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O futuro passa por bombeiros profissionais nos Açores e bombeiros voluntários incentivados

O Dia Internacional do Bombeiro foi instaurado em 1999, após a morte de cinco bombeiros australianos num incêndio; o mote para se homenagear o trabalho de todos profissionais e voluntários que muitas vezes arriscam a própria vida ao serviço da população. O nosso jornal esteve à conversa com João Curvelo, o Segundo Comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Franca do Campo.

Correio dos Açores – Qual a importância de assinalar o Dia Mundial do Bombeiro?
João Curvelo (Segundo Comandante do Quartel de Bombeiros Voluntários de Vila Franca) – Este dia é importante para sensibilizar a população para importância desta profissão e para a importância dos voluntários porque cada vez termos menos pessoas que se querem dedicar ao voluntariado. Além disso, estamos a falar de uma profissão de risco que não tem o devido reconhecimento — não há subsídio de risco! Mesmo a nível de voluntariado, o que há é apenas um seguro que nem sempre funciona e há registo de casos de bombeiros que ficam incapacitados para o resto da vida e recebem pouco ou nenhum apoio. Actualmente, fala-se muito do subsídio de risco na PSP e na GNR, por exemplo, mas sobre os bombeiros, que também têm riscos inerentes à profissão, pouco se fala. As pessoas valorizam a profissão de bombeiro e o voluntariado, mas a verdade é que, na prática, não há esse reconhecimento.

O que o motivou a seguir a carreira de bombeiro?
Eu comecei como voluntário em 1986 e, depois, surgiu a possibilidade de passar a ser bombeiro assalariado e, como o ‘bichinho’ por isto nunca morre, continuei. Tinha 20 anos quando comecei como aspirante, o que, actualmente, chamamos estagiário, na secção destacada dos bombeiros de Ponta Delgada. Mais tarde, em 1998, foi criada a Associação dos Bombeiros de Vila Franca e fui convidado a ir para o Comando.

Como é um dia típico do bombeiro?
Nós lidamos com aquilo que nos aparece durante aquele dia. Sejam urgências hospitalares, inundações ou incêndios. O dia normal, sem situações mais graves, tem por base o serviço de transporte de doentes não urgentes. Mas, de forma geral, o nosso dia-a-dia é basicamente lidar com aquilo que nos aparece.

Pode descrever o treino e a preparação necessários para se tornar um bombeiro?
A formação inicial de bombeiros é de cerca de 210 horas e tem uma série de módulos que abrange os fundamentos do combate a incêndios, primeiros socorros, e técnicas básicas de salvamento. Quando acabam o curso inicial, os aspirantes a bombeiros prosseguem para o curso de salvamento e desencarceramento. Depois, fazem um estágio que pode ir até dois anos. Durante e após o estágio, os aspirantes são submetidos a avaliações em três categorias principais: avaliação do Curso Inicial de Bombeiros; avaliação das competências adquiridas no TFC e outras formações especializadas como salvamentos; avaliação com base no desempenho durante o estágio. Depois do balanço destas três avaliações é que passam de estagiários para bombeiros de 3º.

De que forma deve evoluir o estatuto profissional dos bombeiros nos Açores?
A evolução do estatuto profissional dos bombeiros nos Açores deve, em minha opinião, adoptar uma abordagem híbrida, que valorize tanto a profissionalização quanto o voluntariado. Este modelo permite uma carreira mais digna para os bombeiros profissionais e, ao mesmo tempo, mantém o espírito de voluntariado para responder a situações de emergência mais graves ou catástrofes.
Por um lado, o regime profissional deve ser reforçado para que, durante o horário de trabalho, os bombeiros sejam devidamente remunerados quando chamados para emergências. Eu costumo dizer que, por ser assalariado, às vezes sou mais voluntário do que os voluntários porque, se durante o horário de trabalho, um bombeiro é chamado para um incêndio ou para alguma outra situação grave, nós não recebemos nada. Por outro lado, é fundamental manter a parte do voluntariado. Esta componente não só permite uma resposta rápida e eficaz em grandes emergências, mas também valoriza o espírito comunitário e a solidariedade que caracterizam os serviços de bombeiros.
No entanto, não há um verdadeiro incentivo e os voluntários são muitas vezes sobrecarregados. A formação inicial, por exemplo, é toda feita em horário pós-laboral e aos fins de semana. Estamos a falar de 180 a 280 horas para o curso inicial, mais 70 horas de Treino de Emergência Clínica (TEC), e ainda 125 horas de formação em técnicas de desencarceramento. Muitas vezes começamos com uma recruta de 15 elementos e acabamos com quatro ou cinco. Esta tem sido a realidade das últimas formações que fizemos e, neste sentido, temos de repensar a forma como lidamos com o voluntariado.
Além disso, há a questão dos conflitos com os empregadores. Apesar de a lei proteger os bombeiros voluntários que precisam ausentar-se do trabalho para atender emergências, muitas empresas, principalmente no sector privado, ignoram tudo isso. O resultado são tanto represálias como ameaças de despedimento. Tudo isso cria um ambiente em que os voluntários têm de escolher entre a sua profissão base e a sua paixão pelo serviço que prestam à comunidade.

Há carências nos vários quartéis de bombeiros voluntários dos Açores…
As carências não acontecem tanto a nível de infra-estruturas, mas principalmente a nível de equipamentos individuais. E isto é muito importante para a segurança do bombeiro. O Serviço de Protecção Civil faz sempre alguma coisa, mas nem sempre chega a todos. Depois, são materiais que sofrem muito desgaste. Portanto, há sempre muita dificuldade em equipar os bombeiros com a devida segurança no que toca ao equipamento de protecção individual.

Como é que a comunidade pode apoiar melhor os bombeiros locais?
A comunidade exige muito de nós mas, depois, recebemos muito apoio de volta. No caso dos Bombeiros de Vila Franca, temos muito poucos sócios e uma coisa que podem fazer para ajudar directamente é associar-se; e as empresas podem, por exemplo, apoiar a nível de equipamentos.

O que gostaria que mais pessoas soubessem sobre o trabalho dos bombeiros?
Percebemos que existe, por vezes, alguma falta de compreensão por parte da população. Posso dar um exemplo do nosso dia-a-dia que tem a ver com o facto de as pessoas não compreenderem os tempos de espera dos transportes não urgentes. Este tipo de transporte é gratuito e não funciona como um táxi, por exemplo. Mas, as pessoas não conseguem compreender que, por vezes, vão ter de esperar um pouco porque nós não conseguimos chegar a tudo. Neste sentido, queria sensibilizar as pessoas para que tenham mais paciência nestas situações, pois fazemos sempre o nosso melhor e, como é evidente, temos sempre de dar prioridade aos transportes urgentes.

Como vê o futuro dos bombeiros nos Açores?
Vejo o futuro dos bombeiros nos Açores um pouco negro. Temos de fazer alguma coisa em relação à questão das carreiras e do voluntariado. É cada vez mais difícil arranjar voluntários. Portanto, talvez o futuro dos bombeiros passe por profissionalizar uma parte dos bombeiros, por um lado, e incentivar o voluntariado, por outro. No caso do Quartel de Vila Franca do Campo, por exemplo, se calhar precisávamos de uns 26 bombeiros profissionais. Mas no caso de catástrofe e situações mais graves, aí precisamos de mais elementos e é aí que está a importância do voluntariado.
Como é que podemos sensibilizar o voluntariado? Por exemplo, sei que existem associações em que é possível fazer descontos no IRS ou no IMI. Tem de existir incentivos porque os bombeiros voluntários não têm incentivos nenhuns. Tudo bem que não ganhem pelo voluntariado, mas tem de haver incentivos que levem as pessoas a dedicar-se à formação e a dispensar o seu tempo.

Que mensagem quer deixar neste dia?
Quero desejar um feliz dia a todos e agradecer pelo excelente trabalho realizado. A população conta convosco, e o voluntariado é fundamental em todas as áreas. Pode não ser necessário hoje ou amanhã mas, inevitavelmente, vai chegar o dia em que precisaremos uns dos outros. É por isto que todos temos de dar um pouco de nós à comunidade. E não desistam, temos de continuar a lutar por melhores condições, para que possamos ter carreiras dignas e reconhecidas e para garantir que existam oportunidades adequadas para aqueles que querem dedicar-se ao voluntariado.

Daniela Canha

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