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Emigração dos jovens açorianos, uma partida silenciosa

Cesto da Gávea acolhe com gosto este texto do Magister da Tuna Académica da Universidade dos Açores.
Vasco Garcia

A emigração da juventude açoriana não é apenas uma questão de estatísticas e números, é uma narrativa de sonhos adiados e potencial desperdiçado. Não é novidade nenhuma quando olhamos para as estatísticas e observamos que o número de indivíduos residentes na Região Autónoma dos Açores é o mais baixo dos últimos 100 anos. Os Censos 2021 evidenciam, ao contrário das últimas décadas, uma tendência decrescente na população açoriana, sendo que entre 2011 e 2021, os Açores perderam cerca de 4,2% da população. Este valor é obtido através do somatório do saldo migratório (diferença entre a imigração e a emigração) e do saldo natural (diferença entre nascimentos e óbitos). Os números de nascimentos e óbitos são conhecidos, pelo que basta um simples exercício matemático para se concluir que o decréscimo de 10 359 indivíduos residentes é maioritariamente explicado pelo défice do saldo migratório. A situação pode não parecer alarmante, contudo, quando olhamos para a faixa etária dos 18 aos 35 anos, verifica-se uma diminuição em cerca de 20% do número de residentes. A fixação dos jovens qualificados é um dos grandes desafios da próxima década, dadas as particularidades da Região Autónoma dos Açores ao nível das limitadas oportunidades de emprego, dos baixos salários e a falta de perspectiva de crescimento e valorização profissional, a pouca diversificação económica, o isolamento geográfico, a oferta limitada de cursos superiores existentes na região e a falta de políticas de retenção de talento são alguns dos factores que contribuem para o êxodo que se tem verificado. Contudo, existem factores intrínsecos aos jovens que os influenciam, como o desejo de crescimento e desenvolvimento pessoal, a independência e autonomia ou o simples desejo de explorar diferentes culturas, estilos de vida e formas de estar.
Nos últimos tempos, sobretudo devido à instabilidade política e económica que se observa na região e no país, muito tem sido dito acerca das possíveis abordagens para evitar a saída dos jovens talentos que silenciosamente hipoteca o futuro da nossa sociedade. No entanto, através de uma abordagem proativa e uma visão a longo prazo, é possível reverter esta tendência e criar condições favoráveis para os jovens prosperarem e contribuírem para uma sociedade mais qualificada e, consequentemente, mais preparada para os desafios de um mundo cada vez mais globalizado. Apesar da pequena dimensão do tecido empresarial e da reduzida massa crítica nos Açores, torna-se imperativo que as entidades da sociedade assumam um papel activo na retenção de talentos e na consciencialização da mudança de paradigma que se tem verificado. Em primeira instância, é preciso perceber o que procuram os jovens em início de carreira, quais as suas necessidades e principais preocupações, pois só assim conseguiremos desenvolver um modelo de desenvolvimento adequado e orientado para a valorização dos recursos.
Esta valorização deve partir primeiramente das empresas, que devem proporcionar ambientes de trabalho estimulantes e desafiantes, oportunidades de crescimento profissional, benefícios competitivos e uma cultura organizacional que valorize e reconheça os talentos emergentes. Seguidamente, das instituições regionais de ensino, através da oferta de programas de formação em áreas estratégicas e de interesse para a Região (como a saúde, a economia do mar, a tecnologia e o digital). Num mundo cada vez mais globalizado, associações profissionais e instituições da sociedade civil devem desempenhar um papel importante na promoção do networking, na criação de redes de contactos, no incentivo ao desenvolvimento de projectos piloto com impacto local e regional. As autarquias e o Governo Regional devem implementar políticas de apoio ao empreendedorismo, concedendo apoio técnico, jurídico e financeiro para os jovens desenvolverem os próprios negócios (ex: isenção do IRC nos primeiros anos de actividade das empresas que desenvolvam actividade na região); investir na melhoria das infra-estruturas em sectores essenciais como a saúde e a expansão e modernização da rede de transportes (rodoviários, marítimo e aéreo); a nível da habitação, os governos devem criar políticas de habitação acessível através de incentivos fiscais, o desenvolvimento de habitações sociais bem como a reabilitação urbana em áreas degradadas ou subutilizadas, intervir de modo a evitar a especulação imobiliária como também estabelecer parcerias público -privadas para o desenvolvimento de projectos habitacionais inovadores e sustentáveis. É também necessário envolver os jovens no processo de tomada de decisão e ouvir as suas preocupações, ideias e contributos. Incluir representantes juvenis em órgãos de decisão, conselhos consultivos e comissões governamentais poderá ser o início de uma caminhada onde se garanta que os jovens tenham uma voz activa, fortalecendo a democracia, mas também garantindo que as políticas e programas implementados respondem às necessidades e aspirações das próximas gerações. Sendo um tema muitas vezes ausente das manchetes da imprensa regional e dos média, é fundamental repensar o modelo de desenvolvimento regional centrado nos jovens, e traçar metas claras para o progresso de uma sociedade açoriana mais qualificada, informada e mais bem preparada para um futuro que trará novos desafios e paradigmas.

Gonçalo Goulart

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