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O meu filho não quer comer nada: e agora?

Se tem em casa uma criança que fez 1 ano há pouco tempo, é muito provável que tenha começado a reparar que o momento da refeição já não é tão tranquilo porque a criança demonstra menos apetite e interesse na comida. Se, por outro lado, tem uma criança entre os 18 e os 24 meses, quase aposto que já a apanhou a separar elementos que não gosta do prato ou a escolher comer primeiro ou apenas aquilo que gosta mais.
E se está a ler este artigo e a pensar “o meu filho já fez 2 anos e sempre comeu muito bem”, saiba que está no grupo dos sortudos, porque essa não é a realidade da maioria das famílias.

Porque começam a rejeitar alimentos?
Porque é que isto acontece? Devido à cada vez mais famosa “anorexia fisiológica”. Não se preocupem, não é nada de preocupante, como o nome indica é até bastante natural. No fundo, é uma perda de apetite e interesse pelos alimentos que resulta da diminuição da velocidade de crescimento da criança. Se no primeiro ano um bebé cresce cerca de 25cm e ganha em média 7kg, no segundo ano de vida estes valores diminuem para cerca de metade no caso do comprimento e para um terço no que diz respeito ao peso. Ou seja, é normal que o seu apetite também reduza para metade ou um terço.

O que fazer quando isto acontece?
Obrigar a comer o prato até ao fim? Ameaçar castigos se não comerem a sopa toda? Prometer recompensas se comer os legumes? Colocar um ecrã à frente para oferecer a comida enquanto a criança está distraída e assim garantir que come tudo? Nada disso. Estas estratégias são muito comuns, e até podem resultar a curto prazo, mas só estão a criar um problema maior a longo prazo e cada vez mais difícil de resolver.
Na maioria dos casos, as crianças rejeitam os alimentos que desconhecem: é a chamada “neofobia alimentar”, ou por outras palavras, rejeição de alimentos novos. E sim, muitas vezes isto pode acontecer com alimentos que até já comeram antes, mas talvez já tenha passado tanto tempo que a criança não se recorda, e é como se fosse a primeira vez.
Noutros casos pensamos “mas já lhe dei tantas vezes este legume na sopa e sempre comeu tão bem, porque é que no prato não aceita?”. Exatamente porque nunca teve oportunidade de explorar o alimento na totalidade e provavelmente não está familiarizado com a sua forma, cor, textura, cheiro… Conhece apenas o seu sabor, mas à primeira vista é algo novo, e enquanto não levar à boca não vai saber que já o comeu imensas vezes em puré.
Por tudo isto, o meu conselho é: Se têm uma criança que começou a rejeitar um alimento ou grupo de alimentos em específico, tentem primeiro melhorar a relação com esses alimentos, fora do momento da refeição, através de momentos lúdicos e divertidos.

“Não se brinca com a comida”

  • Ai brinca, brinca!
    Coloquem esse alimento, uma taça com água e uma taça vazia numa mesa, à sua frente e peçam para “lavar” o alimento, passando pela taça com água e colocando na taça vazia. Peçam para ajudar a partir com as mãos em pedaços mais pequenos ou com utensílios de cozinha seguros para crianças, ou para esmagar com um garfo. Incentivem a cheirar o alimento, fazendo um “jogo de adivinha” com os olhos vendados. Levem a criança a uma horta ou mercado local para perceber qual a origem desse alimento e como funciona todo o processo desde que é plantado até aparecer no seu prato. Imprimam desenhos desse alimento com uma carinha sorridente para colorir. Leiam livros que destaquem os superpoderes ou poderes mágicos que esse alimento dá às crianças (ex.: super visão noturna, força invencível, energia inesgotável). Brinquem aos restaurantes ou aos agricultores…

Nada de surpresas: vamos envolvê-los
nas decisões.
Além de aumentar a familiaridade da criança com o alimento através de brincadeiras, outra estratégia que ajuda bastante a diminuir birras à hora da refeição é aumentar a previsibilidade.
Como? Ao fim-de-semana podem instaurar uma reunião familiar onde, depois de analisar o que têm na dispensa, no congelador e no frigorífico, decidem que receitas vão querer fazer na semana seguinte e que ingredientes faltam comprar para as poder fazer. À medida que vão fazendo a lista das compras, vão dando algum poder de escolha à criança, dentro de duas opções equivalentes: “Preferes acompanhar a carne com massa ou arroz?”, “Vamos comer o peixe com cenoura ou abóbora?”, “A sopa vai levar brócolos ou couve-flor?”.

Vamos meter a mão na massa!
Depois, incentivem a criança a participar no momento de preparação e confeção dos alimentos (de preferência com um avental de chef para estar vestida a rigor!). A criança pode ajudar por exemplo a descascar a cebola com as mãos, a lavar as batatas, a partir os brócolos com as mãos, a colocar a curgete já partida na panela, a espalhar a cenoura em rodelas num tabuleiro, a pincelar o peixe com azeite e temperar com ervas aromáticas para assar no forno, a lavar a fruta… Durante este processo a criança fica a saber que ingredientes foram usados e que alimentos lhe vão aparecer depois no prato e já não irá ser uma surpresa, o que diminui por si só a probabilidade de birra.
Deixem-na ir brincar, se quiser, enquanto a comida está a ser cozinhada e depois avisem-na com 15 minutos de antecedência de que vão precisar da sua ajuda para empratar e servir os pratos no restaurante em que a vossa casa se transformou. Desafiem a empratar de forma diferente para cada membro da família, fazendo formas ou desenhos no prato (ex.: coração, sol, carinha sorridente). Enquanto faz isso, a criança vai tendo oportunidade de explorar o produto final, o seu cheiro, cor, e eventualmente o seu sabor (a maioria das crianças tem mais curiosidade em provar algo quando não se sente observada ou pressionada a comer).

No momento da refeição…
Durante o momento da refeição sentem-se de frente para a criança (no lado oposto da mesa), comam exatamente aquilo que querem que a criança também coma (não podem esperar que coma a sopa ou os legumes se não estiverem todos a comê-los), elogiem o seu sabor para despertar interesse e curiosidade na criança e deixem que ela se auto alimente sozinha, sem darem ordens diretas para provar ou comer (especialmente na fase do “não”).
Vocês já deram oportunidade para brincar com os alimentos em cru, explorá-los depois de cozinhados, deram o exemplo comendo à sua frente e despertaram a curiosidade ao elogiar de forma entusiasta o seu sabor. Agora é a vez da criança fazer a sua parte e decidir, ou não, provar. Alem disso, a criança é que deve decidir quanto quer comer de cada alimento, respeitando os seus sinais de fome e saciedade e parando de comer quando se sentir cheia (e não quando o prato fica limpo).

E lembrem-se de duas coisas importantes:

  • Até a criança aceitar um alimento em específico, temos um caminho longo pela frente. Primeiro temos que incentivá-la a mexer nele em cru com as mãos, depois a cheirar, depois, quando se sentir confortável, ela irá decidir provar, e só por fim irá aceitar comê-lo.
  • Para que a criança aceite um determinado alimento, podem ser precisas mais de 15 exposições a esse alimento. Cada vez que aparecer no prato, mesmo que não o prove, conta. Cada vez que brinca com o alimento, mexe nele, ajuda a lavar, mesmo que não o prove, também conta.

Conselho final
Por isso, o meu conselho para cuidadores com uma criança que começa a ser seletiva com os alimentos em casa é: muita paciência, persistência, diversão e espírito positivo. Deixar de oferecer porque rejeitou é meio caminho andado para continuar a rejeitar. Forçar ou pressionar a comer um alimento que está a rejeitar, só irá aumentar essa resistência. Discutir à mesa ou meter de castigo por não ter comido um certo alimento, só irá piorar a relação com esse alimento ou com o momento da refeição em si e torná-lo cada vez mais complicado. Permitir que coma apenas distraído com um ecrã vai fazer com que passe a desconhecer os alimentos e aumentar a probabilidade de os rejeitar quando são apresentados sem o ecrã.

Atenção!
Se a criança começar a rejeitar um grande número de alimentos, se consegue contar pelos dedos das mãos aqueles que aceita, se rejeita por completo um grupo de alimentos (ex.: vegetais, fruta, proteína animal) ou se só aceita alimentos com uma textura específica (ex.: crocante), marque uma consulta de nutrição o quanto antes para conseguirmos reverter essa situação e garantir que a criança está a comer todos os nutrientes de que precisa para crescer.
Ficou com dúvidas? Precisa de ajuda? Mande-me um email (crescercomsabor@gmail.com) ou uma mensagem através das redes sociais (@crescercomsabor), ou marque uma consulta de nutrição comigo na Crescer com Sabor (Rua Padre José Joaquim Rebelo, 4C 9500-782).

Lia Correia (Nutricionista)

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