No final da sua 46ª romaria, José Maria de Sousa, conhecido mestre do rancho dos Milagres, Arrifes, deixou uma mensagem aos romeiros, agradecendo a todos os 62 irmãos que este ano integraram o rancho, transmitindo que mais uma caminhada de fé, oração, penitência e sacrifício chegou ao fim e que todos estavam de parabéns. Por outro lado, agradeceu a todos os benfeitores daquele rancho, bem como um agradecimento especial a quem lhes confiou as suas orações que tiveram eco junto do Senhor. Na sua mensagem acrescentou que o coração de cada romeiro está repleto e irradia amor. Abraço em Cristo.
Correio dos Açores – Acaba mais uma romaria. Como correu?
José Maria Sousa (Mestre do rancho de romeiros dos Milagres, Arrifes) – Graças a Deus, foi mais uma excelente romaria. Em parte, contribuiu o magnífico tempo que se fez sentir. Sempre muito ameno, sombrio e sem chuva. Tive a felicidade de concluir a minha quadragésima sexta romaria.
Que motivação levou a “correr a ilha” como romeiro pela primeira vez?
A primeira vez que incorporei o rancho, tinha 16 anos. Fui motivado por alguma curiosidade e por ter no grupo membros da minha família.
Qual a função primeira do irmão-mestre?
Como principal missão, o irmão mestre, designação pela qual é conhecido o responsável, tem que coordenar tudo o que tem a ver com a caminhada para que ela corra bem.
Quais as maiores dificuldades em dirigir um grupo numeroso de irmãos?
Apesar do grupo ter sido numeroso (62 irmãos), não sentimos dificuldades. Desde logo, porque o mestre, coadjuvado pelos colaboradores (contra-mestre e ajudantes), procura, quando necessário, chamar a atenção para a necessidade de se cumprir e pôr em prática o que foi acordado nas reuniões de preparação.
É muito importante, aliás, é fundamental, ter uma boa preparação, que é feita nos encontros que antecedem a semana da peregrinação. Neles, para além de se ensaiar as orações, e de termos a preciosa colaboração do irmão sacerdote que fala da parte doutrinal e espiritual, abordamos a parte prática das nossas vidas. Com especial incidência nas atitudes e correcções que devemos ter.
O que leva uma pessoa a vir do Canadá ou dos Estados Unidos para integrar um rancho de romeiros em São Miguel?
A motivação é a mesma dos que cá estão. Aliás, temos tido a felicidade de termos a participação de irmãos do Canadá e dos Estados Unidos (alguns nascidos lá), que vêm, para connosco vivenciar momentos únicos, de fé, de oração, penitência e sacrifício.
Esta pausa na vida do dia-a-dia é como se tratasse de um retiro espiritual?
Não é por acaso que todos aqueles que participam, ou já participaram, relatam que a incorporação numa romaria é um autêntico e genuíno retiro espiritual.
Há muita gente que diz que muitos romeiros não praticam a sua fé regularmente. Porquê?
Por vezes acontece, pois de facto, há irmãos que não praticam com regularidade a sua fé. Fazem parte dos católicos não praticantes. Contudo, a romaria é uma autêntica forma de vivenciarem com profundidade a sua religiosidade.
Mas uma coisa é certa, mesmo aqueles que só participaram uma única vez na romaria, ficam para sempre marcados. Passam a ser seres humanos muito mais conscientes, mais atentos ao que se passa em seu redor e é muito comum participarem em acções de solidariedade.
Como têm os romeiros ânimo para continuar a caminhada, apesar do cansaço, da chuva ou do sol, ou mesmo de algumas feridas nos pés?
A força adquirida através da oração e da energia positiva que emana de uns para os outros, cria um ambiente de enorme fraternidade que nos permite ter forças e coragem para suportar o calor, as intempéries e as mazelas que vão aparecendo no nosso corpo.
Os romeiros, mesmo fora do tempo da romaria, tratam-se por irmãos e a amizade e cumplicidade persistem durante o ano, constituindo um elo entre todos. Porque razão tal acontece?
A fraternidade vivenciada durante a caminhada, é tal forma forte e consistente, que motiva a que todos se tratarem por irmãos ao longo de todo o ano. Na romaria vão todos irmanados nos mesmos sentimentos e a entreajuda permanente fortalece o espírito de grupo e este espírito perdura todo o ano.
É importante o reencontro com as famílias?
Não se valoriza tanto como antigamente o reencontro com as famílias, ao meio da semana, porque atendendo à maior facilidade de mobilidade das mesmas, quase todos os dias temos parentes ou amigos a visitarem os ranchos (infelizmente, de certa forma).
Antigamente, as romarias eram apenas para gente simples do campo ou do mar. Hoje em dia, integra gente de todas as idades, profissões ou condições sociais, sejam eles das cidades, vilas ou freguesias. Porquê?
Contrariamente ao que acontecia antigamente, hoje, cada vez mais se vê a participar nas romarias pessoas de todos os níveis sociais.Creio que tal se deve há necessidade que todos têm de fazer uma pausa no seu dia-a-dia, bem como, nas rotinas habituais, dado a agitação diária a que todos estamos sujeitos (uns mais do que outros), nomeadamente ao desgaste físico e psicológico.
O contacto com os irmãos do rancho e com a natureza conduzem os romeiros a uma maior intimidade com Deus?
Tomando conhecimento que na romaria, longas caminhadas são feitas em silêncio (cada vez mais), há quem aproveite a oportunidade (única) para refletir, meditar, fazer como que uma introspecção.
Este silêncio de ouro, é propício para se fazer uma avaliação do que tem sido as nossas vidas e do que podemos e devemos fazer para passarmos a ser seres humanos mais conscientes e cumpridores dos nossos deveres e obrigações para com os nossos semelhantes.
Esta religiosidade popular leva a um aprofundamento da fé autêntica?
A romaria é uma caminhada de fé, oração, penitência e sacrifício. Tem como objectivo um firme propósito de mudança de vida. Só participando, se tem a exacta noção do que ela é, e o que ela representa para cada um dos muitos que têm a felicidade de nela se incorporarem.
Está aberta à participação de todos e por isso, todos são bem-vindos. A resiliência aliada à fé e à força de vontade faz com que tudo seja possível numa romaria.
António Pedro Costa
