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Face ao incêndio no HDES “o Hospital da CUF deve ser tomado imediatamente pelo Serviço Regional de Saúde”

Afirmação do médico Guilherme Figueiredo, Ex-Director do Serviço de Reumatologia do Hospital do Divino e Director Executivo da Cal-Clínica

Correio dos Açores – Que mensagem pretende deixar nessa altura?
Guilherme Figueiredo (ex-Director do Serviço de Reumatologia do HDES e Director Executivo da CAL-Clínica do Aparelho Locomotor) – A mensagem é a de que precisamos de estar unidos para tomar decisões. São decisões que não dizem respeito só ao momento actual, importantíssimas, claro, mas são decisões, também de futuro. São tão importantes, no momento actual, porque, obviamente, temos que suprir as enormes, as dramáticas carências em que ficamos colocados com esta crise mas, por outro lado, aproveitar esta situação para projectar o futuro com racionalidade. Não estamos a dizer nada de novo, o Presidente do Governo disse, a Ministra disse, projectar o Sistema Regional de Saúde para uma outra fase, para uma fase de desenvolvimento e de consolidação da sua importância para as populações e para os Açores em geral. São decisões que envolvem toda a sociedade açoriana e não só do Governo desta conjuntura.

Isto passa pela beneficiação do HDES e por projectar um novo hospital?
Sim, mas antes disso e no imediato, a minha sugestão, de enorme responsabilidade – que eu já fiz e não vou dizer a quem – é o Serviço Regional de Saúde tomar conta do hospital da CUF. Deveria tê-lo feito no momento da intenção de alienação do HIA à CUF. Foi uma oportunidade flagrantemente perdida.
Mas não é só isso que está em causa e o que nos deve importar agora. O que nos importa, neste momento, é a situação absolutamente critica do Sistema Regional de Saúde e da capacidade hospitalar fundamental e imprescindível às populações da ilha de São Miguel e à Região Autónoma. Aquela unidade (CUF) é fundamental e critica neste período de transição, de reabilitação da velha estrutura. Na minha opinião, sem qualquer tipo de rodeios, o hospital da CUF deveria ser imediatamente tomado pelo Serviço Regional de Saúde, evidentemente com lugar à equilibrada negociação com os proprietários actuais. Pedir-lhes-ia que se afastassem, para que aquela unidade fosse tomada completa e plenamente pelo Serviço Regional de Saúde.
Aquela unidade terá capacidade para 100/120 camas de internamento, com alguns apertos, mas em situações de crise admite-se essa circunstância. Por outro lado, o HDES tem toda a sua força de trabalho sublocada e dispersa por alguns centros de saúde com todo o prejuízo que isso acarreta. Está tudo disperso e, como consequência, pode haver o risco de subaproveitamento dessa capacidade de trabalho. Não há actividade de Consulta Externa (Consultas de Especialidade), nem de exames de rotina. Estamos, nesta fase, com um bloqueio de actividade semelhante ao da pandemia Covid-19 e que só vai agravar os problemas com que já nos confrontávamos.
Ora se o hospital CUF fosse tomado em pleno direito de exercício do Serviço Regional de Saúde, toda ou grande parte da força de trabalho do HDES poderia, (aquela que não seria necessário estar nos centros de saúde em garantia das diligências imprescindíveis que lá decorrem) estar residente no hospital da CUF, a funcionar com a regularidade e confiança necessárias à continuidade das actividades rotineiras do HDES.
Isso garantia um muito melhor funcionamento de toda a componente de gestão de doentes agudos, que não só, propriamente, de serviço de urgência externa. Genericamente, das situações clínicas que levam as pessoas ao hospital e a ficarem internadas. A carecerem de tratamentos médicos e/ou cirúrgicos.
Da hemodiálise, já sabemos que tem de ser efectuada fora da ilha até que o HDES se restabeleça neste sector. Digamos que esta unidade hospitalar da CUF se poderia constituir a base e a âncora possível de toda a capacidade hospitalar do SRS da ilha.
Ressalvo esta minha opinião admitindo o cenário que os nossos responsáveis afirmam, que a reabilitação do HDES vai demorar meses. Quantos? É admissível ficar a gerir doentes graves nas circunstâncias actuais?

Há forma de fazer o que está a defender, ou seja, a Região ‘tomar’ o hospital da CUF?
Eu acho que há. Quer dizer, teria sido mais fácil no momento em que os anteriores proprietários manifestaram a intenção de vender, que o SRS tivesse comprado, mesmo não tendo conhecimento exacto dos contornos do negócio. Como é sabido a construção daquela unidade beneficiou de 15 milhões de apoios públicos e na transição para a CUF não houve lugar à sua devolução. Portanto, teria sido uma compra de grande oportunidade e conveniência para o SRS.

É um defensor da construção de um novo hospital junto ao HDES…
Eu sou defensor desse objectivo, agora não sei se do ponto de vista de espaço, engenharia e de arquitectura isso é possível nos terrenos adjacentes ao HDES. Não sei que implicações é que um novo projecto implicaria nestes termos.
Os momentos que estamos a viver põem a nu, absolutamente, a necessidade de uma alternativa. A chamada redundância de meios. Estamos na maior ilha do arquipélago, estamos a mil e 400 quilómetros a Oeste do continente português. A Madeira, como podemos ver agora, demonstra-nos o que é ter capacidade de redundância. Tem três hospitais e vai construir um novo hospital de 500 camas, orçamentado em 500 milhões de euros com comparticipação importante da União Europeia e do Governo da República. Os madeirenses demonstraram capacidade para avançar com uma obra destas. Não seria necessário irmos para uma tão grande magnitude de investimento.
Creio que com uma unidade mais pequena – embora a ideia careça, naturalmente, de substância técnica, de avaliação rigorosa – uma unidade que fosse desenhada, do ponto de vista arquitectónico e de apetrechamento tecnológico com capacidade de, por um lado garantir complementaridade, libertando o actual HDES para outras formas de atendimento e internamento de doentes, nomeadamente dos necessitados de cuidados continuados e de cuidados paliativos, por outro, com autonomia funcional suficiente exactamente para fazer face a situações de resposta emergente de todo o arquipélago.
Uma unidade que fosse também um importante pólo de desenvolvimento das Ciências da Saúde na Região Autónoma dos Açores.
Um hospital universitário que aglutinasse as entidades que ministram o ensino das diferentes licenciaturas da Saúde, que se constituísse como o núcleo de desenvolvimento de trabalhos e projectos de investigação científica em Saúde (tão carenciada na nossa Região), em estreita cooperação com investigadores de várias áreas da Universidade dos Açores, com as Unidades dos Cuidados Primários de Saúde, dos Serviços Hospitalares e das Empresas, garantindo e angariando financiamentos e receitas para essa actividade. É fundamental investigar em torno de problemas sérios de saúde que afligem ao nossas populações, desde a obesidade do adulto e da criança, de altíssima prevalência da diabetes e da doença cardiovascular e cérebro-vascular, de altíssima prevalência de doenças psiquiátricas, de certos cancros (pulmão, por exemplo). Acha que não temos motivos para estudar na Região problemas de saúde? Temos muitíssimas razões e necessidade de fazer esses estudos. Esses estudos têm forçosamente de contar com recursos humanos e tecnológicos. E isso só é possível com uma nova unidade, com novas e atraentes condições de trabalho, que ao mesmo tempo cative múltiplas áreas do saber e seja estimulante para a fixação de uma plêiade de técnicos e suas famílias.
É o futuro sim de que falamos, quando estamos tão pressionados a pensar o presente. Parece contraditório ou despropositado estarmos a dar voz a estas ideias no actual momento. No que nos diz respeito, já o fizemos, escrevemos, há quatro anos, tempo de plena pandemia Covid-19, tempos de enorme incertezas mas onde toda a gente fazia apelo à resiliência e à projecção do futuro para novas vias de coesão, recuperação e desenvolvimento. Lembram-se da “bazuca” do PRR? Conformamo-nos na Saúde apenas com a digitilização do Processo Único do Utente e a aquisição avulsa de mais uns tantos equipamentos de diagnóstico e terapêutica…

Quatro anos passaram e agora temos esta calamidade. Onde estamos nós?
“Temos a saúde no vermelho”, disse alguém muito recentemente. Eu diria que estamos no escarlate, a cor do fogo.

João Paz/Frederico Figueiredo
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