também há muitos impactos positivos, como criar postos de trabalhos, gerar estruturas, melhor acessibilidade para a população, conserva e preserva o património natural, entre outros impactos positivos que o turista tem nos territórios.

Quais são as principais críticas dos residentes do Pico?
As principais críticas feitas, em geral, são os aumentos dos preços e a sobrecarga em certos espaços da ilha. O aumento dos preços é mais na perspectiva económica. Isto está relacionado com a falta de casas e de habitação para os residentes. Há uma sobrecarga em certos espaços naturais, como nas poças da praia na costa e na Montanha do Pico – há muitas pessoas que acham que há um excesso de subidas à maior montanha de Portugal. É preciso salientar que ainda estou a receber respostas. Comecei o inquérito no início de Fevereiro e ainda vai estar aberto durante algum tempo. Já tive muitas respostas, por exemplo, até esta manhã, recebi 255 respostas, há um grande interesse da população em colaborar.

O estudo é na perspetiva dos residentes, mas há empresas que estão interessadas a colaborar no seu caso de estudo?
O inquérito é anónimo, por isso não consigo identificar quem participa, mas já recebi respostas de duas empresárias do Pico. Na última questão do inquérito, perguntose a pessoa tem algum negócio ou empresa na área do turismo, na qual já tive 10 respostas positivas. Numa das opções de respostas, também coloquei a hipótese de resposta “a pessoa trabalha para uma empresa”, ou seja, se é empregado numa empresa, sendo que também já tive várias respostas. Eu acredito que vou ter mais respostas em Maio, que é numa altura em que estarei na Ilha do Pico, visto que vou estar mais em contacto com as pessoas.

Há uma grande concentração em determinadas zonas de São Miguel, o que acha que deve ser feito para distribuir o melhor o turismo?
Aquilo que eu conheço da ilha de São Miguel – com a informação que tenho através de amigos, familiares, artigos -, é que é uma ilha muito procurado em turismo. Eu sei que há muitos espaços naturais, como as termas. Eu acho que o facto de os residentes terem de pagar para poder usufruir as termas não é muito justo. Agora, acho que os residentes possam entrar no sistema de reservas para ir lá faz sentido, visto que assim há um maior controlo das poças. Não acho que se justifica que um resistente pague o mesmo que um turista para ir lá, visto que vive na ilha e paga os impostos.

Quais são as conclusões que tira do inquérito feito até agora?
No inquérito, as perguntas tem o foco dos impactos positivos e impactos negativos a nível ambiental, económico e sociocultural na Ilha do Pico. Tenho notado que há muitas respostas que vão ao encontro dos impactos negativos, mas há um número considerável de respostas positivas. Reparei que as respostas estão muito equilibradas no impacto económico, ou seja, o número de respostas positivas e negativas são muito semelhantes. Senti um grande número de respostas negativas nos impactos ambientais. Considero que os habitantes da Ilha do Pico são muito preocupadas e cuidadosas com a sua ilha, acho que é uma observação muito interessante. No entanto, isto também me causa alguma preocupação, visto que é um sinal que as políticas de sustentabilidade que o Governo dos Açores deveria adoptar não estão a ser bem aplicadas, na Ilha do Pico.

Filipe Torres
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