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“São necessários mais oftalmologistas e é preciso abrir mais vagas desta especialidade” nos Açores, afirma o oftalmologista Gil Resendes

O glaucoma é uma doença assintomática e é conhecida, segundo Gil Resendes, “como o ladrão da visão, porque rouba a visão sem a pessoa se aperceber disso.” O oftalmologista e director do serviço de oftalmologia do HDES afirma que o glaucoma, se não for tratado adequadamente, numa fase inicial, leva à perda do campo visual periférico e depois a uma perda total da visão. O médico explicou, ainda, que para ser considerado glaucomatoso, o paciente tem de reunir três factores: ter hipertensão ocular, lesão do nervo óptico e restrição do campo visual. O glaucoma é a segunda causa de cegueira irreversível no mundo.

Correio dos Açores – Que importância atribui ao Dia Mundial do Glaucoma?
Gil Resendes (Director do Serviço de Oftalmologia do HDES) – Como todos os dias mundiais, pretende-se alertar para situações que, teoricamente, faz sentido chamar à atenção. O glaucoma é uma doença silenciosa que, habitualmente, não se manifesta por nenhuma queixa. A pessoa que tem glaucoma, de uma maneira geral, não tem os olhos vermelhos, não tem dor ocular nem alterações da visão, numa fase inicial. O que acontece é que se vai perdendo o campo visual periférico, sem que tenha essa percepção. No fundo, quando se assinala o Dia Mundial do Glaucoma pretende-se chamar a atenção para uma doença silenciosa e que justifica rastrear ou vigiar.

Que incidência tem o glaucoma na população açoriana?
Ao nível nacional, são cerca de 200 mil. É a segunda causa de cegueira irreversível. Nos Açores, a incidência deve estar muito próxima da média nacional, embora possamos ter um pouco mais devido à consanguinidade. O glaucoma é uma doença que tem alguma incidência familiar. Sempre que há mais consanguinidade, há mais prevalência nas doenças que são hereditárias.

O glaucoma é uma doença assintomática e silenciosa…
O glaucoma é conhecido como o “ladrão da visão”, porque rouba a visão sem a pessoa se aperceber disso. Ao avaliar a acuidade visual, geralmente, avaliamos o que a pessoa vê quando olha em frente. No entanto, a visão também abrange a visão lateral, aquilo a que denominamos o campo visual, que é o que vemos para os lados, para cima e para baixo, quando estamos a olhar em frente.
Com o glaucoma, as primeiras fibras nervosas a serem levadas são as responsáveis pela visão periférica. Habitualmente, só nos queixamos de falta de visão quando deixamos de ver para a frente. É muito comum para quem começa a perder o campo visual periférico, bater nas ombreiras das portas, raspar o carro ou partir os espelhos laterais do automóvel, porque, embora as pessoas não se apercebam, já perderam a visão periférica.
Numa fase final de glaucoma, a pessoa continua a ver bem quando olha em frente, mas, entretanto, já perdeu toda a visão periférica que é fundamental para o nosso dia-a-dia. É a chamada visão tubular, acabando mesmo na cegueira total.

Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é feito através da medição da tensão ocular e do campo visual. O glaucoma é uma doença crónica que não tem cura, tal como a maioria das doenças hoje em dia – a hipertensão, a diabetes, entre outras –, mas é tratável.
O glaucoma é uma conjugação de três factores. Quando se classifica um doente com glaucoma é porque este já tem, além da tensão ocular alta, lesões no nervo óptico, que são irreversíveis, que se traduzem por lesões do campo visual.
Muitas vezes, a pessoa começa apenas com hipertensão ocular, no entanto, esta pode ser tratada sem chegar a ter glaucoma. Se uma pessoa que tem hipertensão arterial for tratada, pode não chegar a ter um AVC ou um enfarte.

Qual a importância de um diagnóstico precoce?
Quanto mais precocemente for iniciado o tratamento, menores e menos graves serão as perdas campimétricas e da acuidade visual.
Embora alguns casos sejam mais complicados que outros, há muitas alternativas terapêuticas para o glaucoma. O importante é começar a tratá-lo precocemente, antes que haja lesões das fibras nervosas que uma vez lesadas são irrecuperáveis. Enquanto as células da pele se conseguem replicar e cicatrizar, as células nervosas não se replicam. Ou seja, é como as lesões da coluna em que a pessoa nunca mais recupera a mobilidade perdida).
A solução é rastrear e o rastreio passa por impedir a tensão. Se houver alguma história familiar de glaucoma, a pessoa deve ir ao oftalmologista. Pode, também, dirigir-se a uma óptica e pedir para lhe medir a tensão. Actualmente, a maior parte das ópticas tem um tonómetro de sopro que mede a tensão ocular. Se a tensão ocular for alta, deve recorrer ao oftalmologista.
Penso que a partir dos 40 anos deveria ser obrigatório a pessoa ter uma noção da sua tensão ocular. Além disso, algumas patologias estão associadas a uma maior prevalência de glaucoma. Por exemplo, os míopes têm mais tendência para ter glaucoma, bem como as pessoas que fazem terapêuticas com cortisona ou têm história familiar da doença.

O glaucoma pode ser prevenido?
Se o indivíduo tiver essa condição geneticamente determinada e propensão para isso, não se pode fazer nada. Pode-se apenas diagnosticar a doença precocemente e tratá-la atempadamente.
É possível que uma pessoa seja hipertensa do ponto de vista arterial e tenha uma tensão ocular normal, e vice-versa. É importante distinguir que uma coisa não está associada à outra. Se a pessoa fizer uma dieta pobre em sódio, provavelmente ajuda a controlar a sua tensão arterial, mas isso não se repercute na tensão ocular, que implica uma terapêutica específica.

Quais são os factores de risco associados ao glaucoma?
Em última análise, o glaucoma leva à cegueira, se não for tratado. O factor de risco é que a pessoa vai perdendo visão periférica e em fases finais perde a visão toda. O glaucoma é a segunda causa de cegueira irreversível no mundo.

Quais são os diferentes tipos de glaucoma?
Existem vários tipos de glaucoma: congénito, de ângulo aberto, de ângulo fechado. O glaucoma crónico de ângulo aberto é o mais prevalente. O glaucoma congénito é muito raro, 1/10.000, mas é preciso estar atento. Tenho alguns casos diagnosticados. Há pouco tempo, tive o caso de um bebé com dois dias que foi diagnosticado com glaucoma congénito.
O glaucoma de ângulo agudo surge em pessoas que têm o ângulo estreito. Ao estarem em situações de ambiente mais escurecido, por exemplo no cinema, pode desencadear uma dor aguda muito forte. Nestes casos, as queixas são completamente diferentes. Pode dar dor ocular aguda muito forte, geralmente acompanhada de vómitos porque a tensão ocular fica altíssima subitamente. Este glaucoma não nos preocupa muito porque é tratado e a pessoa fica curada.

Quais são as opções de tratamento disponíveis para o glaucoma e como funcionam?
Existem várias opções. Numa fase inicial, começa-se com uma gota ao deitar e depois passa-se para duas, três ou mais gotas. O que se pretende é que a tensão se situe em valores abaixo de 20, habitualmente. Às gotas, podem juntar-se comprimidos, seguido de tratamento a laser e, depois, tratamento cirúrgico.
O problema é que mesmo depois de diagnosticadas com glaucoma, muitas vezes, as pessoas não levam a sério porque não dói. Os pingos, a primeira arma terapêutica, muitas vezes dão olho vermelho ou causam um certo desconforto, e dão um sabor desagradável na boca (ao medicamento). Isso faz com que os doentes não tenham muita adesão à terapêutica. Ou seja, é muito comum o doente glaucomatoso não ser muito cumpridor, sobretudo nas fases iniciais, porque não tem dor, não sente grandes alterações visuais e sente-se desconfortável quando começa a fazer a terapêutica, deixando muitas vezes de a fazer.

Como é feito o acompanhamento de um paciente diagnosticado com glaucoma ao longo do tempo?
Inevitavelmente, tem que ir ao oftalmologista, ser medicado e controlado com medições periódicas da tensão ocular, e com repetições do campo visual. O paciente vai sendo seguido e, a partir daí, vemos se é necessário aumentar a medicação, propor cirurgia a laser ou cirurgia convencional. Há doentes mais fáceis de tratar; há outros mais resistentes à terapêutica. Cada paciente é único. Não há propriamente uma situação que se possa estender aos doentes todos.

Como se pode apoiar a sensibilização sobre o glaucoma e ajudar na detecção precoce dessa condição?
Estamos muito carenciados em termos de oftalmologistas. Seguimos os pacientes que conseguimos e não temos oportunidade de fazer rastreios. Temos em curso um rastreio para a retinopatia diabética. O glaucoma também poderá ser uma das ideias a implementar, embora tenha conhecimento de que tem havido alguns rastreios por parte do Lions Club. Tem havido restrições a nível das vagas nesta especialidade. Do meu ponto de vista, neste aspecto, a Ordem dos Médicos não tem sido feliz na opção que tem tomado. São necessários mais oftalmologistas e é preciso abrir mais vagas desta especialidade.

          Carlota Pimentel 
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