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“A Autonomia faz milagres” nos Açores e a subsídio dependência “controla massas,” afirma Pedro Ponte consultor histórico da novela ‘Senhora do Mar’

Depois de ser vítima por ter, na sua opinião, o cartão de militante errado (o do PSD/A), Pedro Ponte decidiu mudar-se para Lisboa em busca de oportunidades de trabalho. Especializou-se em Ensino e ao dia de hoje é, também, consultor histórico e etnográfica da novela ‘Senhora do Mar’. Ao Correio dos Açores, diz que conhece as críticas que são feitas à novela, conta a sua história e fala de quais os problemas que acha que existem nos Açores. Critica as oligarquias e a supremacia do cartão partidário sobre o currículo.

Correio dos Açores – Como tem sido o seu percurso até ao dia de hoje?
Pedro Ponte – Nasci nos Arrifes há quase 28 anos. Estudei no Liceu Antero de Quental antes de ingressar na Universidade dos Açores, onde completei a licenciatura em Estudos Europeuse Política Internacional. Enquanto estudava na UAc, fui Presidente do núcleo de estudantes durante um ano e meio.
De seguida, fiz um estágio no Consulado Americano e estive uma temporada nos Estados Unidos da América, a fazer investigação com uma bolsa.
Em Outubro de 2020 fui para Lisboa, primeiramente para fazer investigação para o mestrado e depois dei aulas de História de Emigração, que é a minha paixão.
Acabei por ficar em Lisboa porque sofria muito com duas questões aqui na ilha. Não era só a falta de emprego, era a falta do cartão de militante certo. Sofri muito com isso. Curiosamente, fui para Lisboa no mês em que as coisas mudaram. Havia concursos públicos para bolsas ou para vagas onde as pessoas não escondiam, às vezes, que o critério era esse. Também havia provas que não eram tão transparentes como deveriam de ser. Sou social-democrata mas nunca tive palas partidárias. Especializei-me na docência de História e actualmente sou professor de História.
Há sensivelmente um ano, abriu um concurso da SP Televisão, uma produtora nacional, porque precisavam de alguém para a equipa de consultoria histórica. A SP produz conteúdos para a RTP e para a SIC, normalmente são as séries da RTP e as novelas da SIC. Concorri sem saber que era um projecto que tinha a ver com os Açores. Fui seleccionado e em Setembro começamos a trabalhar, uma vez que a SIC quis avançar mais cedo do que o que estava projectado.
Queriam fazer um projecto que fosse nos Açores, mas que não fosse em São Miguel uma vez que já tinham feito um projecto aqui, e então acabaram por escolher a Terceira. O interessante é que acabei, sem saber, por ficar associado a um programa da minha terra.
Actualmente, estou à espera de defender a minha tese de mestrado, que já foi entregue.

O que faz um consultor histórico?
Numa fase preliminar, o trabalho consistia mais na recolha de dados históricos, etnográficos e culturais das ilhas lato sensu. Isto porque apesar de a novela se desenrolar na ilha Terceira, há aspectos que são mais açorianos e às vezes a critica subjaz mais para isso.
Fiz trabalho de campo, sobretudo com os autores, o João Matos e a Raquel Palermo, casal que já tem muita experiência em guionismo. Eles vieram cá, estiveram uma temporada em São Miguel de férias, foram à Terceira no Verão para conhecer a realidade da ilha na altura mais movimentada.
Numa fase posterior, quando começou a haver a escolha do elenco, sugeri que era inevitável convidar o Zeca Medeiros, referência nacional que aceitou o convite.
Aí o trabalho já começou a ser diferente. Para além de continuar a fazer consultoria histórica, tenho ensaios com alguns actores, porque nem todos têm personagens com raízes açorianas e neste caso não precisam. Há todo um trabalho de pré-produção, onde os actores têm de aprender mais sobre a personagem, incorpora-la, conhece-la melhor e conhecer a realidade que é muito diferente do continente. É diferente de ilha para ilha e, portanto, ainda é mais da Terceira para o continente.
Tive, e tenho, o privilégio de trabalhar com actores que admiro desde criança. O Zeca Medeiros não precisa de consultoria nenhuma (risos). A personagem dele é de um ex-baleeiro e, portanto, ele conhece bem esta realidade. Trabalhar com a Rita Blanco, Virgílio Castelo e João Reis, que são uma família na novela que tem outras posses e outro estatuto social. Foi toda uma escolha minuciosa, até nos nomes como os Cordeiro ou os Bettencourt ou as referências à imigração.
Ainda no outro dia foi referido, pelo personagem do João Reis, actor que idolatro desde a infância, o sismo de 1980, ocorrido na Terceira. Também há muitas referências há Base das Lajes, à saída dos americanos e à imigração.
Tem sido muito isto. Primeiro, a parte da pesquisa para quem não conhece a realidade. Depois, adaptar os guiões, na parte escrita do texto propriamente dito e os actores precisam de uma certa orientação para encarnar as personagens.
Tivemos várias fases de gravações e em Novembro aconteceu a apresentação da novela na Terceira. Fez-se uma cartografia da ilha para saber o que era mais simbólico de filmar, os exteriores uma vez que é uma novela com muitos exteriores. Normalmente, a cada mês e meio vêm cá gravar. E Junho, senão estou em erro, irão gravar nos Açores durante duas semanas.
Existem muitas referências à baleação, ao whale watching e às outras ilhas. É um trabalho interessante. Tenho feito este trabalho de campo, e até digo a brincar que vou mais à Terceira do que venha à minha ilha. Vamos entrar agora numa fase em que se vai incluir a ilha de São Jorge, mas não posso adiantar muito.
São mais de 40 actores, o que faz com que seja um trabalho cansativo. Foi uma coincidência completamente feliz, porque pensava que era para alguma série da RTP.
Já tinha feito consultoria antes e tenho tido a sorte de ter projectos relacionados com os Açores. Em 2020, fiz consultoria para a série ‘As Três Mulheres’, onde uma das mulheres era a Natália Correia. Acabei por fazer consultoria para outra personagem. Agora, recentemente, saiu o filme do Rui Pedro Sousa chamado ‘Revolução sem Sangue’, onde foi relembrado que a revolução de Abril não foi propriamente sem sangue. Morreram cinco pessoas, quatro jovens inocentes e um funcionário que não era propriamente da PIDE, sendo que um deles era açoriano, de Santo António, chamado João Guilherme Arruda. Aqui fiz uma investigação mais parcial, mais distante, mas acabou por haver a oportunidade para saber mais sobre ele. A última cena do filme, já é um filme dentro do filme, porque os familiares, que estão vivos, de todas as pessoas que foram assassinadas, foram a Lisboa assistir ao próprio filme. Foi bom reencontrar irmãos, sobrinhos e todos os familiares vivos do João Guilherme Arruda, que não olham para o 25 de Abril com os mesmos olhos que a maioria das pessoas.

Como classificaria a sua experiência em televisão?
Tem sido inolvidável. Primeiro, porque tenho o bichinho do argumento desde criança. Nunca o pus em prática porque os cursos são muito caros. Tinha várias paixões e acabei por me formar em áreas que gosto, mas nunca houve esta oportunidade.
Tenho sido muito feliz porque tenho conseguido congregar tudo o que estudei com o que tenho feito e não sei se, por alguma razão, tenho tido sempre projectos com ligação à minha terra. Vivo em Lisboa mas o coração está sempre aqui. Agora mais do que o coração também está a parte profissional.

Os actores, em especial os mais consagrados, aceitam bem as indicações que dá?
Sim, e até posso dar exemplos. A Rita Blanco é uma actriz muito autónoma. Ela adora os Açores e, inclusive, já tinha gravado cá. Mas, normalmente, todos têm o cuidado de ter a certeza que não estão a cometer algum tipo de gralha que pode ser perspectivada pelo público dos Açores. Sei que há algumas críticas, e já mas fizeram saber, e eu aceito-as naturalmente, como por exemplo a participação de romeiros no primeiro episódio. Além de ser Açores lato sensu, que é a expressão que eu uso, a verdade é que há movimentos de romeiros na ilha Terceira. Ainda muito precoces e muito mais pequenos, quer no número de população quer na historicidade comparando com São Miguel, mas tem.
É importante que as pessoas percebem que não é um documentário. Se o gancho narrativo, ou ficcional, não estiver lá, não prende as pessoas. Acaba por ser uma novela muito rica noutro aspecto: não é uma ficção açoriana idealizada. Os problemas sociais destas ilhas estão todos lá: tráfico de droga; abandono escolar muito precoce; em breve, questões ligadas à pedofilia, que aqui, infelizmente, tem as taxas mais altas do país; a subsídio-dependência; uma certa imigração que, infelizmente, não é sanada por razões mais infelizes. Estes problemas estão presentes, podem não ser tão óbvios, mas notam-se. Há núcleos onde se vê exactamente isso.

Tendo em conta a falta de professores, ambiciona leccionar na Região?
Acho que, a longo prazo, hei-de voltar. E se não for por uma razão, há-de ser por outra. Estabilizei-me há pouco tempo em Lisboa a todos os níveis, como costumo dizer.
A falta de professores cá tem sido mais bem gerida do que no continente. A autonomia faz milagres, como digo sempre. A actual Secretária Regional e o anterior Governo, que entretanto se repôs, e que ganhou novamente, teve a ajuda do protocolo que têm com a Universidade dos Açores.
Mas sim, acabarei por voltar para os Açores, mas não será para breve. Até porque as razões que me levaram a sair, não sei se melhoraram substancialmente.

“Os Açores ainda
funcionam com compadrio”

Como é que se pode combater esta situação de ainda se olhar para certos cartões que as pessoas têm?
Os Açores têm uma realidade que ainda funciona com compadrio. Sou dos Arrifes, vivo a 10 minutos de carro de Ponta Delgada, não vivo na outra ponta da ilha e noto um fosso. Sem querer entrar em discursos elitistas, até porque não sou nada disso e sou de origem muito humilde, nota-se um fosso intelectual e cultural enormíssimo. E estamos a falar de uma freguesia, ou de outras freguesias, que são consideradas dormitórios de Ponta Delgada.
Ponta Delgada é uma cidade mais desenvolvida mas profundamente elitista. As classes sociais ainda estão muito vincadas. Como se combate isto? O acesso democrático ao ensino, e temos uma universidade que, infelizmente, já conheceu melhores dias, tem permitido o elevador social e tudo mais. Mas em meios pequenos é um defeito, seja aqui ou em outro lugar. Há sempre um compadrio, o critério da cunha, não há outra expressão. Vai sempre pesar muito mais quem se conhece, onde se conhece e onde se circula do que propriamente um currículo.
Por experiência pessoal, cá era Cordeiro, como sou, e ficava logo associado a ser, e sou ainda que vagamente, familiar do ex-presidente do Governo dos Açores, mas não temos filiação partidária semelhante e muita gente estranhava isso. A quantidade de pessoas que diziam que eu não sabia fazer uso do meu apelido era exageradamente má. Em Lisboa, que é um meio muito maior e que não tem comparação, eu sou o Pedro Ponte e tenho o currículo na mão.
Claro que há lóbis e cunhas em todo o santíssimo lugar. Mas os Açores ainda estão muito centralizados em São Miguel. Só quem vai às restantes ilhas do arquipélago é que tem noção. Eu dou graças a Deus por ter nascido nesta ilha.
Vive-se em oligarquias absolutas. Grupos económicos e os círculos partidários de que eu faço parte. Sou absolutamente devoto da minha segunda casa, que é o PSD-Açores, mas sem dúvida que isso é critério para tudo e mais alguma coisa. Combater isso não é só através da educação. Temos de desburocratizar, por exemplo, o sistema eleitoral, que é uma coisa que eu nunca vou perceber. Nunca vou perceber porque não existem listas de independentes para a Assembleia Regional ou Assembleia da República. Porque é que as decisões são sempre partidárias. Porque é que não há voto preferencial? Aí, o cidadão iria votar em quem gosta e não propriamente em quem está na ordem da lista. Há uma reforma do sistema eleitoral que tem de ser feita com muita urgência nos Açores e não me admiram os números da abstenção. Não gosto de dizer isto, porque soa a populista. E é a subsídio-dependência. Isso vê-se muito nos Açores mas, felizmente, agora tem diminuído. E isto cava outro tipo de fosso entre quem realmente trabalha e desconta e as famílias onde já se perpetuam os subsídios ao longo de gerações e estes subsídios não são propriamente claros. Não quero ser demasiado negativista mas nota-se. E não estou a viver cá.

A subsídio-dependência
“angaria muitos votos”

Como poderiam os Açores melhorar em relação a estes problemas?
Sem querer entrar em questões partidárias, a subsídio-dependência, nos últimos 20 e tal anos, foi, aquilo que na minha área de formação se chama técnica de controlo de massas. Acho que há custa da subsídio-dependência se angariava muitos votos. E isso não tem cor partidária porque tanto acontece no poder regional como no poder autárquico. Não quero ser injusto mas é, absolutamente, transversal.
Como poderíamos resolver isso? Para além da fiscalização que se faz, ou que se deveria de fazer, devia-se diminuir a carga fiscal das empresas privadas.
Sabemos que boa parte da população, na Região, vive da função pública e isto é valido para quem trabalha na função pública ou numa empresa como a SATA, por exemplo.
A partir do momento em que os privados são asfixiados e não têm forma de se modernizar, ou de contratar ou de ter capital financeiro e não só, a dependência vai continuar. Senão for através da subsídio dependência é através do emprego público. Enquanto a iniciativa privada for privada de tudo aquilo que não a permite deixar de ser só aquilo que é, não creio que a economia se aguente muito.
Além disso, a subsídio dependência nos Açores também vem muito do que vem da União Europeia. Somos uma região ultraperiférica. Felizmente que a União Europeia tem o seu estatuto, senão esta Região ainda estava pior do que está. Grandes, enormes, passos se deram em 40 e tal anos de Autonomia, mas há muito por fazer, especialmente em termos de mentalidades. Tive alunos, em São Miguel, que queriam o rendimento mínimo porque o pai e a mãe já recebiam. E esta foi uma ideia partilhada por outros colegas que também ouviram nas suas aulas. Há aqui uma passagem de gerações.

Tem alguma mensagem que queira deixar neste que foi o Dia da Europa?
A Europa é uma realidade muito lá longe geograficamente mas não é assim no dia-a-dia. Quando digo que 70 a 80% do que fazemos, ou das leis que nós cumprimos, são decidias em Bruxelas e Estrasburgo, não é mentira. Até o tamanho das bananas, e eu digo isso a rir, é decidido lá.
Além disso, todas as obras públicas nos Açores, ou quase todas, que se enquadrem nos princípios da União Europeia, são co-financiadas pela UE. Tenho alguma pena, e digo isto com alguma tristeza, que os Açores vejam a União Europeia como uma entidade que manda dinheiro por aí abaixo. É a fonte dos fundos comunitários.
O voto é muito importante seja em que eleição for. Para além de fazermos parte da União Europeia e sermos uma RUP, região ultraperiférica, é que nos permite ter, às vezes, condições para viver nesta terra, que não é auto-sustentável. As pessoas deviam começar a perceber que quando perdermos o poder de influência, ou os lugares que houverem na União Europeia, nós não vamos conseguir sobreviver com o Orçamento de Estado. E não é o votar nas eleições europeias por misericórdia, como costumo dizer.
Nós não somos só uma despesa para a União Europeia, temos muito valor. Ainda o outro dia disse isso na Universidade dos Açores. Desde o Brexit, da saída do Reino Unido, Portugal é o único país da União Europeia que tem fronteira atlântica e isso não é potenciado. Temos a economia azul e agora a questão aeroespacial.
Os Açores trazem muita riqueza, como qualquer região ultraperiférica, à União Europeia. É importante os cidadãos percebem que a UE não fica lá longe. E se me permite acrescentar, vai ter que se terminar com esta questão, e já o digo há alguns anos aos meus professores e a quem tem bom senso, de andarmos à mercê da boa vontade dos partidos nacionais para termos um eurodeputado ou eurodeputada num lugar elegível. A União Europeia vai ter de se tornar numa Europa das regiões e começar a ter círculos regionais mais eleitorais ou outra hipótese. Tivemos cinco anos sem ninguém na União Europeia e fez muita diferença. Felizmente houve equipas paralelas a trabalhar, mas nota-se que, se não fosse o trabalho de quem lá estava, passava despercebido e tínhamos perdido muita coisa.
Frederico Figueiredo

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