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“O Serviço Regional de Saúde não consegue dar resposta a quem precisa e procura ajuda para questões de saúde mental”, afirma o psicólogo Marco Teixeira

Em Dia Mundial da Saúde, o Correio dos Açores pediu ao psicólogo Marco Teixeira para falar sobre a Perturbação Depressiva. Depois da pandemia, o nome “depressão” passou a ser cada vez mais evocado pela sociedade. No entanto, e apesar de se tratar de uma questão de saúde, ainda há muita desinformação e falta de sensibilidade associada. Nesta entrevista, o psicólogo explica-nos os sintomas, possíveis causas, os diferentes tipos, os maiores mitos, e como podemos ajudar quem sofre desta perturbação. Para além disso, também aborda temas como a agravante que o ciberbullying veio adicionar à vida das crianças e adolescentes que deixam de ter um “porto seguro” e “trazerem o bullying para casa” através do telemóvel.

Correio dos Açores – Pode falar um pouco sobre o seu currículo académico e profissional? O que é que o fez envergar pela área da Psicologia?
Marco Teixeira (Psicólogo e investigador da Universidade dos Açores) – O meu currículo académico não foi o que a maioria das pessoas julga que seja. Com isso quero dizer que não foi convencional. Nem sempre quis ser psicólogo, no meu secundário queria ser piloto aviador. Contudo, dado o meu excesso de peso à altura, tornou-se uma possibilidade inviável. Estive perdido e sem rumo e com isso perdi alguns anos no secundário— matemática era o meu “calcanhar de Aquiles” — e comecei a arranjar diversos trabalhos precários em áreas completamente distintas, até que percebi que sem a conclusão do 12º ano, teria poucas possibilidades de ter um emprego melhor.
Fui para o ensino nocturno, terminei o 12º ano e, posteriormente, veio a possibilidade de ingressar no ensino universitário, mas ainda sem a mínima ideia do que queria seguir. Como gostava de tecnologia e até tinha algumas competências em diversos softwares informáticos, decidi ir para o curso de Informática Redes e Multimédia. Contudo, estive 4 anos neste curso, e a faltar 7 cadeiras para o término da licenciatura percebi que não queria passar o resto da minha vida isolado em frente a um ecrã, então decidi mudar. Sem saber o que iria fazer…
Entretanto, a namorada de um amigo apresentou-me os seus apontamentos de psicologia, nomeadamente de psicologia das emoções, e foi neste momento que descobri um interesse que se viria a tornar numa paixão.
Posto todas essas vicissitudes, ingressei no 1ª Ciclo de estudos em Psicologia (licenciatura) na Universidade dos Açores, completando a minha formação na Universidade do Minho, onde conclui o mestrado integrado em Psicologia, com incidência na vertente de Psicologia Clínica e da Saúde.
Terminado o meu mestrado, trabalhei, durante um ano, no Serviço de Psicologia da Universidade do Minho, com especial incidência sobre perturbações de Humor e Ansiedade, além de integrar o Grupo de Estudos das Perturbações Alimentares (GEPA) desta mesma Universidade.
Regressado a S. Miguel, integrei numa equipa de investigação em Psicologia da Universidade dos Açores, com a coordenação e orientação de Célia Barreto Carvalho. Esta equipa deu-me a oportunidade de ingressar na Fundação Gaspar Frutuoso como bolseiro de investigação, podendo aí concluir o meu estágio profissional para a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Foi ainda aquando da minha permanência na Fundação Gaspar Frutuoso que fiz parte de uma equipa de investigadores que realizaram um estudo sobre a prevalência do consumo de substâncias psicoactivas no Açores (denominado “VIDA+”), sob a alçada da Direcção Regional de Prevenção e Combate às Dependências, em todas as 9 ilhas da Região. Este estudo deu origem à elaboração de um programa de intervenção ao nível da inteligência emocional, uma vez que os dados recolhidos apontavam que o ingresso em consumos de substâncias psicoactivas estaria associado a dificuldades na gestão emocional, tendo os consumos uma função de coping (desadaptativo) da activação emocional. O “Crescendo a Sentir – Programa de promoção de competências emocionais em agentes educativos” foi desenvolvido e posteriormente aplicado em colaboração com a equipa dos Serviços de Psicologia e Orientação (SPO) da Escola Básica e Integrada de Rabo de Peixe (EBIRP), alcançando algum sucesso ao nível das relações interpessoais entre professores, alunos, pais e auxiliares da instituição.
Com este sucesso, fui convidado a dar formação deste programa a uma equipa de técnicos em Santiago de Compostela, o que deu origem a um convite para o projecto “Trajecto Seguro” que tinha como objectivo desenvolver, consolidar e disseminar estratégias, modelos e metodologias na área da saúde, da formação escolar, da participação global em actividades pró-sociais e da interacção familiar que permitam um maior nível de sucesso educativo. Neste âmbito, estive envolvido na adaptação e aplicação de alguns planos de intervenção com populações de risco.
Com a pandemia e a alteração dos órgãos de gestão política, as funções que desempenhava deixaram de fazer parte dos novos planos de acção, acabando por ir para o desemprego. Felizmente, pouco tempo depois concorri para uma vaga de substituição para o Centro de Terapia Familiar e Intervenção Sistémica (CTFIS), onde permaneço até aos dias de hoje.
Actualmente, e paralelamente ao meu trabalho no CTFIS, que se prende com um trabalho ao nível familiar com especial incidência sobre problemáticas sociais, algo que me trás muita satisfação, mantive-me associado à Universidade dos Açores, onde participo de diversos estudos na área da Psicologia e a aplicação de alguns planos de intervenção, sob a coordenação de Célia Barreto Carvalho.
Fruto do meu percurso, surgiu a oportunidade de ingressar na prática de Psicologia Clínica, numa instituição privada, a PsiClinic, onde conto com a supervisão de Rúben Lima Santos. Algo que também me tem sido cada vez mais gratificante e um complemento perfeito à intervenção sistémica que realizo no CTFIS.

Como se define Depressão?
Honestamente, não gosto de falar no termo depressão e prefiro referir-me a sintomatologia depressiva, pois existem diversos critérios para o diagnóstico de uma Perturbação Depressiva (PD), que nem sempre estão presentes e/ou são cumpridos. Mas, para falar na vulgarmente conhecida depressão, torna-se necessário esclarecer que a sintomatologia depressiva pode estar associada a algumas perturbações inseridas nas Perturbações de Humor. Dentro destas encontram-se as Perturbações Depressivas, que mediante a sua duração e sintomatologia, podem variar. Volto a frisar que todas as perturbações de um foro mental possuem um determinado número de critérios que têm de estar presentes. No entanto, posso falar das Perturbações Depressivas de um modo genérico de forma a que as pessoas percebam. Podem escapar-me alguns critérios, mas para ser mais preciso, teria de vos descrever o DMS “Diagnosticand Statistical Manual of Mental Disorders” (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais).
Posto esta observação, extremamente pertinente, posso dizer que existem várias Perturbações Depressivas (PD), mas todas têm uma base comum, a alteração significativa do humor e do funcionamento do quotidiano, nomeadamente um claro desinvestimento no suprimento das necessidades básicas (rotinas de higiene corporal, higiene do sono, alimentação, etc.) bem como das responsabilidades afectas ao indivíduo (responsabilidades laborais e pessoais, tais como a prestação de cuidados a pessoas dependentes, etc.)

(continuação da pág. 13)

Quais são os diferentes tipos de Perturbação Depressiva…
Psicólogo Marco Teixeira – Na minha experiência profissional, aquela com a qual me deparei mais vezes foi a Perturbação Depressiva Major (PDM), que é caracterizada por episódios depressivos que duram a maior parte do dia, praticamente todos os dias, durante pelo menos duas semanas. Esta apresenta como sintomatologia dominante a tristeza profunda, perda de interesse ou prazer em actividades que antes eram prazerosas, alterações no apetite ou peso, perturbações do sono, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva, dificuldade de concentração e pensamentos sobre morte ou suicídio.
Mas existem outras tais como a Distimia (Perturbação Depressiva Persistente) que se trata de uma forma mais ligeira, mas crónica, de depressão, em que os sintomas persistem por, pelo menos, dois anos nos adultos (um ano em crianças e adolescentes). Ainda que os sintomas não sejam tão intensos quanto na PDM, a sua duração prolongada pode afectar significativamente a qualidade de vida e o funcionamento diário da pessoa.
Podemos ainda falar da Perturbação Bipolar que inclui períodos de depressão major alternados com episódios de mania ou hipomania (menos grave que a mania), sendo estes evidentes na forma como o indivíduo manifesta um aumento de energia, euforia, pensamento acelerado, comportamento impulsivo e, em casos mais graves, delírios ou alucinações.
Também existe a Depressão Sazonal (Perturbação Afectiva Sazonal) que é caracterizada por sintomatologia depressiva como tristeza, fadiga, aumento do apetite, particularmente por hidratos de carbono, e maior necessidade de sono. Contudo, esta sintomatologia está associada a uma determinada época do ano, mais frequentemente o Inverno, podendo estar também ligada a alguma festividade em específico como o Natal, Carnaval, Páscoa, etc. Acho que devo sofrer deste tipo de depressão, pois adoro o sol e o Verão, e apresento pouca tolerância para o frio e a chuva.
Também já trabalhei com casos em que suspeitei estar perante um diagnóstico de Depressão Pós-parto, essencialmente manifestada em algumas mulheres após o parto, caracterizando-se por uma tristeza profunda, ansiedade, fadiga e, nos casos mais graves, incapacidade de cuidar do bebé recém-nascido. É importante distinguir esta condição da “tristeza pós-parto”, que é mais leve e comum.
Apesar de nunca me ter deparado com nenhum caso de Depressão Psicótica, também posso referi-la na medida em que difere das restantes por incluir alguns aspectos de psicose, tais como delírios ou alucinações, geralmente relacionados com temas de culpa, doença ou pobreza.
For fim, existem ainda perturbações depressivas que não se enquadram exactamente nos critérios para as categorias mencionadas, aí denominamos de Outra Perturbação Depressiva Especificada e Não Especificada.

Este é um fenómeno que tem vindo a aumentar nos Açores? Porquê?
Não possuo dados para poder responder a essa questão, mas calculo que possa estar a aumentar, muito devido à realidade dos dias de hoje.
Em primeiro lugar, há um maior reconhecimento da doença e com isso um maior número de diagnósticos, o que outrora era difícil de reconhecer e detectar. Hoje, as pessoas estão mais atentas e, possivelmente, procuram mais ajuda do que antes, o que por si só deve ser um factor que contribui para o aumento.
Em segundo lugar, há stresse e as pressões sociais a que estamos sujeitos diariamente. Ou seja, houve um aumento das pressões no trabalho (com necessidade de produtividade, por exemplo) aleado ao receio do desemprego e de insegurança financeira que são incompatíveis com o nível de vida dos dias de hoje (bens materiais que nos colocam, ou não, ao nível dos demais compromissos financeiros, etc.).
Não podemos excluir as experiências de vida adversas, como situações traumáticas na infância, perda de entes queridos e outros lutos, relacionamentos abusivos ou outros eventos traumáticos que nos desorganizam. Muitos destes acontecimentos inesperados dificultam a nossa capacidade de agir e reagir às mais diversas situações, condicionando a forma como interpretamos as nossas vivências, bem como a nossa capacidade de aplicar estratégias resolutivas. Tudo isto poderá levar a uma desorganização emocional e um sentimento continuo de mal-estar.
Também é importante mencionar as mudanças ambientais e globais que passamos nos dias de hoje. É perfeitamente normal que, além das nossas preocupações quotidianas, também surjam preocupações numa escala mais macro (mudanças climáticas, instabilidade política, conflitos globais, inflação, saúde publica como foi o caso da pandemia, entre outras) que afectam o sentimento de segurança, podendo aumentar sentimentos de desesperança e ansiedade, contribuindo para uma sintomatologia depressiva.
Também poderíamos abordar muitos outros factores, tais como crenças e valores pessoais, interacções interpessoais desadequadas, expectativas reais e/ou imaginárias que levam à frustração, baixo autoconceito e auto-estima, entre muitos outros factores.
Cada caso é um caso e, apesar de podermos ter contextos semelhantes, a forma como as pessoas interpretam e vivem esses mesmos contextos, são diferentes, pois temos histórias de vida diferentes: o que para mim é devastador, pode não o ser para outra pessoa.

Qual a importância do diagnóstico precoce e da intervenção na pessoa com depressão?
Tal como quando não vamos ao médico por uma simples constipação, esta pode evoluir para quadros mais graves, as perturbações mentais funcionam de igual forma. O diagnostico precoce pode ser o factor deveras preponderante no que à eficácia e rapidez do tratamento diz respeito. Uma actuação ao nível da psicoterapia e/ou da terapia medicamentosa (muitas vezes com a combinação de ambas) poderá ser a chave para a sua eficácia, se encetados nas fases iniciais da perturbação. Assim será possível prevenir o agravamento dos sintomas e a progressão para um quadro mais severo, onde o suicido ou a sua ideação possam estar presentes.
Além do mais, as perturbações depressivas podem afectar gravemente a capacidade funcional da pessoa em diversos contextos e esferas da sua vida (contexto laboral, escolar, familiar, interpessoal, etc.). Com o diagnóstico precoce é possível realizar uma intervenção que minimiza estes impactos.
Neste sentido, acho que se torna óbvio que um tratamento precoce pode melhorar significativamente a qualidade de vida do indivíduo, quer na redução da sintomatologia associada, quer na retoma de actividades e rotinas prazerosas e essenciais ao nosso bem-estar. Sendo estas extremamente afectadas aquando da presença da Perturbação Depressiva Major.
Tal como muitas outras questões relacionadas com a saúde, também a Perturbação Depressiva Major poderá aumentar o risco de doenças crónicas (como doenças cardíacas ou outras condições de saúde já presentes), uma vez que o desinvestimento na saúde se torna um sintoma claro desta perturbação.
Poderíamos falar ainda de muitos outros aspectos como, por exemplo, ao nível social relativamente aos custos para o Serviço Nacional de Saúde e para a Segurança Social (baixas médicas, ou outras condições médicas associadas), ou até mesmo ao nível empresarial, com a baixa produtividades dos funcionários ou constantes turnovers, etc.,

Em que casos é necessário recorrer a medicação específica?
A decisão de utilizar medicação para tratar uma Perturbação Depressiva (PD) depende de vários factores, incluindo a gravidade dos sintomas, a duração da doença, o histórico médico do paciente, e a resposta a tratamentos anteriores. Não existe uma regra única para todos os casos. Obviamente que quanto mais grave for a sintomatologia e quanto mais complexa for a causa, maior é a necessidade de recorrer à medicação.
Um processo psicoterapêutico, poderá não ser suficiente por si só. Muitas das vezes torna-se essencial a articulação entre técnicos (psicólogo e psiquiatra) para estabilizar a sintomatologia para que a pessoa consiga se encontrar capaz de se comprometer e tirar partido do que é trabalhado em consulta.

Há alguma doença que deixe os pacientes mais susceptíveis a desenvolver depressão?
Considero que existem determinados tipos de doenças que podem ser mais propensas ao desenvolvimento de uma sintomatologia depressiva. Neste sentido, a doença crónica que agrega a ideia de que irei viver toda a vida com limitações e preso a um diagnostico poderá ser um percursor; Doenças endócrinas que possam comprometer a capacidade de regulação do humor e/ou comprometer a capacidade de sentirmos prazer; Doenças infecciosas, auto-imunes e oncológicas extremamente desgastantes, com tratamentos longos e associadas a diversos factores de stresse, onde a morte poderá ser real, podem também ser associadas a sintomatologia depressiva.

É verdade que há sintomas depressivos que resultam do impacto de certos tratamentos ou medicamentos?
Creio que um psiquiatra poderá estar mais apto a responder a essa questão. Contudo, e pelo meu conhecimento, posso considerar que sim: alguns sintomas depressivos podem resultar do impacto de certos tratamentos ou medicamentos. Diversos medicamentos e tratamentos para condições não psiquiátricas podem ter efeitos secundários que incluem sintomatologia depressiva. Isto pode dever-se a várias razões, incluindo a maneira como os medicamentos afectam o funcionamento químico do nosso cérebro, as reacções do corpo ao tratamento, ou as interacções com outros medicamentos que a pessoa possa estar a tomar.
Daquilo que é o conhecimento, existem alguns medicamentos como: medicamentos para a pressão arterial, que podem influenciar o nosso humor, ou “estado de espírito” como costumamos dizer; corticosteróides, utilizados no tratamento de inflamações, podem afectar o estado de humor e causar sintomatologia depressiva; medicamentos para o Parkinson que podem ter efeitos secundários que incluem sintomatologia depressiva; tratamentos hormonais, e/ou contraceptivos, podem afectar o estado de humor; e tratamentos à base de quimioterapia utilizados no tratamento de doenças oncológicas, podem ter um impacto significativo no bem-estar emocional e psicológico do paciente, incluindo a indução de sintomatologia depressiva. Poderão haver mais, mas de momento são apenas estes que me ocorrem.

O que podemos fazer quando a pessoa se recusa a reconhecer que precisa de ajuda?
Isto é uma luta que nós técnicos temos connosco próprios, muitas vezes vemos que a pessoa precisa de ajuda, mas no caso de esta não a querer, resta-nos respeitar. Mas há algumas coisas que podemos fazer. Primeiro, demonstrar apoio e compreensão, é importante que a pessoa se sinta ouvida e compreendida, sem julgamentos. Escutar activamente e expressar empatia pode ajudar a construir uma base de confiança. Podemos fornecer informação, na eventualidade de a pessoa mudar de ideias, saber o que fazer e a quem se dirigir na busca de ajuda. Podemos incentivar a pessoa a procurar um profissional de saúde mental salientando que não se trata de uma fraqueza, mas, pelo contrário, é um acto de coragem pedir ajuda, e neste sentido até podemos oferecer a nossa companhia para as primeiras consultas. É imperativo que sejamos pacientes! Reconhecer a necessidade de ajuda e dar o passo para procurá-la pode demorar algum tempo.
Mantenham-se informados e cuidem se si mesmos. Só podemos dar o melhor de nós aos outros se estivermos bem. Lidar com a Perturbação Depressiva Major é desgastante, mesmo que não sejamos nós a vivê-la directamente.
Em último caso, em casos em que a pessoa apresenta risco de automutilação ou de prejudicar outros, pode ser necessário procurar ajuda profissional imediatamente, mesmo sem o consentimento inicial da pessoa. Em situações de emergência, contacte os serviços de saúde locais ou procure assistência de profissionais de saúde mental especializados em intervenções de crise.
Lidar com alguém que recusa ajuda é desafiador, mas é importante lembrar que o seu apoio pode fazer uma grande diferença no processo de recuperação da pessoa. A abordagem deve ser sempre feita com empatia, paciência e respeito pela autonomia da pessoa.

O que a comunidade médica e a sociedade em geral pode fazer para quebrar o estigma em relação à saúde mental masculina?
Primeiramente, acho importante desmistificar algumas questões. Existe e persiste a ideia de que um acompanhamento psicológico é apenas necessário quando uma pessoa está muito mal, tem um problema gravíssimo, e pior, quando não tem competência para lidar com as suas dificuldades. Isto é falso!
Um acompanhamento psicológico não tem de estar associado a uma grande dificuldade ou a sintomatologia severa. Todos nós passamos por dificuldades, e não são raras as vezes que estamos tão focados na nossa dificuldade que não conseguimos encontrar uma solução. Um psicólogo poderá ser uma ajuda para a pessoa identificar os seus próprios recursos e encetar acções resolutivas e estratégias mais eficazes para ultrapassar as dificuldades presentes. Um processo de psicoterapia não tem de estar associado a uma patologia, pode muito bem ser apenas uma necessidade de evoluir, de melhorar como pessoa, como profissional, como pai, como companheiro, etc. Não tem de estar algo mal, basta querer potenciar o que já temos. Se começarmos por aí, talvez isso ajude a quebrar o receio e a conotação que ainda existe de se estar associado a um processo de psicoterapia.
Outra questão que pode ajudar a desmistificar a conotação negativa associada a um acompanhamento psicológico, é a sua normalização. O facto que muitos profissionais de saúde e de saúde mental procurarem ajuda, faz-nos ver que até não é algo tão estranho como isso. Eu sou um exemplo disso, já tive colegas em consultório e também possuo o meu acompanhamento psicológico. Já passei por uma perturbação depressiva, e com isso, mantenho o meu acompanhamento psicológico até aos dias de hoje. Hoje em dia trata-se de um momento de autocuidado, mas extremamente preciso e valorizado.
Se as pessoas se sentirem mais confortáveis com a ideia de consultar um profissional de saúde mental, mais precocemente poderão ser detectados sintomas associados a algum quadro de saúde mental.
Muito se fala da saúde em geral, e felizmente que cada vez mais se fala em saúde mental, mas sou da opinião que tal como existem médicos de família no Sistema Nacional de Saúde (SNS), também deveria existir um Psicólogo de Família. O que, à partida, seria um gasto exorbitante na economia do nosso país, na minha visão seria uma poupança. Se virmos a quantidade de situações que inundam as urgências dos hospitais e as consultas dos médicos de família, todas as situações com um quadro de saúde mental que se apresentam perante os profissionais de saúde. Se tivermos em conta a possibilidade de estes casos serem atendidos numa fase precoce evitando o seu agravamento, libertando o profissional de saúde para outras questões e patologias. Não seria benéfico?
Além do mais, em termos sociais, e pensando na quantidade de pessoas que se encontra de baixa psiquiátrica, acho que é legitimo inferir o custo que estas situações têm para as empresas e para o estado. Não poderiam estes gastos serem evitados ou canalizados? Bem, não sou político, nem almejo ser, é apenas uma visão, a minha visão.

O que nos pode dizer em relação à automedicação e aos mecanismos de coping desadaptativos associados à depressão?

Acho que automedicação é um assunto que tem sido constantemente explanado na área da saúde. Todos nós conhecemos os riscos da automedicação, e para um quadro de perturbação depressiva não é diferente. Temos de ter em conta que somos todos diferentes, logo o que funciona com uns, não funciona com outros. Nesta perspectiva, um médico ou um psiquiatra são os melhores profissionais para poder fazer corresponder um medicamento às necessidades do paciente.
Caso contrário, o mais provável que aconteça é que possa haver um agravamento dos sintomas associados, poderá levar ao desenvolvimento de um quadro de dependência criando um ciclo vicioso que dificulta a recuperação do quadro depressivo, poderá ter interferências com demais tratamentos que possam estar a decorrer sendo que certos medicamentos e substâncias podem interagir negativamente com tratamentos prescritos para a depressão, reduzindo a sua eficácia ou provocando efeitos secundários perigosos, além da possibilidade de camuflar a sintomatologia apresentada levando a um diagnóstico tardio ou incorrecto e, por consequência, a um tratamento ineficaz.

De que forma é que as redes sociais influenciam a saúde mental dos jovens?
Este tema poderia dar outra entrevista. A verdade é que tudo na vida tem o lado bom e o lado mau. Hoje em dia facilmente estamos em contacto com as pessoas, isso é bom, fortalece a nossa rede de apoio, dá-nos acesso a muito mais informação (e desinformação), mas claro, o que me tem surgido em consultório são principalmente os efeitos nefastos das redes sociais.
Passando a explanar um pouco melhor o tema, posso falar da minha experiência pessoal e profissional. É cada vez mais comum haver uma comparação social, onde nos chegam versões idealizadas da vida das pessoas, levando a comparações desfavoráveis com a nossa própria vida. Isso poderá levar à frustração quando vemos outras pessoas a alcançar objectivos que gostaríamos de alcançar, e com isso levamos um abalo na nossa auto-estima. E não me estranha que com tudo isso surjam sentimentos de inadequação — e aí surge a tal sintomatologia depressiva.
No meu tempo de estudante do secundário, já havia o bullying, não com a nomenclatura actual, mas a acção estava lá. Nesta altura, todas as crianças tinham as suas dificuldades — algumas ao nível das relações interpessoais — mas a verdade é que quando chegávamos a casa, tínhamos o nosso “porto seguro”, o que nos permitia distanciar daquilo que nos afectava na escola, permitindo-nos relaxar, brincar, etc. Havia um corte com o ambiente escolar, e acho que isso era saudável. Hoje em dia, as crianças levam o ambiente escolar para casa, e se antigamente já havia o bullying, hoje há o cyberbullying, onde o anonimato e a distância proporcionados pelas redes sociais podem facilitar o comportamento agressivo. Além da exposição do mesmo, pois o que antes era circunscrito à turma, agora é exposto a toda a escola, ou até mesmo a outros grupos associados a actividades extracurriculares. Todo este contexto aumenta significativamente o risco de desenvolver um quadro com sintomatologia depressiva.
Outrora as crianças podiam ser crianças, brincar com carros e bonecas, construir cabanas e castelos, dar asas ao imaginário, sem regras que limitassem a criatividade (atenção, dentro das regras e limites existentes). Actualmente, assiste-se a uma sobrecarga de informação e estímulos que criam a necessidade de estar sempre conectado, sob pena de não estar informado, de não poder ingressar em interacções sociais sobre o tema, e com isso não desenvolver um sentimento de pertença em relação ao grupo de pares. Toda esta intensidade pode levar a uma sensação de sobrecarga e stress, contribuindo para problemas de saúde mental.
Agora vem uma bicada para os pais: há uns anos atrás havia o “Vitinho”, um desenho animado que dava na RTP Açores, que indicava às crianças a hora de ir para a cama, e este horário era religiosamente cumprido, por crianças e pais. Hoje em dia, as crianças ficam com aparelhos electrónicos sem supervisão, e quando estas dormem nos seus quartos sozinhas, a supervisão é menor, o que facilitam que estejam até altas horas da noite ligados a tecnologias. Depois, as crianças vão para a escola com sono, mais irritadas, e não conseguem ter aproveitamento, porque apresentam uma Perturbação do Sono. O ser humano, na sua génese, foi despertando com o nascer do sol e adormecendo com o pôr-do-sol, é algo biológico, o nosso corpo “desactiva” no escuro, é como estamos “programados”. Não é por acaso que o cheiro a lavanda ajuda no sono, pois com o entardecer as flores libertavam os seus aromas e associávamos isso à hora de dormir. Se estamos expostos a uma luminosidade que não é natural, o nosso corpo vai decifrar essa luz como estando na hora de estar activos, e o sono vai à vida, além de a interacção social e os jogos serem estimulante, o que dificulta o sono. Tendo em conta que a qualidade do sono está directamente relacionada a um maior risco a sintomatologia depressiva, não estranho que o impacto seja significativo.
Finalmente, vem a parte em que as redes sociais tem impacto directo nas nossas interacções. Apesar de as redes sociais permitirem a conexão com os outros, pois muito mais facilmente estamos em contacto com alguém sentado no sofá da nossa sala, seja por mensagens de texto, por videochamada, ou só mesmo a fazer scroll e a ver o que os outros fizeram ou estão a fazer, tudo isto pode ter implicações. Com o comodismo de não termos de nos deslocar, deixamos cair por terra aquela interacção presencial, aquele toque e abraço que nos aconchega, deixamos de estar verdadeiramente presentes. Com isso tudo, até perdemos a noção, perdemos a capacidade de estar cara a cara, pois os estímulos do ambiente começam a ser insuficientes para satisfazer nossa inquietude. Segundo este ponto de vista, já não se torna tão estranho vermos pessoas a tomarem cafés juntas, sem comunicar, estando única e simplesmente agarradas ao telemóvel. Depois, assumimos uma clara dificuldade em aceitar que o uso excessivo da tecnologia e das redes sociais pode levar ao isolamento social no mundo real, que pode ser uma das causas de uma diminuição nas interacções presenciais e principalmente do nosso bem-estar emocional. O contacto humano presencial é uma das fontes de bem-estar que pode reduzir significativamente a sintomatologia depressiva.

Considera que, enquanto sociedade, já estamos a recuperar das depressões provocadas pela pandemia covid-19?
Para mim torna-se muito difícil conseguir responder a essa pergunta. A pandemia trouxe consigo desafios sem precedentes, como o isolamento social, o luto, a incerteza económica e o medo da doença, que tiveram um impacto significativo na saúde mental de muitas pessoas.
A verdade é que ainda hoje se torna difícil saber o real impacto da pandemia, e com isso podemos apenas inferir que os seus reais efeitos na saúde mental possam ser duradouros para muitas pessoas, especialmente para aquelas que sofreram perdas significativas (casa, trabalho, morte de familiares, etc.), enfrentaram problemas de saúde mental preexistentes, ou continuam a lidar com as consequências económicas.
Embora tenhamos feito progressos em algumas áreas, nomeadamente na área laboral com a inclusão do teletrabalho, entre outras questões que fogem ao nosso tema, a verdade é que não sabermos se alguma vez haverá a recuperação total da saúde mental da sociedade. Na verdade, este será um processo contínuo que requer esforços concertados de indivíduos, comunidades, organizações e governos. Será cada vez mais importante continuar a monitorizar a saúde mental da população e garantir que os recursos e o apoio se encontrem adaptados às necessidades emergentes à medida que avançamos.
No fundo, acho que a pandemia trouxe um aspecto muito importante, um olhar mais atento para a saúde mental e para as suas necessidades.

Existem recursos suficientes disponíveis na nossa Região para tratar pessoas que sofrem de depressão?
O que pode ser melhorado? Listas de espera vigentes na prática de Psicologia Clínica Privada, e não falo só por mim, falo de colegas que também possuem longas listas de espera, julgo que não será descabido dizer que não possuímos recursos suficientes, mas também não possuo dados que possam corroborar essa minha ideia.
Aquilo que eu sei, fruto do meu trabalho na área social e da clínica privada, é que o Serviço Regional de Saúde não consegue dar resposta a quem precisa e procura ajuda para questões de saúde mental. Estou a falar de casos em que nem existem previsões de atendimento.
Soluções? Volto a bater na mesma tecla, talvez a existência de um psicólogo e um psiquiatra de família pudesse ser uma destas respostas.

Que conselhos daria a alguém que suspeita estar a sofrer de depressão, mas tem falta de recursos para procurar ajuda?
Acho que os conselhos que tenho para dar servem para perturbações depressivas como para qualquer outra patologia ou psicopatologia.
Em primeiro lugar, poria a busca activa de informação credível e credenciada. A Ordem dos Psicólogos Portugueses tem muita e diversa informação na sua sede e no seu site, oferece uma vasta gama de recursos educativos gratuitos que podem ajudar a entender melhor o que está a sentir. Com essa informação, é possível à pessoa conhecer e identificar os sintomas, causas e tratamentos disponíveis para a depressão. Este pode ser um importante primeiro passo. Só conseguimos promover uma mudança se identificarmos que algo não está bem, pois se não detectamos que algo não está bem, porque é que faremos esforços para mudar? Para fazer diferente é preciso perceber que o que estamos a fazer não está a resultar.
Seguidamente, aconselhava a pessoa a poder falar com alguém da sua confiança (amigos, familiares, médico, etc.), alguém que lhe permita partilhar o que sente e o que está a experienciar. Muitas vezes, o simples acto de verbalizar o que se sente pode ser um grande passo para se sentir menos isolado e mais apoiado, além de poder provocar um alívio significativo. Este falar com alguém também pode ser uma boa ferramenta para, em conjunto, procederem à busca activa da ajuda que necessitam.
Passo seguinte seria poder consultar um profissional por forma a ter a ajuda que realmente precisa.
Não menos importante são estratégias de autocuidado, que não substituindo um profissional qualificado, podem ajudar. Práticas como exercício físico regular (ajuda o corpo a produzir serotonina, dopamina, e outras hormonas e neurotransmissores que ajudam a regular o humor e promover bem-estar), alimentação saudável, técnicas de relaxamento, manutenção de rotinas e principalmente, actividades de lazer prazerosas (também associadas à produção de hormonas e neurotransmissores que ajudam a regular o humor e promover bem-estar) podem ajudar a gerir a sintomatologia associada.

Mitos e desinformação na depressão

Que mitos e desinformação considera importante desmistificar?
Apesar de toda a informação existente, infelizmente ainda persistem alguns mitos. Aqueles com que me deparo com maior frequência são os seguintes:

“A Perturbação Depressiva Major é apenas tristeza.”
Se isso fosse verdade, todas as pessoas que passam por momentos de tristeza estariam com uma Perturbação Depressiva Major. Esta psicopatologia é muito mais do que um simples momento de tristeza. É uma perturbação complexa que afecta a mente e o corpo, influenciando o humor, o pensamento, o comportamento, a alimentação, o sono e a saúde física de uma pessoa.

“A Perturbação Depressiva Major é um sinal de fraqueza.”
A PDM não é uma falha ao nível da personalidade ou do carácter do individuo, nem tão pouco um sinal de fraqueza. É, tal como o nome indica, uma perturbação ao nível da saúde mental que pode afectar qualquer pessoa, independentemente de sua força de carácter, de personalidade ou até mesmo de resiliência.

“Homens à séria, não ficam deprimidos.”
A Perturbação Depressiva Major não é exclusiva de determinada faixa etária, de determinado sexo, género, orientação sexual, etnia, ou outro qualquer factor cultural. Por diversas vezes, este mito e o mito da fraqueza andam de “mãos dadas”, muito devido a todos os estereótipos de género que se encontram associados ao sexo masculino. Nenhum Homem (ser humano) é imune às emoções, pois estas são inatas e essenciais à nossa sobrevivência (a não ser que haja algum tipo de comprometimento do nosso cérebro). Assim é expectável que perante muitas crenças/pré-conceitos vigentes muitos homens se possam sentir relutantes em falar sobre o que sentem ou em procurar ajuda, mas isso não significa que sejam imunes à depressão.

“Crianças e adolescentes não podem ter depressão.”
Novamente, a PDM não é exclusiva de determinada faixa etária, de determinado sexo, género, orientação sexual, etnia, ou outro qualquer factor cultural. A ideia de que os mais novos não apresentam razões para apresentarem sintomatologia depressiva é falsa. As exigências académicas, os problemas familiares, a necessidade de corresponder às expectativas do contexto, as interacções interpessoais desadequadas, como o sobejamente falado bullying, entre outras são apenas alguns factores que podem contribuir PDM em idades mais novas.

“Quem sofre de Perturbação Depressiva Major, está sempre triste e nunca sorri.”
Embora a tristeza possa ser um dos sintomas mais evidentes da Perturbação Depressiva Major, isso por si só não significa que as pessoas que sofram desta perturbação estejam constantemente tristes. A tristeza, muitas vezes, pode dar lugar a um sentimento de vazio, a uma maior irritabilidade, a uma sintomatologia ansiogena exacerbada ou até mesmo à alternância entre períodos de aparente “normalidade” com períodos de tristeza clara e evidente.

“A Perturbação Depressiva tem sempre uma causa óbvia.”
Embora eventos de vida traumáticos e/ou stressantes possam estar na origem do desenvolvimento de sintomatologia depressiva em algumas pessoas, noutros casos pode não haver uma causa única e claramente identificável. A Perturbação Depressiva pode resultar de uma complexa interacção de diversos factores genéticos, biológicos, ambientais e psicológicos.

“O tratamento para depressão é apenas para os casos mais graves.”
Independentemente do grau de gravidade da sintomatologia apresentada, todas as pessoas podem beneficiar de um acompanhamento psicoterapêutico, que mediante o caso, pode ser ao nível de um processo terapêutico individual, de um processo com recurso a farmacologia, ou até mesmo a combinação de ambos. A crença de que a Perturbação Depressiva passa por si só — a tal ideia que o tempo cura tudo — e que se ignorarmos os sintomas, eles acabam por desaparecer, é uma ideia enganadora que muitas vezes leva ao agravamento da situação.

Daniela Canha 
                  
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