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Cesto da Gávea: A Universidade dos Açores e Timor-Leste

Em junho de 1995, quando iniciei o primeiro mandato como Reitor da Universidade dos Açores, o antigo Timor Português, como era conhecido internacionalmente, encontrava-se sob ocupação indonésia há quase 20 anos. Bem viva e sangrando, permanecia a ferida do massacre de Santa Cruz, perpetrado pelas forças ocupantes daquilo que consideravam a 27ª província da Indonésia. Tendo acompanhado no Parlamento Europeu aquele trágico acontecimento, ocorrido em 1991, que aconteceu no meu último mandato de eurodeputado, o apoio claro e inequívoco à causa timorense começou de imediato. Naquela época, apenas se ouvia falar dos nomes do Professor Barbedo de Magalhães e da Universidade do Porto, como apoiantes declarados da luta pela libertação de Timor-Leste. Na equipa reitoral da nossa Universidade, abraçaram a essa luta vários elementos, dos quais, entre 1995 e 1999, destaco dois: a Pró-Reitora para a Cooperação, Professora Gilberta Rocha e o assessor Dr. Carlos Riley, a quem confiei as relações com os EUA. O referendo pela independência de Timor-Leste realizou-se no início do nosso segundo mandato reitoral (1999), pelo que as ações de apoio mais intensas realizaram-se antes. Em 1996, o dirigente timorense Ramos Horta participou nas jornadas sobre Timor-Leste, que tiveram lugar no campus universitário de Ponta Delgada.
Em 1997, liderei uma missão aos EUA, para uma série de conferências /debates na Brown,. University, na U. Mass/Dartmouth e na Yale University. O tema geral das conferências que lá proferi foi “A Autonomia dos Açores e o caso de Timor-Leste”, sendo curioso constatar que, 1 ano e pouco depois, a política dos EUA propunha soluções muito semelhantes às então debatidas com os académicos e políticos americanos. Nessa missão, custeada pela Reitoria e planeada por Carlos Riley, ele e eu fomos acompanhados pelo Presidente da União Democrática Timorense, Engº. João Carrascalão, pelo Vice-Reitor da Universidade de Díli, Doutor Armindo Maia, e pelo Dr. Constâncio Pinto, representante da resistência timorense na Nova Inglaterra. Chegados ao aeroporto de Boston, alugámos uma viatura onde o grupo se deslocou. Recordo que Armindo Maia se juntou a nós na Harvard University, e como tiritava de frio, dei ao Carlos Riley uma quantia para ir à Harvard Coop comprar uma parka agasalhadora, antes que ele entrasse em hipotermia. Anos mais tarde, quando foi Ministro da Educação de Timor-Leste e me encontrou em Lisboa, num almoço de Natal da Direção Geral do Ensino Superior, ao ver-me entrar no salão, Armindo Maia saltou da mesa e veio abraçar-me comovido, perante a surpresa e o aplauso geral. Recordámos então os pormenores da viagem pelos EUA, onde na palestra de Yale, fomos informados que tínhamos vindo a ser seguidos por agentes indonésios – que, por sua vez, eram seguidos por elementos do FBI. Também recordo que, quando levámos o Doutor Maia ao aeroporto de Providence, ao saber do receio que tinha de ser preso quando aterrasse em Djakarta, tentei dissuadi-lo de regressar a Timor e vir connosco para os Açores. Só descansámos muito depois, quando tivemos notícias que nos enviou de Díli.
Entretanto, os anos foram correndo, o referendo sobre a independência de Timor concretizou-se em agosto de 1999, 2 meses e pouco depois de o nosso programa de reitoria “Universidade XXI” ter entrado no último mandato. A partir daqui as situações mudaram muito, tendo o élan inicial permitido o acolhimento, na Universidade dos Açores, de cerca de 12 estudantes timorenses, que alojámos numa residência adaptada, na rua das Cabaças, aqui em Ponta Delgada. Foram causa de algumas dores de cabeça para Graça Castro, responsável pela logística, assim como para o Padre Octávio, o nosso docente que assumiu o acompanhamento do grupo. Em 2002 e 2003, a Professora Gilberta Rocha voltou a assumir a Pró -Reitoria para a cooperação, podendo confirmar de viva-voz alguns detalhes desta difícil tarefa, até pela dificuldade que os timorenses tinham em falar português.
Mas há uma fase importante deste apoio da Universidade dos Açores a Timor-Leste e que tem como protagonista o Professor Tomaz Dentinho, docente do Departamento de Ciências Agrárias, na ilha Terceira. Num texto que me enviou, o Professor Dentinho explica como as universidades portuguesas iniciaram a preparação de cursos na universidade Nacional de Timor-Leste, tendo-se constituído grupos de trabalho para elaborar propostas de cursos em Ciências Agrárias, Economia e Gestão, Formação de Professores de Português e Engenharia Informática e Eletrotecnia. Por impedimento do coordenador inicial das Ciências Agrárias, o lugar foi assumido por Tomaz Dentinho, que se deslocou a Timor-Leste em 2000, ajustando o curso à lecionação até ali ministrada em indonésio na Universidade de Timor, de modo a facilitar a transferência de alunos e professores. E assim, ele próprio iniciou a lecionação, com uma disciplina de introdução às Ciências Agrárias, tendo voltado várias vezes a Timor com colegas da Universidade dos Açores, como Miguel Tavarela, João Barcelos, António Félix Rodrigue, Isabel Estrela Rego, Ana Maria Simões e alguns outros que, conjuntamente com colegas das Universidades e Politécnicos portugueses, asseguraram a continuidade da cooperação.

NdA: Texto integrante da intervenção proferida no chá-conferência da Associação de Seniores de São Miguel, para angariação de apoios aos jovens de Timor Lorosae.

Vasco Garcia

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