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“São Miguel tem crescido bem e tem acolhido bem o turismo científico”, afirma Bruno Novo

Um grupo de 45 pessoas (40 crianças com menos de 14 anos) do Colégio Júlio Dinis, do Porto, visitou a ilha de São Miguel durante quatro dias. No 10.º aniversário desde a primeira viagem, os jovens, que estão em tempo de aulas, vieram até à Ilha de São Miguel para ver “aquilo que não conseguem ver nos livros”. Em entrevista ao Correio dos Açores, Bruno Novo, Coordenador do Departamento de Ciências do Colégio Júlio Dinis, explica os muitos motivos que levam a que um vasto grupo de alunos ano após ano visite a ilha de São Miguel, “uma viagem que estará no currículo”, como diz.

Correio dos Açores – Como surgiu esta iniciativa? O Colégio Júlio Dinis já fez esta experiência no passado?
Bruno Novo (Coordenador do Departamento de Ciências do Colégio Júlio Dinis) – Há muitos anos. Nós, no Colégio Júlio Dinis, já temos a tradição de vir à ilha de São Miguel. A nossa primeira viagem foi em 2014, ou seja, este ano faz 10 anos. Fazemos a viagem a cada início de ciclo com os alunos do 7.º ano, e correu bem desde a primeira vez. É uma viagem que estará no nosso currículo e dos nossos alunos.

Qual é o objectivo desta iniciativa?
São inúmeros. Eu até consigo dizer que temos 14 objectivos. Nós temos muitos objetivos por aquilo que nós podemos transmitir aos alunos aqui, na Ilha de São Miguel: temos aqui a geologia ímpar; os conceitos de energia geotérmica, da sustentabilidade e do ambiente; a fauna terrestre única, com o Priolo; a fauna marina, que é preciosa e temos mais oportunidades; a economia; o turismo; a geografia; o clima e temos aqui um mundo diferente, com um contexto diferente. A experiência de viajar e de voar, o lazer que a ilha acaba por nos proporcionar a segurança é também outro objectivo, visto que acaba por enriquecer as relações interpessoais das crianças.

Quantas pessoas fazem parte da iniciativa, incluindo alunos? O grupo está na Ilha de São Miguel há quanto tempo?
Nós somos 45 pessoas – 40 crianças e cinco responsáveis. Nós fazemos quatro dias. Este é o nosso programa há vários anos. Apenas não viemos cá em 2020 e 2021 por causa da pandemia Covid-19.

O Colégio Júlio Dinis é uma escola internacional, por isso tem o ensino de Cambridge. O que consiste o ensino de Cambridge? Quais são as diferenças do ensino nacional?
Nós trazemos alunos do ensino nacional e do ensino internacional. Temos alunos oriundos da Rússia, da Ucrânia, do Canadá, da Alemanha, da França, dos Estados Unidos da América, de Israel, entre outros países. Estão todos no Colégio Júlio Dinis. Apesar de estarem em currículos diferentes, este convívio estimula muito para ambos os lados. Os alunos de língua internacional acabam por assimilar melhor e percebem o nosso contexto cultural e os alunos nacionais ficam mais multiculturais.
Eu não sou a melhor pessoa para falar do ensino de Cambridge, visto que não estou a fazer o Cambridge. No entanto, posso dizer que há um currículo muito diferente. Nós, no ensino português, temos um professor que dá Matemática, um professor que dá Ciências Naturais, um professor que dá Física e Química, enquanto no Cambridge temos um professor que dá as três disciplinas. Os temas que são tratados são diferentes, tal como a forma como os alunos são avaliados. No ensino de Cambridge, há um exame mundial naquele dia e naquela hora, sendo que a escola recebe os materiais. Isto acaba por ser muito semelhante aos exames nacionais, mas com uma dimensão internacional. Portanto, há uma logística e há uma preparação diferente dos alunos, em termos de materiais e de professores. É óbvio que temos alunos que dominam a língua inglesa, mas também temos alunos que não dominam, portanto acaba por ser um desafio. No entanto, temos professores preparados para isso.

Os alunos portugueses e estrangeiros estão a gostar da experiência? É a primeira deles na ilha?
Não é a primeira vez para todos, mas para todos é a primeira vez que estão como professores. Temos o André Jesus que está na agência de viagens e é a primeira vez que fazemos assim. Portanto, tudo aquilo que é logística, o André toma conta e nós estamos totalmente focados na componente pedagógica e científica. Os miúdos têm um livro de campo, também cada um dos alunos tem um tema que vão aprofundar e apresentar para os seus pais na pós-viagem. Assim, dá retorno e o feedback do investimento que esta viagem representa. Isto não é apenas sair e viajar, eles estão em tempo de aulas e têm essas aulas no campo, no ar livre – e é um gosto e um prazer fazer aulas assim.

Acha que os alunos ganham mais conhecimentos ao experienciar invés de aprender apenas através de livros? O que aprenderam que não teriam aprendido nos livros?
Nós fazemos isto sempre quando temos oportunidades. O ensino é sobretudo de experiencias. São experiências que causam problemas no bom sentido, que depois precisam de soluções, de criatividade e de sentido crítico. Estar no local é sinónimo de ver e fazer sentir o vento, o calor e o tacto. Todos os órgãos estão concentrados para a mesma resposta. Não é apenas esta experiência que estamos a ter e a falar que é mesmo muito enriquecedora e mergulhar na experiência, mas também no Colégio Júlio Dinis fazemos o mesmo quando é possível. Falo agora de biologia, por exemplo, quando falo de plantas, não faz sentido eu falar de plantas sem estar ao lado delas. Se eu não tivesse condições era uma coisa, mas acabamos por ter condições no Colégio para fazer isso. Quando saímos, é mais impactante e fica mais na memória que um livro, visto que o livro é um recurso. Nós mal usamos muitas vezes o livro como se fosse a meta, e ele é apenas um recurso – e deve ser apenas um recurso. Em casa, os alunos podem ler o livro e podem precisar do professor para apoiar a esclarecer a dúvida, mas é apenas na interação com o aluno e com a actividade é que se torna rica e significativa a aprendizagem. As melhores aprendizagens são as significativas. Se fizermos muitas vezes algo do início, os miúdos queixam-se de estar 200 minutos sentados, isso é monótono. Experimenta ver uma acção de formação de professores e vê se tu encontras os professores a conseguir estar 200 minutos sentados. É impossível pedir isso aos alunos.

Como tem sido gerir a situação com alunos com idade inferior a 14 anos?
A actividade é proposta e nós fazemos reuniões com os pais. Apenas fazemos actividades porque nós temos confiança com os alunos e os professores têm confiança nos professores. Isto acaba por ser uma rede, uma teia de ligações fortes. Contudo, posso-te dizer que esta é a melhor idade para os miúdos fazerem esta actividade. Os jovens ainda não entraram na adolescência, o foco deles ainda é a aprendizagem, ainda não se distraem muito – a adolescência tem um grande impacto na vida dos jovens de 14, 15 e 16 anos.

Acredita que mais escolas deviam fazer o mesmo de sair mais salas de aulas?
O Colégio Júlio Dinis aumentou muito este ano, passando de 800 alunos para 1500 alunos. É quase o dobro dos alunos que tivemos no último ano lectivo. Posso comparar com aquele primo que não vimos nas férias e quando nos encontramos em Setembro, ele está da nossa altura. Nós temos algumas dores de crescimento. O que queremos dizer com ‘dores de crescimento’ é que é para aí onde queremos ir, não é aí que já estamos. Começamos da base. Os nossos pequeninhos calçam galocha, põem um poncho, vão brincar para a terra, fazem buracos na terra e encontram bichinhos. Na Segunda-feira, encontramos um ouriço-cacheiro e tivemos a falar todos à volta do animal: o que se deve fazer quando encontramos um animal selvagem e o que se deve não fazer.
Eu sou de ciências, não falo em ‘acredito’, eu sei que é assim o caminho. Eu não vou dizer que ‘acredito’. A palavra ‘acreditar’, para mim, mistura-se mais com outras áreas. Temos melhores resultados quando é assim.

A viagem é somente para a ilha de São Miguel? Pretendem ir às outras ilhas dos Açores?
A ilha de São Miguel é muito rica. Escolhemos especificamente esta ilha pela diversidade de temas que falei no início. Faz todo o sentido. Está tudo muito próximo. Não envolve deslocações que vão queimar tempo que podíamos aproveitar de outra maneira. A ilha de São Miguel tem mesmo tudo aquilo que nós queremos. Acho que é uma relação que se vai manter durante muitos anos. E São Miguel está a responder cada vez melhor. Antes de dar aulas, eu fazia o trabalho do André, eu era guia turístico e trabalhava num centro de ciências em Santa Maria da Feira. Foi assim que comecei a trabalhar aqui na ilha. No início, conhecíamos o sítio, mas não tinha as melhores condições para receber as pessoas. Agora, quando chegamos, temos muita informação disponibilizada e também as questões que estão em cima da mesa a ser disputados estão a ser colocadas em práticas. Portanto, São Miguel tem crescido bem e tem acolhido bem o turismo científico.

Onde estão alojados? Planearam esta viagem há quanto tempo?
Estamos no Hotel MS Vila Nova. Começamos a fazer a planificação em Outubro. Contactamos a agência, que acaba por fazer os contactos e a simplificar tudo. Posso dar alguns exemplos: fomos às Furnas, tínhamos que contactar a Câmara Municipal, e fomos ao Terra Nostra, tínhamos falar com o Parque Terra Nostra. Ficamos libertos da parte da logística. Construímos um livro de campo de raiz, com uma versão em língua portuguesa e outra em língua inglesa, com informações que nós achamos capitais para poderem fazer notas e observações para facilitar na recolha de dados. Este trabalho é longo, mas facilita fazermos todos os anos. Posso dizer que apesar de termos um encontro anual aqui, nunca fica igual. Há sempre mudanças.

O que já visitaram na Ilha de São Miguel?
Já visitamos o Parque Terra Nostra, o Miradouro da Ponta do Escalvado, a Boca do Inferno, a Vista do Rei, a Ferraria, a Lagoa das Sete Cidades, a Gruta do Carvão, a Praia do Pópulo – onde encontramos as caravelas portuguesas -, a Central Geotérmica, a freguesia de Rabo de Peixe e também as Furnas, onde comemos o tradicioan Cozido das. Temos experimentado muito a gastronomia daqui.

Tem algo mais a acrescentar que considere relevante no âmbito desta entrevista?
Eu tive a oportunidade de ler o Correio dos Açores no hotel, e posso dizer que alguns dos artigos que estão escritos vão servir também para estudos dos nossos alunos. Na edição de hoje (14 de Março), na página dois e três, há um artigo sobre um novo parque de arvorismo que está localizado perto da Lagoa das Furnas. Tive muito tempo a ler este artigo. Vocês acrescentam valor, nós também gostamos de acrescentar valor ao jornal. A população, a ilha de São Miguel e Portugal estão na linha da frente para tornar o mundo melhor. Estamos aqui para acompanhar o vosso trabalho.

Filipe Torres

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