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“Tenho notado que os jovens açorianos se tornaram mais temperamentais,propensos ao stress e menos confiantes”,afirma a terapeuta emocional Marta Martins

Ágape é uma associação que nasceu no início deste ano e tem como missão, segundo a Presidente da Direcção, Marta Martins, “ajudar as pessoas a superar os seus traumas, depressão, ansiedade, fobias.” Com sede no Porto Formoso, a Associação já delineou um conjunto de actividades para desenvolver ao longo deste ano, que inclui “palestras, prevenção nas escolas, campanhas contra violência e abuso a menores, e atendimentos a famílias de toxicodependentes e idosos”, com o objectivo de ter um impacto positivo na saúde mental da comunidade açoriana.

Correio dos Açores – O que motivou a criação da Ágape?
Marta Martins (Presidente da Direcção da Ágape) – Sempre tive muita compaixão e empatia pelas pessoas. Trago isso de berço. Cresci a ver os meus pais a serem solidários com as pessoas. Após uma palestra no Porto Formoso, um amigo, que hoje trabalha com toxicodependentes, contou-me a sua passagem pelo mundo das drogas e falámos sobre a importância de estarmos com o nosso emocional saudável. Quando se olha para uma população dependente de químicos, o que se observa é que quanto mais adversidades na infância, maior o risco de dependência.Nessa conversa, ele disse-me que as famílias dos toxicodependentes também precisam de apoio emocional, pois se não estamos bem, não conseguimos ajudar quem amamos. E ali surgiu a ideia de criarmos uma Associação. Convidei alguns amigos, expus a ideia e eles aceitaram! A nossa primeira reunião foi muito emocionante, no dia 20 de Outubro de 2023. E assim o meu sonho de ajudar e fazer a diferença passou a ser o sonho do grupo. A 24 de Janeiro deste ano nasceu a Ágape, Apoio Emocional e Prevenção.

O que significa Ágape?
Ágape significa amor, um tipo específico de amor. O amor ágape é muito importante na Bíblia. Não se trata apenas de sentir ou de fazer isso ou aquilo, é um acto de obediência, altruísta, com propósito de fazer o bem à pessoa. É um amor incondicional, perfeito e sacrificial!

Qual é o propósito e a missão da Ágape?
Temos como missão ajudar o semelhante. Passados difíceis deixam consequências que afectam o comportamento, as emoções e os pensamentos da pessoa de forma crónica. Ou seja, o trauma mantém-se na vida da pessoa, a não ser que ela passe por ajuda psicológica para superá-lo. O nosso foco são palestras de prevenção, atendimento psicológico, terapias e campanhas contra qualquer tipo de violência física e psicológica. Além de terapias e palestras motivacionais, queremos fazer programas de visitas ao domicílio.
Quem são os elementos que compõe a Associação?
A Ágape é composta por mim, Marta Martins, Patrícia Melo, Marco Sousa, Silvia Simão, Pilar Martins, António Andrade, João Ferreira, João Tavares, Rubens Ramos e Sandra Lima. Por norma, reunimo-nos uma vez por semana.

A sede da Associação é no Porto Formoso. Porquê esta freguesia?
A costa Norte de São Miguel tem algumas problemáticas de depressão e como o Porto Formoso fica no local onde já atendo algumas pessoas, faço palestras e também tenho já alguns contactos, achei por bem estabelecermos a nossa sede nesta freguesia. Além disso, a comunidade do Porto Formoso é acolhedora e amável.

Qual o plano de actividades da associação para este ano? O que está previsto fazer em termos sociais?
O plano de actividades para o corrente ano inclui palestras, prevenção nas escolas, campanhas contra violência e abuso a menores, e atendimentos a famílias de toxicodependentes e idosos.Promovemos iniciativas para aumentar a consciencialização sobre a importância da saúde emocional, através de vídeos, palestras e do projecto que estamos a desenvolver. Temos muito trabalho pela frente!

Como descreve o trabalho de um terapeuta emocional? Como isso se relaciona com a missão da Ágape?
Fundamental, assim como água e comida. Todos deveriam ter acesso a terapia. Se todos tivéssemos a oportunidade de ter alguém que nos ouve sem uma atitude julgadora – com compreensão, dando suporte psicológico e emocional, ajudando a desenvolver autoconsciência e a construir resiliência –, não teríamos tantos abusos infantis, famílias destruídas, pessoas viciadas em drogas e álcool, e outros. O nosso objectivo é precisamente ajudar as pessoas a lidar e a superar problemas psicológicos, a identificar e resolver problemas pessoais, e fazer mudanças positivas nas pessoas.

Quais são as principais técnicas que utiliza na terapia emocional para ajudar os seus utentes?
Num primeiro momento, faço a anamnese, isto é, preencher o formulário sobre como foi a infância. De seguida, dá-se início à terapia seguindo o Protocolo Cronológico, desde os primeiros anos de vida até à idade actual. São trabalhados todos os eventos traumáticos ou lembranças ruins que o paciente consegue lembrar da sua infância até à idade actual. Ao reprocessar essas lembranças, são libertadas todas as tensões, emoções e dores que ficaram presas ao corpo.
Feito isso, iremos para o segundo passo, denominado Método Temático. Como o próprio nome indica, é o método de reprocessamento por temas. Nesta etapa, vamos limpar todos os traumas por assuntos específicos, como por exemplo abandono, humilhação, traição, rejeição e muitos outros. No terceiro passo, Método Futuro, vamos trabalhar todos os medos e anseios, referentes ao futuro, tais como medo da morte, de ficar doente e muitos outros. Por fim, no último passo, o método de Potencialização, vamos trabalhar o seu futuro ideal e como alcançá-lo. O inconsciente é nada mais do que a soma das nossas memórias, é um depósito infinito de experiências de vida. Além de arquivar tudo isso, ele ainda faz associações num processo tão surreal que foge à nossa compreensão e o mais interessante de tudo é que existem memórias que nem sabemos que temos, que podem emergir, chegando ao nosso consciente sem sabermos o real motivo.

Como vê o estado da saúde mental e emocional na comunidade açoriana?
As preocupações, a ansiedade, a depressão, os efeitos devastadores da pandemia, a guerra da Rússia contra a Ucrânia, o desemprego e o aumento do custo de vida, as pressões das redes sociais, entre outros, agravaram o já fragilizado estado de saúde mental, especialmente nas crianças e nos jovens. Alteraram a personalidade das pessoas no geral e a busca por ajuda psicológica aumentou. Tenho notado que os jovens açorianos se tornaram mais temperamentais e propensos ao stress, menos cooperativos e confiantes. A rotina foi quase que bruscamente interrompida. Isto é, as tarefas normativas da idade adulta mais jovem, como estudos, transição para o mercado de trabalho, vida social e os relacionamentos, o que teve grande impacto nos nossos jovens porque essas tarefas são muito importantes para essa faixa etária.
O consumo de álcool é também preocupante nos nossos jovens. A adolescência é, na sua essência, um período de autodescoberta e definição da identidade. Os adolescentes sentem a necessidade de serem aceites nos grupos e acabam por abusar do álcool, pois nem todos os pais conseguem ter um diálogo saudável com os filhos. Outra situação que tenho observado é a solidão nos idosos, um dos problemas que mais afecta não só nos Acores, mas todo o país.

Qual é o papel da terapia emocional na promoção do bem-estar dos ilhéus?
Auto-conhecimento. Conhecer a si mesmo é uma tarefa fundamental para tomar decisões conscientes e acertadas. Conhecer-se ajuda no controlo das emoções, evita problemas de auto-estima, ansiedade, frustração e instabilidade emocional, entre outras dificuldades psicológicas.
Que desafios enfrenta ao fornecer terapia emocional nos Açores?
Infelizmente as dores sentimentais são vistas como uma “tolice” ou “coisas da cabeça”, algo que vai passar. São consideradas problemas menores ou “falta do que fazer”, “coisas de gente doida”, ou é tratado como algo luxuoso que poucos têm acesso a terapia. Quando falamos em dor, a primeira coisa que vem à cabeça é a dor no formato físico e não no aspecto sentimental. Há também o desconforto que as pessoas sentem em lidar com traumas. É importante ressaltar que procurar ajuda profissional é muito diferente de fazer um desabafo com amigos, pois um terapeuta trabalhará pontos, de forma imparcial, e apresentará soluções para os problemas.

Como mede o impacto do trabalho da Ágape na saúde emocional da comunidade açoriana?
Acreditamos que vamos consciencializar o máximo de pessoas de que emoções e doenças estão directamente ligadas. Por isso, um dos maiores erros da medicina convencional é tratar os sintomas e ignorar as suas causas mais profundas. Porém, quando esses sentimentos são intensos, prolongados ou mesmo reprimidos, o equilíbrio interno acaba por ser afectado, fazendo com que o fluxo de energia seja alterado e, consequentemente, torne o organismo susceptível às doenças. Essa é a maneira que o corpo encontra para sinalizar que há algum problema que lhe está a afectar.
Nesse cenário, é comum ocorrer a chamada “somatização”, ou seja, a pessoa possui os sintomas, mas como eles têm ligação com as emoções, não consegue definir o que está a causar. É importante ter em mente que os sintomas não surgem de um momento para o outro, mas sim após uma sucessão de experiências stressantes.

Carlota Pimentel

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