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“Enquanto os limites dos nossos ecossistemas não forem considerados, estamos a comprometer e a retirar recursos biológicos das próximas gerações”, afirma Rita Escórcio

Correio dos Açores – Como surgiu o seu interesse pela Bioeconomia e o que a motivou a tornar-se embaixadora para este campo junto da Comissão Europeia?
Rita Escórcio (Professora e investiadora da Universidade Nova de Lisboa) – Desde jovem que temas relacionados com a sustentabilidade sempre me foram apelativos, em parte porque desde pequena tive muito contacto com a natureza. Mais tarde, na faculdade, conheci o conceito de Economia Circular, que visa o menor desperdício possível de recursos, e para mim fez todo o sentido apostar numa área que maximiza o potencial dos mesmos. O interesse por Bioeconomia veio como consequência dessa aposta no meu percurso académico, focado em biotecnologia eem recursos biológicos (plantas e microrganismos).
No ano europeu da Juventude em 2022, a Comissão Europeia lançou um concurso para selecionar Jovens Embaixadores da Bioeconomia. Achei que seria uma oportunidade única e que não perdia nada em tentar!

Pode explicar como é que os materiais de base biológica derivados de resíduos do processamento de tomate estão relacionados com a Bioeconomia e a economia circular? Como é que a valorização de resíduos industriais pode contribuir para a sustentabilidade ambiental e económica?
A utilização de materiais de base biológica derivados de resíduos é uma parte importante da economia circular e da Bioeconomia. Estamos a valorizar um recurso que muitas vezes é considerado lixo e tem como destino final um aterro sanitário, é queimado para produzir energia ou usado como ração para animais. No entanto, o potencial que os resíduos de tomate têm é muito maior do que isso. Nas peles de tomate, sementes e pedúnculos temos açúcares, ceras, proteínas e tantos outros constituintes que podem ter uma nova vida ou dar origem materiais com imensas aplicações. É cada vez mais importante que se possa maximizar este potencial e não desperdiçar recursos importantes só porque são passíveis de serem descartados. A utilização destes resíduos também faz com que não se tenha de ir buscar um recurso virgem para produzir materiais, contribuindo para a sustentabilidade ambiental e económica.

Quais são os principais desafios e oportunidades que encontra na sua investigação sobre materiais de base biológica?
Um dos principais desafios é passar da investigação que se faz na bancada do laboratório para uma escala piloto e futuramente industrial, estamos a dar pequenos passos nesse sentido mas é, sem dúvida, um factor limitante. Outro grande desafio é encontrar uma aplicação e mercado mais específico para este tipo de materiais, visto que é virtualmente impossível competir (por exemplo, economicamente) com os plásticos tradicionais em muitas das áreas. A nossa aposta foca-se, então, no desenvolvimento de materiais com valor acrescentado, principalmente na área da saúde e nos materiais biomédicos.
Uma das grandes oportunidades é, sem dúvida, a quantidade de resíduos provenientes do processamento de tomate gerado em Portugal, visto sermos o terceiro maior processador a nível europeu, o que nos dá uma fonte enorme de resíduos para valorizar. Adicionalmente, e talvez a maior oportunidade, é poder desenvolver um material biodegradável, que seja facilmente integrado na natureza no fim do seu tempo de vida útil, minimizando o impacto negativo que possa ter no ambiente.

Como é que a sua experiência como aluna do curso de licenciatura em Biologia na Universidade dos Açores influenciou o seu percurso na Bioeconomia?
Considero que a minha experiência na Universidade dos Açores foi o primeiro passo neste percurso, não só porque descobri o meu interesse em biotecnologia durante a licenciatura mas também porque foi o início da minha jornada a trabalhar com resíduos do processamento de tomate.

Pode falars mais sobre o programa de Jovens Embaixadores da Bioeconomia da Comissão Europeia e como está a envolver os jovens nos processos de decisão neste campo?
A nossa geração é muitas vezes desvalorizada pela falta de experiência, mas há muitas mais-valias que conseguimos trazer tanto para o diálogo como para os processos de decisão e este programa é um exemplo disso. O programa de Jovens Embaixadores da Bioeconomia foi lançado em 2022 e um dos objetivos foi precisamente criar uma plataforma de diálogo entre os embaixadores e a Comissão Europeia. Ao longo destes dois anos, os 15 embaixadores naturais de 11 países foram integrados em vários eventos a nível europeu (como participantes e/ou oradores), para além das suas actividades pessoais sobre disseminação deste tema nas comunidades. A nossa última actividade foi apresentar um documento criado por todos os embaixadores intitulado “Bioeconomy Youth Vision”. Este documento integra a nossa perspectiva enquanto jovens sobre vários temas dentro da Bioeconomia: envolvimento jovem, educação sobre Bioeconomia, modelo económico e uso responsável dos recursos biológicos. O principal objectivo deste documento é ser considerado na próxima estratégia de Bioeconomia que está a ser preparada pela Comissão Europeia.

Quais são os principais objectivos das palestras que realizou sobre Bioeconomia e economia circular nas escolas secundárias e na Universidade dos Açores?
As palestras nas escolas secundárias e na Universidade dos Açores tinham dois objectivos principais. O primeiro era dar a conhecer as diferenças e semelhanças entre Bioeconomia e economia circular e fazer com que os alunos ficassem familiarizados com estes conceitos. O segundo objectivo era relacionar estes conceitos com o projeto de investigação do qual faço parte no ITQB-NOVA em Oeiras, enquanto aluna de doutoramento, dando um exemplo prático sobre estes temas.

Quais são os passos necessários para promover uma transição efectiva para uma Bioeconomia mais sustentável e circular?
Um dos passos mais importantes é a integração do nosso sistema ecológico no nosso sistema económico, algo que actualmente não acontece. O nosso sistema económico assume que temos recursos biológicos infinitos e que podemos continuar a crescer de forma exponencial e para sempre. Enquanto os limites dos nossos ecossistemas não forem considerados na nossa (bio)economia, estamos a comprometer e retirar recursos biológicos das próximas gerações e não estamos a criar um crescimento económico sustentável. Outro passo fundamental, na minha opinião, é, sem dúvida, a necessidade de investir em investigação, para gerar mais conhecimento sobre o potencial dos nossos recursos biológicos e sobre o uso mais sustentável que lhes podemos dar. Como é que as comunidades locais, especialmente nas ilhas, podem beneficiar da implementação de práticas de Bioeconomia?
Bioeconomia é uma prática nas nossas comunidades locais (incluindo nas ilhas) há centenas de anos. Este conceito apesar de ser recente é na verdade algo muito antigo e vem desde que o homem começou a gerir e a criar valor a partir dos recursos biológicos gerados na agricultura. Falarmos de Bioeconomia ajuda a criar uma linguagem comum dentro das práticas de agricultura, pesca e outras actividades. Diria que os Açores são um tesouro nacional nesse aspeto e que representam uma parte importante da nossa Bioeconomia.

Quais são as suas perspectivas para o futuro da Bioeconomia na Europa e a sua importância para enfrentar os desafios ambientais e económicos globais?
Bioeconomia gerida de forma sustentável tem tudo para ser uma das ferramentas para enfrentar os próximos desafios ambientais e económicos a nível global. Olharmos para os nossos recursos biológicos de forma integrada e sistémica vai ser fundamental para responder aos desafios do futuro e isso é algo que a Bioeconomia consegue proporcionar. Vamos precisar de ecossistemas mais resilientes e capazes de enfrentar as alterações climáticas atuais e futuras, e essa capacidade só vem se existir investimento e vontade de mudar muitas das nossas práticas actuais e insustentáveis.

Frederico Figueiredo
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