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Tânia Rodrigues, com 41 anos, venceu competição nacional de culturismo WABBA na categoria ‘Overall bikini’

A atleta açorina Tânia Rodrigues venceu a competição Nacional da WABBA – Potugal (World Amateur Bodybuilding Association) que decorreu na no passado Domingo em Lisboa. A atleta é professora de Matemática e Ciências da Natureza, mas o desporto sempre foi a sua paixão: hoje é personal trainer e está a especializar-se em Treino Terapêutico. Afirma que entrou nesta competição para provar a si própria que conseguia, e mostrar que não há idade ou “desculpas” que nos impeçam que de alcançar aquilo a que nos propomos.

Correio dos Açores – Como se sente depois de ter ganho o WABBA Spring Cup 2024? Quais foram as maiores dificuldades?
Tânia Rodrigues (professora, atleta e técnica especialista em exercício físico) – Há muitos anos que idealizei entrar numa prova destas, mas a minha falta de confiança fez com que adiasse a decisão. Como já calculava o sacrifício que a preparação implica é muito. Tinha receio de começar o processo e não o levá-lo até ao fim, pois a frustração de desistir a meio parecia-me pior do não tentar. Entretanto, levei o meu marido para o mundo da musculação – para esta forma de viver – e ele começou a gostar muito desta “forma de viver”. E assim decidiu fazer parte desta competição no ano passado. Eu acompanhei o processo e, claro, pensava no quanto também adorava estar ali. Só não estava lá porque não tinha confiança em mim. Foi neste momento que me deu o impulso. Assim, foi aos meus 40 anos que decidi avançar.
Tenho alguns problemas, como uma escoliose e um problema no joelho, artrose grau um, e foi precisamente no ano passado que soube e tive um médico a dizer-me que teria de terminar com a musculação. Foi um diagnóstico que me abalou muito, pois sabia que esta realização nunca iria concretizar este sonho. No entanto, decidi que isso não iria acontecer. Falei com o meu preparador e fomos avançando com cuidado a nível articular e saúde, acima de tudo. Os meses foram passando e meu físico começou a mudar. Para dizer a verdade, o maior desafio é a parte mental. O ter de lidar com a minha mente: o ‘tu consegues’, ‘ não, não consegues’, depois, também há a parte das comparações, pois nós mulheres temos muita tendência para nos comparar, achamos sempre que os outros são melhores. Apesar de sabermos que aquilo que vemos nas redes sociais não corresponde à realidade, ainda assim comparamo-nos e dizemos “nunca vou chegar ali”.
Foi um processo muito meu, porque não sou de me expor e por norma só partilho as coisas com as pessoas que me são muito próximas. Neste sentido, foram realmente muito poucas as pessoas que acompanharam este processo e eu devo-lhes muito porque foram elas que me ajudaram a vencer todos esses bloqueios mentais e que me impediam de avançar. Devo muito aos meus treinadores, à minha família e aos poucos amigos que considero família e que me ajudaram dia após dia.
Foram muitos meses de treino e dieta rigorosa, de ter de recusar convívios, ou então ir para eventos com a minha própria marmita e de copo de água na mão. Para além disso, não podemos falhar os treinos de cardio, por vezes treinamos de manhã quando ainda está toda a gente a dormir, ou à noite quando os outros estão a ir para a cama. É uma jornada que implica muitos sacrifícios, mas tudo em prol de um objectivo. Sobretudo, o objectivo de provar a mim mesma que consigo. Sou uma pessoa competitiva – o desporto sempre fez parte da minha vida e em pequena já fui atleta de alta competição -, mas a verdade é que sempre tive os pés muito assentes no chão e considero-me uma pessoa humilde. Neste sentido, fui pelo desafio de competir comigo própria. Tenho quase 42 anos, não tomo nada e sabia que ia competir com atletas com muito experiência, com treinadores que as acompanham há muitos anos, com aulas de postura para o desfilie, muito mais novas do que eu e, portanto, com uma densidade muscular muito diferente… Portanto, decidi que ia dar o meu melhor e fui com a consciência de que fiz tudo o que pude. Posso dizer que desfrutei o processo. Adorei cada momento!

Foi a primeira vez que se inscreveu e acabou por ganhar a competição. O que é que esta vitória significa para si?
Neste momento estou a processar. Foi tudo tão rápido que ainda não acredito. Em cima do palco deixei-me fluir e fui eu própria, não apenas enquanto atleta, mas enquanto pessoa. Entrei em várias categorias que ganhei e, depois, fui ao overall. Portanto, era suposto entrar em ‘miss model’ e ‘bikini fitness’, esta última é uma categoria superior porque exige uma linha corporal com mais maturidade muscular e, portanto, na altura iria começar com a categoria “miss model”. No entanto, eles só me viram pessoalmente na passada Sexta-feira – pois até então o acompanhamento tinha sido todo online – e foi aí que me disseram que seria melhor apostar na categoria acima. Entrei por idade e por altura, e como ganhei o prémio nestas categorias todas, depois fui ao overall . Ou seja, quem ganha todas as categorias em que concorreu, no final vamos em comparação para o jurí e, no fim, ganha a melhor das melhores. De certa forma, ainda me custa dizer isto assim, mas ganhei o overall.

Qual foi o percurso que a trouxe até aqui?
Sou professora de Matemática e Ciências da Natureza, mas sempre adorei desporto. As pessoas pediam-me ajuda e conselhos e começaram a questionar porque não investia nesta área. Nisto, o meu marido fez-me uma surpresa e inscreveu-me no Curso de Técnico Especialista em Exercício Físico. Na verdade, sempre foi este o meu sonho, mas como na altura não havia o curso nos Açores, acabei por tirar o curso de Biologia e Geologia. Mas, aos 38 anos realizei este sonho e comecei a trabalhar como personal trainer. Acredito que esta é a minha missão: ajudar, motivar e tentar fazer com que as pessoas tenham um estilo de vida mais saudável, para viver bem e envelhecer bem e de forma autónoma, pois é por aí que todos vamos e acredito que nós somos capazes quando queremos mesmo, o corpo alcança o que a mente quer. E com 41 anos eu sou a prova disso.

Como vê o futuro do bodybuilding em Portugal e nos Açores, especialmente para as mulheres?
Acredito que estamos a evoluir cada vez mais. Há pouco tempo, as pessoas ainda estavam com a mentalidade muito fechada, acreditavam que quem praticava esta modalidade tomava anabolizantes e que as mulheres tinham um corpo muito masculino. Na maioria das vezes, as pessoas consideram que somos menos inteligentes porque e que só pensamos em pesar comida, em treinar, em abdicar de tudo o que é lazer e tudo isto é mentira. Nós lidamos com a ciência do corpo como mais ninguém o faz. E, portanto, estamos a trabalhar em par e em equipa com profissionais de saúde.
Neste momento estou a tirar uma Pós-graduação em Treino Terapêutico — tudo o que está relacionado com prevenção e tratamento de lesões, postura em treino — e posso dizer que este é um trabalho em equipa: envolve um ortopedista, fisioterapeuta, nutricionista e de um técnico de exercício físico. Portanto, temos de ser uma equipa e nos Açores nós ainda falhamos muito nesta parte. Aqui refiro-me aos profissionais de saúde no sentido em que temos o médico que diz que é “isto”, o fisioterapeuta que diz que “não é bem assim”, etc. Acredito que ganhávamos muito se trabalhássemos em equipa. Vejo isto através do grupo com quem estou a tirar a pós-graduação pois eles trabalham muito assim. Por exemplo, têm o ortopedista que opera e que depois manda para o osteopata e para o técnico de exercício físico para ajudar no fortalecimento, etc.
No que diz respeito a esta cooperação interdisciplinar ainda há muitas falhas nos Açores. Já começa a existir trabalho de grupo, mas ainda há muito ‘eu’ e olhar crítico – num sentido negativo – entre colegas da mesma área. Talvez pela maturidade que ganhei com a idade, sinto que há muito ‘eu é que sei’ e críticas negativas e, quando alguém está realmente a fazer um bom trabalho, não há o devido reconhecimento ou reforço positivo. Parece que lhes fere o ego ver alguém que está a ter um bom desempenho e isso é muito mau. O mundo precisa de pessoas que estejam dispostas a ajudar, dispostas a combater a questão do sedentarismo, da obesidade e da falta de saúde.

Acredita que o seu percurso e, em especial a sua vitória no WABBA, vai servir de inspiração para mais pessoas que queiram melhorar a sua saúde?
Talvez. As pessoas que me acompanham sabem que aquilo que digo continuamente às minhas alunas é que elas são lindas da forma que são, tenham elas mais ou menos curvas. Nós, as mulheres, somos capazes de tantos feitos, passamos por tanto, somos mães, companheiras, sofremos tantas dores, sofremos com a parte hormonal dos nossos ciclos todos os meses… Somos capazes de tanto e temos de ser unidas e empoderarmo-nos umas às outras. Mas, a verdade é que falhamos muito nisto pois somos as primeiras a criticar. Por ter este estilo de vida e por também dar treinos, cheguei ao ponto de ter pessoas a dizer-me “ah, mas tu também tens celulite”. Pois claro que tenho! Sou uma pessoa normal, natural e real. “Ah, mas tu também comes gelado”, pois claro que como! Tudo tem a ver com equilíbrio e este é o maior prazer da vida: poder desfrutar com os teus, poderes comer algo que gostes, mas no dia seguinte retomar a prática de exercício e refeições saudáveis. Não há mal nenhum em beber um copo com os amigos, partilhar uma sobremesa ou uma pizza com a família. Ou eu que vou agora (ontem) desfrutar de um brunch no aniversário do meu marido que também se privou de muita coisa durante a minha preparação para a competição.

Que conselhos daria a alguém que está a pensar em começar no bodybuilding mas sente-se intimidado ou incerto por onde começar?
Que comecem agora. Não há segundas-feiras, não há início do ano, não há início do mês, não há uma idade. Há sim um querer. Digo isso a todas as minhas alunas e a todas as pessoas que vêm ter comigo. Usamos as desculpas para nos enganarmos a nós próprias porque quando nós queremos, conseguimos alcançar. Eu sou prova disso porque sempre disse que não era capaz de ser tão rigorosa com a dieta, que não ia conseguir fazer tantos cardios, etc., mas eu consegui! E claro, não estou a dizer que é necessário este extremo, pois aquilo que estive a fazer foi uma preparação para uma prova e isto não é o meu dia-a-dia. Temos de assumir pequenos objectivos e metas reais e se quem se compromete, consegue. Agora, rodeia-te de quem te apoia e afasta-se de quem faz o contrário, de quem não te respeita. Não tenham receio dos comentários, não tenham receio de levar a vossa marmita, não tenham medo de dizer que não à segunda fatia de bolo – pois estão a lutar por um objectivo que vocês definiram, não foram os outros. Infelizmente, quando as pessoas vêem alguém que está preocupado consigo e elas não conseguem fazer o mesmo, claro que vão tentar fazer com que a pessoa falhe, porque caso contrário é um atestado à sua falha. Lutem por aquilo que querem e definam objectivos reais.

Há alguma mensagem que que queria deixar?
Quero agradecer! Em primeiro lugar ao marido, o meu pilar e quem me ajudou com tudo e esteve ao meu lado em todos os momentos. À minha filha, aos meus pais e à minha sogra. Aos meus preparadores, André e Filipe, que me ajudaram tanto na parte da nutrição, como na parte física; e à Verónica que me ajudou a dar as primeiras linhas de desfile. Depois, tenho aquelas pessoas que me ajudaram a transformar numa borboleta: o Hugo Freitas que tratou da maquilhagem; a Liane, a minha cabeleireira; e a Stephanie que me ajudou com parte estética. E, por fim, mas não menos importante. às três pessoas que me são muito queridas: a Marta, a Mariza e a Melissa, que são mais do que amigas e acompanharam todo este processo sem julgar e apoiaram-me de forma incondicional.
Daniela Canha

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