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“Cada vez mais os actores são produtores e promotores de si próprios”, afirma o encenador Bruno Schiappa, que vai realizar hoje um espectáculo no Teatro Micaelense

No dia em que se comemora o Dia Mundial do Teatro, 27 de Março, o encenador, actor e investigador na Universidade de Lisboa, Bruno Schiappa, de 58 anos, afirmou ao Correio dos Açores o que significa o teatro para si, como surgiu a ideia desta actuação, e o que as pessoas podem esperar do espectáculo que vai ocorrer hoje, no Teatro Micaelense, às 21h30.

Correio dos Açores – O Teatro é…
Bruno Schiappa (Encenador, actor e investigador) – Arte mais do ser humano. É inerente ao ser humano e é transversal a vários animais, uma vez que eles, também, são dotados de um tópico, que é a charada. Portanto, além de ser a profissão mais antiga, porque foi ,assim, os primeiros modos de comunicação entre o ser humano, também é partilhada por vários animais que o conseguiram.

Como surgiu o seu gosto pelo Teatro?
Nasci em África. O meu pai é português e o meu avô paterno é italiano. O meu pai fazia teatro amador e cantava o fado amador, enquanto a minha mãe foi a ‘miss fotogenia’ em Angola, a primeira mulher a trabalhar numa bomba de gasolina e das primeiras mulheres a usar calças, sendo que depois foi trabalhar como locutora numa rádio. Isto deve ter tido alguma influência em mim, pode ser algo comum, mas, aos seis anos, fui escolhido para recitar um poema para a directora do banco, porque ela ia mudar de cidade. Depois, comecei a fazer teatro na escola. Quando vim para Portugal, continuei a fazer teatro e comecei a fazer cursos. Acho que isto estava sempre ligado a mim. Costumo dizer que não fui eu que ganhei o gosto pelo teatro, mas foi o teatro que me escolheu.

Quem são os seus ídolos?
Não tenho muitos ídolos, nem sou muito de ídolos. Mas trabalhei muito tempo com uma senhora americana, Marcia Haufrecht, que trabalhou com vários nomes conhecidos e foi com ela que fiz algumas especializações, depois de ter saído da Escola Superior de Teatro e Cinema. O que eu tenho é uma espécie de mentor. Para além dela, há pessoas que, também, gosto, como José Raposo, Eurice Muñoz e Carmen Dolores, em Portugal. Nós temos actores muito bons. Agora, os actores que, de facto, marcam a diferença, a nível internacional, porque têm outras possibilidades de comunicação e equipamentos de produção, são a Meryl Streep, que é sempre muito interessante de ouvir as suas entrevistas, assim como o Marlon Brando, que foi muito interessante. Claro que eles abordaram mais a indústria do cinema, eu faço também cinema e série, mas, em Portugal, a indústria é muito menor. Aliás, não há propriamente uma indústria, está a começar. De modo, tenho algumas pessoas em referência, em Portugal, o meu professor e o, então, Presidente da Escola Superior de Teatro e Cinema, João Mota, é uma referência muito grande, tal como o José Peixoto, o Luís Mendes e a Maria João Serrão são outras pessoas que considero como pontos. Agora, como “gurus”, são a Meryl Streep e a Marcia Haufrecht.

O que representa o Dia Mundial do Teatro para si?
Acho que todos os dias são dias mundiais de todos os assuntos pertinentes. De qualquer modo, é um dia, especialmente, celebrado e transmitir uma mensagem sobre o valor do teatro e da cultura, e o papel da cultura e das artes performativas na identidade de um ou vários países que partilham os mesmos modos de cultural. Essa mensagem é uma espécie de alerta para a possibilidade de cada vez mais presente de as coisas caminharem para um grande vazio. Neste momento, temos mais uma sombra, que é a inteligência artificial, que, ainda esta semana, houve uma produção portuguesa de cinema abriu um concurso no âmbito de curta-metragens feitas com procedimentos de inteligência artificial. Ou seja, torna-se mais necessário, ainda, que a mensagem deste ano passe para necessidade de manter as pessoas. Atenção, sou uma pessoa interessada na tecnológica e acho que faz parte. Mas acredito que o presencial tem uma vida e uma energia que a tecnologia ainda não tem, não sei se terá algum dia, ou se estarei vivo para presenciar isso. O Dia Mundial do Teatro deverá ser um dia de celebração de teatro, enquanto festa, cultura, comunicação e partilha.

Em que consiste o espectáculo “A Voz e o Corpo do Mar”?
O espectáculo “A Voz e o Corpo do Mar” é um conjunto de actores, sendo que já trabalhei com alguns, no ano passado, em Setembro de 2023, num laboratório solo de formação. E, este ano, o desafio era dar continuidade a esse laboratório de formação de teatro físico e trabalho sensorial, mas para culminar num espectáculo que em algum modo refletisse a identidade dos Açores, que foi o que eu propus, e para celebrar o Dia Mundial do Teatro no Teatro Micaelense. Para mim, o mar não é apenas algo de partidas e chegadas, nem algo mongólica, tem muita poesia, muito erotismo, muito obscurantismo e sensações erógenas, sendo que eu peguei em poemas da Natália Correia, no “Mulher do Porto Pim”, de Antonio Tabucchi, que já tinha lido há vários anos e gostei muito. Misturando com algumas cenas de autores internacionais que fazem a zona em que as pessoas estão mais em casa – as zonas mais urbanas. É uma homenagem ao mar como um espaço, também, de sonhos, de fantasia e de desejos, que não são as mesmas coisas para mim, têm fronteiros tenores, mas passam por registos mais poéticos. É um falar sobre o mar mais poético em vez de ser aquilo que o mar implica – de força, de resistência e de sobrevivência -, mas mais como aquilo que o mar promove enquanto sensação às pessoas que vivem próximo do mar. Não consigo viver sem mar. Portanto, estava escrito nas estrelas que eu ia fazer isto.

Este é o seu primeiro espectáculo nos Açores?
Viemos cá uma vez, há vários anos, em 1997, estávamos a fazer uma versão cómica na Trindade e viemos aos Açores fazer um espectáculo, mas eu era actor. Portanto, este é o meu primeiro espectáculo de criação nos Açores. Tenho muito prazer. Gosto muito de trabalhar com as pessoas de cá, são muito interessantes. Os Açores tinham séries como “Mau Tempo no Canal” e “Xailes Negro”, sendo que, ainda esta semana, questionei, nas redes sociais, ‘Os Açores produzem bons actores e houve aquele período no final dos anos 80 e o início dos anos 90 em que apareceram essas séries, como desapareceram essas séries?’ É uma sensação muito bom estar aqui e de muita alegria.

Todos os participantes do espectáculo fizeram parte do workshop que realizou este mês vão participar no espectáculo?
Os 17 participantes da formação vão participar no espectáculo. Será um grande elenco. São todos dos Açores, com excepção de três pessoas, sendo que esses são de Portugal Continental e estão na ilha há vários anos – um há 24 anos, outro há cinco anos e a terceira pessoa há dois anos. Os restantes são naturais da ilha de São Miguel. Dos 17 participantes deste ano, 10 deles trabalhei com eles na formação do ano passado, ou seja, estou a trabalhar pela primeira vez com sete pessoas.

Conta com a colaboração e o apoio de alguma instituição?
Tenho o apoio do Teatro Micaelense e o Festival POP, ou seja, o próprio Teatro Micaelense “abriu as portas” e fez a proposta, apoiando com todo o equipamento necessário, luz e etc. A Corredor Associação Cultural conseguiu reunir os recursos financeiros para a minha deslocação, estadia e renumeração. Depois, há aqueles apoios pontuais de adereços, alguns deles da Câmara Municipal de Ponta Delgada. Não estou muito a par da produção.

O espetáculo é para todas as pessoas?
Vai começar às 21h30 e não aconselho muito a pessoas com menos 12 anos, porque é uma linguagem mais abstracta. É mais indicada para quem tem alguma aptidão para reconhecer o que é um teatro menos formal e que não tem uma narração, ou seja, tem narrativa e não tem narrador. As pessoas precisam de fazer a ligação da narrativa. Se as pessoas forem muito novas, poderão sentir-se enfadas. A actuação terá a duração prevista de uma hora.

Acredita que o teatro nos Açores está em crescimento? Há pouco teatro no arquipélago?
Em crescimento, no sentido de haver vontade de as pessoas fazerem e direccionarem-se profissionalmente mesmo, está. Há essa vontade. Agora, em relação a apoio, é aquilo como está Portugal inteiro: há uma redução de aposta na cultura. Comisto, há uma implicação na programação e nos programadores. Em muitos casos, se não forem as próprias produções a fazerem os contactos para vários locais, não acontece, rigorosamente, nada, porque apesar de haver equipamentos maravilhosos, as pessoas se preocupam mais com o quotidiano e as conferências do que propriamente a narrativa de uma actividade cultural que á sua primeira função. Isto é um mal que aparece em alguns países da Europa, e em Portugal em concreto. Ainda falta muito em termos de política cultural.

O que é necessário para vingar no mundo do Teatro?
É necessário ser teimoso, gostar muito de teatro e cada vez mais ser o seu próprio produtor e promotor, ou seja, as pessoas devem pôr de lado a ideia dos anos 50 e 60 de empregabilidade dos seus recursos, porque cada vez mais os actores são produtores e promotores de si próprio. Devem criar conteúdos que promovam a sua ascensão no mercado de trabalho, que está com muitas pessoas para a actual dimensão e está com muitas alterações. Por isso, as pessoas devem manifestar o constante de estar à altura para integrar projectos, caso contrário estará aquém e em sobrevivências.

Filipe Torres

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