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“A sociedade desvaloriza o esforço exigido pelo rigore aceita que a comunicação se ancore na expressividade confundida com o improviso da oralidade”

Em 2019, a UNESCO decidiu proclamar o dia 5 de Maio como o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Com mais de 260 milhões de falantes em todo o mundo, o português continua a ser uma das mais difundidas e das principais línguas de comunicação internacional. Para assinalar esta data, falamos com a Professora Maria do Céu Fraga, da Universidade dos Açores, que afirma: “Não se pode pensar na língua sem associá-la à emoção e à cultura, no seu sentido mais amplo, que permite a verdadeira interrogação sobre si próprio e sobre o mundo, essencial para a integração e globalização.”

Correio dos Açores – Para si qual é o significado do Dia Internacional da Língua Portuguesa?
Maria do Céu Fraga (Docente da Universidade dos Açores – especialista em Literatura Portuguesa Clássica) – Um dia fundamental de celebração: o Dia Mundial da Língua Portuguesa foi proclamado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para celebrar a língua que une, em todos os continentes, países com diferentes culturas e, simultaneamente, para chamar a atenção para a riqueza dessa diversidade e dos traços comuns que a cultura lusófona apresenta. Dez anos volvidos, em 2019, a UNESCO, que concebe o multilinguismo como valor central na compreensão e na comunicação mundial, integrou no seu calendário de celebrações anuais o Dia da Língua Portuguesa. Na base da decisão, esteve o facto de o Português ser uma das línguas mais difundidas no mundo, presente em todos os continentes e, portanto, com uma importância forte na comunicação internacional.
Outro significado, não menos importante, é um dia que se abre e incita à reflexão sobre o poder e o papel da língua, e da comunicação que permite – seja ela de índole quotidiana, cultural, científica.

Como é que o Português se adapta e evolui no contexto da globalização?
A língua portuguesa é, logo à partida, uma língua que promoveu a globalização: de diferentes maneiras, foi ela o traço de compreensão entre continentes, acompanhando a expansão dos séculos XV e XVI. E será suficiente ver a listagem de países que promovem iniciativas em torno da língua portuguesa para ver a penetração que conseguiu em muitos pontos do mundo.
Na sessão em que recebeu o prémio Príncipe das Astúrias, o ensaísta George Steiner disse de uma forma muito elegante e sugestiva o que tanto os filósofos da linguagem como os linguístas têm concluído: «Não há línguas pequenas». Cada língua articula-se com a comunidade que dela se serve e adapta-se às suas circunstâncias e exigências.

Quais são os principais desafios no ensino do Português actualmente?
Em primeiro lugar, que a língua que se ensina seja de facto um instrumento de promoção individual e social e de união cultural. Estamos bem habituados a ver que o mar tanto pode ser factor de união como de afastamento e dispersão. Ora o mesmo acontece com a língua: pode ser um factor de união e identidade, e pode tornar-se um elemento a agravar ou a provocar a exclusão.
O grande desafio é, sem dúvida, o da própria escola e da educação. Acompanha este desafio uma condição de exigência que nem sempre é bem aceite. Trata-se de construir cultura através da língua, de preparar falantes que se movam na sua língua com propriedade e que nela se revejam, e revejam também a sua comunidade.

O papel da escola no ensino da língua…
O ensino da língua não cabe apenas ao professor da disciplina de Português. Esse é, sem dúvida, fundamental: cabe-lhe explicitar as regras, valorizar ou corrigir usos da língua, cabe-lhe mostrar um património que foi possível amealhar ao longo do tempo.
Mas o Português está presente nas aulas dos outros professores, de letras, de ciências, ou de expressões. Chamar peixe a uma baleia ou planeta ao sol é usar termos inadequados: é erro de português, como de ciências. Uma frase mal construída também revela um raciocínio mal feito e tem de ser corrigido – e quantas vezes os problemas de a matemática e de português emparelham porque têm uma causa comum…
Este é um aspecto muito importante: no uso diário e oral que fazemos da língua, porque a utilizamos como instrumento, tendemos a reduzir muito o leque de possibilidades de expressão de que dispomos: usamos um vocabulário menos rico, construções sintácticas elementares, somos levados a esquecer certas modalizações que os tempos e formas verbais podem traduzir.
Ora é sabido que quando não usamos, nem vemos usar, esquecemos os “pormenores” de uma língua… Ora o texto literário consegue condensar a riqueza da língua. Eugenio Coseriu resume muitas observações que se podem fazer dizendo que a língua literária é o lugar da plenitude funcional da linguagem, aquele em que a criatividade se expande.
O bom escritor, aquele que nos faz pensar leva-nos intuitivamente a aprender a língua – mas para isso, é preciso ler, e ler muito. Ao professor, caberá introduzir o aluno no mundo da literatura, fazê-lo sentir a beleza e eficácia de um poema, ou de um texto em prosa, canónico, e ao mesmo tempo, fazê-lo sentir as interrogações que esse texto levanta.
Ou seja, não se pode pensar na língua sem a associar à emoção é à cultura, no seu sentido mais amplo, naquele que permite a verdadeira interrogação sobre si próprio e sobre o mundo, que está na base da integração e da globalização.

E quais são as maiores dificuldades que sente por parte dos alunos?
Como a sociedade em geral, os alunos tendem a ver a língua materna como instrumento que se ganha de forma espontânea: fala-se português porque é a língua que ouvimos falar à nossa volta desde que nascemos, e, portanto, se nos entendemos, é sinal positivo. Ligamos-lhe afectividade, o que é bom, diga -se, e abre caminho para a fruição da língua. Mas que às vezes nos impede a racionalização e um trabalho continuado de aperfeiçoamento.
Com uma crescente valorização do imediato e espontâneo, a sociedade desvaloriza o esforço exigido pelo rigor e aceita que a comunicação se ancore na expressividade confundida com o improviso da oralidade – uma expressividade que muitas vezes é conseguida apenas por factores exteriores ao próprio discurso, ao que se diz e à informação que se transmite.
A reacção é imediata: o aluno desvaloriza a sua própria língua e o seu domínio – torno a dizer, não é um problema que nasça directamente na escola, mas é um facto que nela se revela. Bastará pensar como, na vida adulta num órgão de comunicação, se preenche o tempo à volta de uma notícia, como se explicam as entrevistas, como se alarga o comentário a um acontecimento que se espera “em directo”, seja ele desportivo ou político… E sobre o vazio, não há discurso nem retórica que resistam.
A escola tem de combater o empobrecimento do conhecimento da língua, que é real. Em termos vocabulares, mas também sintácticos. E por vezes, o combate é tão mais árduo quanto menos sentida é a sua necessidade. Herdámos do latim uma riqueza de matizes de significação gramatical que nas últimas décadas tem vindo a ser desbaratada velozmente. Por outro lado, é a riqueza de vocabulário que nos permite ver o mundo a cores: um aluno que resuma sentimentos de decepção, dor, desânimo, raiva, saudade, desilusão, etc,.. numa lacónica e plurivalente “tristeza” não conseguirá compreender o mundo e as pessoas que o rodeiam, nem conseguirá analisar as suas próprias emoções. Pensa-se às vezes o uso da inteligência artificial como adversário do domínio pessoal da língua – mas o certo é que a própria formulação do pretendido exige ao seu utilizador um vocabulário rico e preciso.

Quer comentar a importância da diversidade linguística dentro da comunidade dos países de língua portuguesa?
À partida, demonstra a vitalidade da língua: é uma língua que se adapta às necessidades dos falantes, que introduz as variantes solicitadas pelo desenvolvimento e por novas circunstâncias, tanto na oralidade como na escrita.
Nesse aspecto, talvez Portugal sofra um certo complexo que o leva muitas vezes a pensar-se como o país que originou a expansão da sua língua, mas se vê numericamente ultrapassado pelos outros países que a falam: o convencionalmente chamado “acordo ortográfico de 1990” mostra-o pelo seu desenvolvimento, pelo desfecho da iniciativa, que não conseguiu a unificação da ortografia do Português – com a infelicidade prática de cortar traços de ligação da língua às suas raízes europeias e às outras línguas novilatinas, ou seja, línguas que tiveram a sua origem no latim e que, como a nossa, se desenvolveram a partir dele.

Este ano, celebramos o quingentésimo aniversário do nascimento de Camões. Pode falar um pouco sobre a projecção internacional da sua obra?
Só um significado cultural fortíssimo explica que celebremos um poeta que nasceu há meio milénio, e que há dois anos se tenham celebrado 450 anos sobre a primeira edição de ‘Os Lusíadas’ com iniciativas muito significativas, envolvendo comunidades diversificadas e em pontos do mundo muito distantes.
N’ ‘Os Lusíadas’, Camões apresenta a História pátria, valorizando-a e interpretando-a em moldes que nos permitem a identificação comunitária, e ao mesmo tempo coloca interrogações que ainda hoje persistem graças à sua pertinência e à elevação do seu lirismo – sobre a própria história, sobre o homem e a sua posição no mundo. O significado e a beleza, tanto históricos como humanos, d ‘Os Lusíadas’ – e também da ‘Lírica’ – ultrapassam em muito o âmbito nacional.
A projecção internacional do poeta, da sua poesia lírica e de ‘Os Lusíadas’ tem aspectos muito palpáveis: o número de traduções e de estudos que lhe são dedicados as obras de arte que neles se inspiram (penso em particular nas belas artes e na literatura). Concluiremos rapidamente que é uma projecção imensa, se pensarmos que as primeiras traduções da epopeia datam de 1580 (o ano da morte do poeta), que ao longo dos séculos seguintes se traduziram os seus versos em praticamente todas as línguas europeias, e que hoje em dia vemos surgir novo surto de traduções da obra em línguas que já possuíam esse texto e em muitas outras que, por questões culturais, nele procuram traços identitários ou simplesmente humanos.
Por outro lado, também a nível académico Camões é um autor que continua a suscitar a reflexão e o estudo, em Portugal como no exterior. Lembro a propósito que os estudos camonianos atingem um nível muito elevado no Brasil e em muitas universidades europeias e norte-americanas. E continua a ser o poeta com quem os portugueses convivem popularmente.

Na sua perspectiva, qual é o futuro do estudo da literatura portuguesa nas escolas? Como podemos assegurar que os clássicos permaneçam relevantes para as novas gerações?
Julgo que será o futuro da própria comunidade e da sua cultura. As novas gerações saberão, se nós assim soubermos, valorizar a literatura e os autores clássicos, isso é, aqueles autores que consideramos modelares em todos os sentidos: criatividade e perfeição linguística, mundividência, capacidade de inquietar o leitor e despertar reacções. Que “quem não conhece arte não na estima”, já o disse Camões: e se a geração actual não valorizar os seus bons escritores, mais antigos ou mais modernos, certamente não conseguirá transmitir uma parte insubstituível da herança que recebeu.
A escola pode, e deve, ensinar a apreciar a literatura; a educação literária é um sector importante do ensino que não se esgota num programa lectivo, e que terá repercussões na vida do aluno. Aliás, a verdade é que se, na escola, os textos aparentemente se estudam como fim em si, o objectivo último do estudo da literatura, portuguesa ou não, será a formação de leitores independentes, leitores sensíveis ao valor dos livros, capazes de neles captar informação e prazer, ou seja, leitores que integrem a leitura e a literatura na sua vida.
Não resisto a lembrar uma observação de Todorov, estudioso e crítico literário que, em idade já avançada e firmado na sua experiência, comentava que um curso superior de literatura não faz do aluno um escritor: torna-o, isso sim, um bom observador do comportamento humano. Afinal, a condição humana é a matéria de que os livros, em prosa ou em verso, tratam e é ela que se dedicam os escritores. Por consequência, advogou que qualquer curso, independentemente da sua área, que possa conduzir a uma posição, emprego ou actividade em que haja relacionamento humano, deva ter uma componente muito forte em literatura. Há que aproveitar a lição que os escritores clássicos podem continuar a proporcionar!

Daniela Canha

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