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As «locomotivas da Doca»: um património regional de valor universal

A recente recuperação de uma das duas locomotivas a vapor utilizadas na construção do porto artificial de Ponta Delgada ainda existentes, conhecidas como “locomotivas da Doca”, constitui um marco importante na história recente da cidade de Ponta Delgada, mas com um alcance muito superior, conforme veremos ao longo do presente texto.
Tratou-se de um processo penoso, ainda incompleto, mas que esperamos possa vir a ter um desfecho feliz.
Mas porquê tanto alarde com duas peças ferrugentas e hoje totalmente inúteis?
Ora, uma primeira curiosidade reside na sua bitola [ver nota de rodapé 1], utilizada entre 1838 e 1892, sobretudo no País de Gales, e posteriormente abandonada devido à uniformização da bitola em Inglaterra, processo conhecido como a «Guerra das Bitolas», e em que prevaleceu a bitola padrão ou «bitola de Stephenson.»
Tal processo levou a que centenas de locomotivas, carruagens e vagões fossem destinados à sucata ou adaptados à bitola padrão. As necessidades de material no âmbito dos esforços decorrentes da I e II Grandes Guerras acabariam por ditar a sua eliminação integral em Inglaterra e, supostamente, em todo o mundo.
Uma outra curiosidade prende-se com o criador da bitola das «locomotivas da Doca»: Isambard Kingdom Brunel, um famoso engenheiro inglês do tempo da primeira revolução industrial, considerado uma das mais inventivas e prolíferas figuras da história da engenharia.
Vale a pena quedarmo-nos um pouco ante o seu legado, de modo a entendermos a dimensão do génio. Assim, Brunel foi autor de diversas pontes, viadutos, túneis e navios (os maiores até ao aparecimento do “Titanic”), foi considerado o segundo britânico mais famoso de sempre, apenas destronado por Winston Churchill, de acordo com uma votação realizada no âmbito de um programa televisivo de 2002 (100 Greatest Britons), com grande impacto na Grã-Bretanha.
As suas múltiplas construções e invenções incluem diversas soluções consideradas impossíveis à data. No que diz respeito à bitola concebida por si, tornava possível maiores velocidades e conforto nas viagens de comboio. A sua visão, contudo, ia mais além, preconizando o transporte através de comboio e, posteriormente, de navio, desde Londres até Nova Iorque, com um bilhete único. Tudo isto nos anos 30 do século XIX.
Para tal, os três navios concebidos por si eram os maiores navios construídos até à data, apresentando diversas inovações tecnológicas: o primeiro navio (“Great Western”) foi o primeiro transatlântico criado, desde a sua conceção, como navio a vapor; o segundo (“Great Britain”) foi o primeiro navio moderno com casco de ferro e hélice como meio propulsor a atravessar o oceano Atlântico; já o terceiro (“Great Eastern”), lançado ao mar em 1858, estava muito à frente do seu tempo, tanto em termos de dimensão como de tecnologia, podendo transportar até 4.000 passageiros. Nenhum outro navio o igualou em dimensão durante 50 anos!… Realizou apenas algumas viagens transatlânticas, revelando-se um fracasso financeiro.
A partir de 1865, o navio foi utilizado na instalação dos primeiros cabos submarinos entre a Europa e a América, por ser o único capaz de carregar o gigantesco cabo a lançar no oceano.
Uma terceira curiosidade decorre da «Guerra das Bitolas» que acabou por levar à conversão da generalidade das linhas de caminho de ferro à «bitola de Stephenson». E, de facto, durante longos anos, julgou-se que não existiriam mais locomotivas com a antiga «bitola de Brunel».
Mas, em 1981, tudo isto muda, com a “descoberta” das “locomotivas da Doca” por Colin Garratt, um famoso fotógrafo e viajante inglês em busca das últimas locomotivas a vapor por todo o mundo. O facto é relatado, entusiasticamente, pela rádio BBC nos seguintes termos: “uma descoberta histórica foi efetuada nos Açores”.
O subsequente interesse manifestado por diversas entidades inglesas na respetiva aquisição levou a que as mesmas fossem levadas para o museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, sendo colocadas no jardim exterior do referido museu. Expostas em condições pouco apropriadas, rapidamente se deterioraram sendo, posteriormente, removidas para as oficinas da então Secretaria Regional das Obras Públicas. O seu destino como sucata estava iminente!
Por ação do Eng.º Rego Costa, Diretor da Junta Autónoma do Porto de Ponta Delgada, em finais dos anos 90, as “locomotivas da Doca”, muito deterioradas e uma delas parcialmente desmontada, regressam às oficinas do porto de Ponta Delgada. Durante alguns anos foram realizadas várias tentativas de recuperação, porém, nenhuma delas concretizada, por múltiplas vicissitudes.
Até que, por iniciativa do deputado da Iniciativa Liberal, Dr. Nuno Barata Almeida e Sousa, em sede de negociação do Plano da Região Autónoma dos Açores de 2021, é incluída, no mesmo, a ação 8.2.22 – “Restauro das locomotivas a vapor do porto de Ponta Delgada, no valor de 80.000 euros”. Na sequência desta iniciativa, seguiu-se a celebração de um protocolo entre a Direção Regional da Cultura e a Portos dos Açores, S.A., com vista à recuperação e musealização das últimas locomotivas no mundo com a «bitola de Brunel.»
Muito embora concluída a recuperação de uma das locomotivas, esta ação é ainda insuficiente para que se possa garantir a conservação de todo o valioso espólio existente nas oficinas do porto de Ponta Delgada.
E o que falta fazer não é pouco. Estamos apenas no início…
Em primeiro lugar, não é pouco tendo em conta o enorme potencial das referidas locomotivas em termos museológicos, não particularmente no contexto local, regional, ou sequer nacional, mas antes num contexto global, enquanto elementos incontornáveis da epopeia que foi a Primeira Revolução Industrial, com epicentro na Grã-Bretanha. A este respeito, deverá mencionar-se o verdadeiro fervor e devoção que os caminhos-de-ferro registam naquele país, com inúmeros clubes ligados à sua preservação e utilização como elementos de cultura e lazer.
Não é pouco, em segundo lugar, pela genialidade do autor da bitola de tais locomotivas.
E não é pouco, também, porque a construção do porto de Ponta Delgada, iniciada em 1861, é, também ela, uma verdadeira epopeia à nossa escala, preenchida de reveses e desilusões e com conclusão apenas em vésperas da II Grande Guerra, sendo estas duas locomotivas testemunhas de uma parcela dessa história.
Adicionalmente, poder-se-á considerá-las como o único traço visível da tentativa de construção de um caminho-de-ferro na ilha de São Miguel, cuja estação central seria no Calhau do Languim, aproximadamente onde hoje se situa o edifício “Solmar” na marginal de Ponta Delgada. Os seus promotores consideravam que a concretização deste projeto corresponderia, para a economia, ao que a autonomia representava em termos políticos.
Por fim, não é pouco pelo facto dos Açores, enquanto destino turístico, carecer de elementos que contribuam para a sua dinamização, promovendo o aumento da estadia média e o acréscimo no nível de satisfação da experiência no destino por parte do turista. Neste quadro, as “locomotivas da Doca” farão mais, muito mais do que se poderá imaginar, no que respeita à atratividade do arquipélago relativamente a um dos principais mercados emissores de turismo no mundo, como é o inglês, e ainda para determinados segmentos como o turismo histórico e cultural.
Através da criação de um núcleo museológico, com as “locomotivas da Doca” como atrativo principal, poderá concretizar-se tal perspetiva, perpetuando aqui, no meio do Atlântico, a memória de Brunel e ainda a dos nossos antepassados que, por sua iniciativa, avançaram para a construção de um porto artificial. Auguro que possa tornar-se o núcleo museológico mais visitado dos Açores e financeiramente autossustentável. Termino com um último parágrafo de particular regozijo: nada disto que escrevo constitui, propriamente, uma novidade, pois já o havia feito no final de 2005, em três artigos no extinto “Expresso das Nove”, então dirigido pelo autor deste blogue “Azorean Torpor” e ainda na “Azorean Spirit”, a revista de bordo da SATA Internacional, em vésperas do segundo centenário do nascimento de Brunel. Felizmente que hoje é possível retomar o assunto, falando não já do perigo que é este legado tornar-se apenas sucata, depois memória e, por fim, esquecimento, mas antes de como se tornará possível perpetuá-lo e capitalizá-lo.
(1) A bitola é a largura da via-férrea, determinada pela distância medida entre as faces interiores das cabeças de dois carris. Existem várias bitolas, sendo a mais frequente a de Stephenson, ou bitola padrão.
A bitola das locomotivas da Doca é a bitola de Brunel, uma bitola de sete pés, criada inicialmente para a linha entre Londres e Bristol (Great Western Railway).

Luís Machado da Luz

Blog Azorean Torpor (Luís Bastos)

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