Ana Pires, a primeira mulher portuguesa a concluir com sucesso o programa de Cientista-Astronauta apoiado pela NASA, está nos Açores para uma série de palestras em torno do tema “Space SHEroes: quando as Mulheres Desafiam os Limites da Ciência e da Tecnologia.” Neste dia especial, diz-nos que devemos “inspirarmo-nos naquelas mulheres que desafiaram os seus limites e alcançaram os seus sonhos, pois se elas conseguiram, também vamos conseguir”
É um modelo real para as mulheres e uma inspiração para os mais novos. O que é que a inspirou em criança a seguir uma carreira na ciência?
Ana Pires (Investigadora INESCTEC, astronauta análoga, cientista-astronauta): A primeira mulher que me inspirou e inspira até hoje é a minha mãe, mas esta paixão que começou primeiro com a engenharia veio um pouco da influência do meu avô paterno. Somos três netos e na altura a minha irmã já tinha seguido a área de letras e o meu avô tinha o sonho de ter um neto engenheiro. Começou um pouco por aí, mas não senti como uma obrigação. Foi antes uma motivação para seguir engenharia e ainda bem que o fiz porque enveredei por esta área e nunca mais a larguei, pois realmente é a minha paixão. Toda a minha vida desenvolvi ciência e é isso que me move e faz levantar todos os dias.
Sempre sonhou ser astronauta?
Confesso que não. Creio que, como toda a gente, passei por várias fases. Quis ser professora, advogada e mais tarde surgiu a paixão pela engenharia. Mas, um bocadinho devido às histórias e aventuras que a minha mãe e a minha irmã contavam sobre as sombras que víamos na lua, também surgiu uma fase em que disse ‘vou ser astronauta’.
O espaço veio depois das rochas, do mar e da robótica. Pode falar do percurso que a levou a ser cientista-astronauta?
Em primeiro lugar, quero dizer que esta conjugação parece um bocadinho estranha. Mas, também é isso que me leva a vir a São Miguel para fazer esta viagem do fundo do mar até ao Espaço, passando também pela Terra. Esta interacção entre Espaço-Terra-Mar, para mim, faz todo o sentido até porque há um denominador comum que é a engenharia, tecnologia e ciência. Comecei a investigar a parte mais mecânica das rochas, a trabalhar as tecnologias do mar, e em 2017 tornei-me investigadora do Centro de Robótica e Sistemas Autónomos do INESC TEC, onde iria estabelecer a ponte entre os recursos geológicos e os robôs subaquáticos que os meus colegas desenvolviam para explorar o fundo do mar e ambientes extremos.
Mais tarde, apercebi-me que se calhar estava no sítio certo para fazer estas investigações onde se interligam todas as vertentes. De facto, este laboratório oferecia todas as condições para eu sonhar um bocadinho com as estrelas, com a Lua e com Marte e, no fundo, desenvolver esta ligação ao Espaço. Tenho os pés assentes na terra e tenho perfeita noção de que será muito difícil ir ao Espaço, mas realmente a minha paixão é fazer ciência na Terra e desenvolver tecnologia, para encontrar soluções que podem servir para explorar o Espaço. E é isso que temos feito.
Quais foram os maiores desafios para concluir o programa de Cientista-Astronauta da NASA. Como ultrapassou essas dificuldades?
É uma excelente pergunta, porque de facto foi mesmo desafiar os meus próprios limites. Porquê? Porque eu tenho medo de voar (risos). E este curso de Cientista-Astronauta implicava fazer voos de microgravidade – aqueles voos parabólicos para sentirmos as forças-g em gravidade muito perto de zero, gravidade lunar ou de Marte. Fazer estes voos acrobáticos foi um grande desafio para mim e só conseguir ultrapassar estes medos porque o meu objectivo era aprender e trazer conhecimentos para o meu país. O meu foco foi sempre ultrapassar os meus medos e não deixar que estes me impedissem de fazer aquilo que mais gosto.
Como foi a experiência de simular uma missão em Marte?
Fui para a missão da “Mars Desert Research Station”, no deserto do Utah, com o intuito de aprender, uma vez mais, e trazer esses conhecimentos para o nosso país. Tudo isto culminou na conceptualização da primeira missão análoga em Portugal. Em termos geológicos, o deserto do Utah tem imensas similaridades com Marte. Acordar em “Marte” foi uma experiência fantástica, mas também foi muito importante para aprender mais sobre o trabalho de equipa e para, por exemplo, lidar com questões como estarmos com o fato espacial, com mais de 22 quilos às costas, enquanto estamos a fazer trabalho de campo. Também foi uma oportunidade para testar tecnologias do INESP TEC e trazer muitos dados que, inclusive, já foram publicados. Foi, acima de tudo, uma aprendizagem muito importante para aquilo que sucedeu depois.
Foi líder e comandante no Projecto Camões, a primeira missão análoga lunar em Portugal? Como foi a experiência na Gruta Natal na ilha Terceira?
Foram sete dias completamente intensos em termos de ciência, de experiências que desenvolvemos neste ambiente subterrâneo, dentro deste tubo de lava. Ficam as saudades das histórias que a gruta nos contava todos os dias, porque, de facto, uma coisa é estarmos a fazer trabalho de campo dentro destes ambientes e outra é estarem sete pessoas, durante sete dias, 24 sobre 24 horas, dentro da gruta. Estamos muito ansiosos porque no final deste ano, ou no início do próximo, sairá um livro onde vamos finalmente ter a oportunidade de publicar os resultados mais relevantes desta aventura.
Mas, acima de tudo, queria partilhar que esta foi a primeira missão análoga liderada pelos Montanheiros, uma associação local que teve um papel fundamental na ilha Terceira. Foi co-liderada pelo INESP TEC, a minha associação, e teve o apoio da Câmara Municipal de Angra, da Câmara de Comércio e do Governo Regional dos Açores. Para além disso, quero frisar que a componente de liderança feminina foi muito importante nesta missão. A crew zero desta missão foi liderada por duas mulheres, eu como comandante e a Yvette Gonzalez como directora executiva. Depois, houve toda a diversidade com vários países, investigadores e exploradores de diversas áreas.
A componente educacional e de divulgação também foi muito importante. Dentro da gruta tivemos sessões ao vivo com escolas dos Açores e do continente, e foi incrível. Esta experiência com os mais novos é verdadeiramente a recordação que levo no coração.
Considera que ainda é difícil para as mulheres chegarem a posições de liderança? Qual a importância de ter mulheres nestas posições?
Sim, ainda é difícil. Tenho a oportunidade de estar em São Miguel nas diversas conversas para falar um bocadinho sobre como é importante criar “espaço” para as mulheres no Espaço. Estamos muito mal representadas, ganhamos muito menos e ainda há um longo caminho a percorrer.
Num discurso mais positivo, quero acreditar que um dia não vamos estar a falar sobre o facto de eu ser mulher, mas sim sobre o valor pessoal e profissional de cada indivíduo. Quero acreditar que um dia vai haver igualdade.
Termos a primeira missão análoga em Portugal a ser liderada por duas mulheres e a professora Zita Martins que está, neste momento, a liderar um grupo de mulheres na Agência Espacial Europeia são grandes exemplos de que já está a acontecer uma mudança de mentalidades no nosso país.
Cada vez mais, vemos mulheres inspiradoras a chegar a altos cargos e acredito que brevemente vamos ver essa liderança feminina de uma forma muito natural. É o que desejo. Aproveito para desejar a todas as mulheres um feliz dia e vamos continuar a acreditar que um dia não vamos precisar de ter esta discussão.
É a primeira cientista-astronauta Portuguesa. O que significa para si ser a primeira mulher atingir um marco destes?
Sinto-me orgulhosa porque levei o meu país mais longe e porque ultrapassei os meus medos e os meus limites. Mas, por outro lado, é uma grande responsabilidade. Sinto que abri portas para muitas mulheres que irão seguir os mesmos passos. Já tivemos mais uma colega que se tornou cientista-astronauta, uma médica e investigadora brilhante, a Doutora Andreia Oliveira.
Qual o maior feito que pretende atingir na sua carreira?
Não sei dizer onde é que estará o meu limite. Estou sempre a dizer ‘esta é a minha última aventura’ mas, por querer aprender mais, acabo sempre por me envolver em mais aventuras. No entanto, tenho de admitir que o meu sonho era ter um projecto onde pudesse fazer ciência para ter uma tecnologia na lua, por exemplo. Acredito que devemos sempre sonhar, porque ao fazê-lo estamos a estabelecer metas para o futuro.
Há poucos dias, depois de 30 anos, finalmente pudemos ver novamente um satélite português no espaço. Portanto, quem sabe se um dia teremos uma tecnologia na lua, a fazer ciência e adquirir dados. Era este o meu sonho.
Qual o papel das mulheres na indústria espacial e como é que podemos criar “espaço” para estas ‘SHEroes’ em Portugal?
Só há uma forma de conquistar este “espaço”: inspirarmo-nos naquelas mulheres que desafiaram os seus limites e alcançaram os seus sonhos, pois se elas conseguiram, também vamos conseguir. Temos os números de como estamos tão mal representadas na indústria espacial. Das mais 600 pessoas que já foram ao espaço, só 11% eram mulheres. Isto é muito pouco. Não existe uma receita, é apenas um conselho, algo a que nos podemos agarrar: inspirarmo-nos nestas mulheres que já conseguiram alcançar estes sonhos. Precisamos de mais representatividade, mais “espaço” e de mostrarmos este nosso lado feminino pois é muito importante esta diversidade, inclusão e abraçarmos esta equidade.
Desde 2018 que desenvolve actividades de divulgação STEAM em especial junto das escolas com a companhia do NAO, um robô programado para fazer Tai chi. Tem alguma história dos mais novos que a tenha marcado particularmente?
Tenho uma história que guardo para toda a vida. Fui falar a uma turma da pré-primária, com miúdos de três e quatro anos, onde eu achava que estas questões não tinham impacto. Mas a verdade é que têm, pois os miúdos são completamente apaixonados e têm uma aptidão especial para a tecnologia e exploração espacial. E foi incrível achar que naquelas 20 e tal crianças eu teria zero impacto e, mais tarde, encontrei uma das mães que me disse que a filha, uma das meninas com 4 anos, em vez de pedir o que normalmente pediria no Natal, uma boneca, uma Barbie ou uma cozinha, pediu um robô. Para mim, isto foi incrível e não importa se criei impacto apenas numa menina, porque esta vai inspirar muitas outras. Com apenas quatro anos, ela apaixonou-se por estas questões e tão cedo mudou a sua mentalidade.
Que mensagem quer deixar neste dia?
Uma vez que vou ter um Dia da Mulher tão especial na ilha de São Miguel, quero deixar uma mensagem em particular aos Açores que me receberam tão bem e onde tivemos oportunidade de fazer a primeira missão análoga em Portugal. Quero frisar o potencial que a Região tem e como também pode ser inspiradora para que todas as mulheres açorianas possam sonhar mais alto.
Daniela Canha
