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Casos de adopção nos Açores ainda “espantam” muitas pessoas: a história da mãe Filomena que adoptou filho Pedro

A família é…
Pedro Furtado (Filho) – A família não é necessariamente as pessoas que te puseram no mundo, nem as pessoas que têm o mesmo tipo sanguíneo. São as pessoas que mais te ajudam, as que são boas para ti, as que sabes que podes contar. Considero família, por isso, também, os meus amigos, que estão sempre lá por mim. Não se resume a árvore genológica, mas sim a quem está lá por ti.
Filomena Furtado (Mãe) – A família é a união, o afecto e a compreensão entre todos. Todos juntos e não separados uns dos outros. A família tem que ser unida em qualquer ocasião, seja das doenças, seja das festas e seja da saúde.

Como descreve o sentido de família no tempo de seus pais. Qual o sentido que ela tem hoje e que espaço lhe reserva?
Filomena Furtado (Mãe) – Fui muito bem-criada, era uma família muito unida, não passei fome. Era a única rapariga entre os cinco filhos, mas éramos todos iguais.
Hoje em dia, é assim, está muito deslocado, porque cada um tem a sua vida: um dos meus irmãos vive nas Capelas e não tem carro; um outro que vive no Ramalho e que me vem visitar de vez em quando; o meu irmão mais velho já faleceu, infelizmente; e outro que vive no Canadá, mas que por acaso está agora na ilha. Já estive com ele aqui, mas ainda não esteve com o meu Pedro, por causa do horário do trabalho dele. O meu Pedro é uma pessoa que aprecia muito a família e que gosta de uma família numerosa: Se fosse apenas pelo Pedro, ele não seria o único adoptivo, queria mais. Só que quando me deu a doença de oncologia, aos 50 e tal anos, quando fiz transplante da medula óssea e fiz quimioterapia, eu só vi o Pedro pequeninho. A minha quimioterapia, como costumo a dizer, foi tratada à custa do Pedro com copinhos de leite aquecidos no micro-ondas.

Em termos gerais, as novas tecnologias, como os telemóveis de última geração, colocaram a relação familiar em segundo plano? Quer comentar?
Filomena Furtado (Mãe) – Há muita gente com esses telemóveis que coloca a família em segundo plano, porque acham que através do telemóvel que têm de falar com a família… A família tem que ser unida e não é com o telemóvel. Hoje em dia, há crianças que para comer têm que estar com o telemóvel.
No tempo em que criei o meu Pedro, havia a hora para ele comer e quando ele tinha castigo, castigava-o ao retirar o PSP e ele depois dizia “oh, mãe”. Depois, acabava por lhe devolver o dispositivo. Ele sempre foi um bom pequeno.

Que papel cabe à família na educação dos filhos?
Pedro Furtado (Filho) – A meu ver, a família tem toda e qualquer responsabilidade sobre os filhos. A índole tem que ser criado pela família. A família tem que ser o grande exemplo para a formação dos jovens, em termos intelectuais, portanto não nos podemos fiar, digamos assim, na escola, nem nas actividades extracurriculares. A formação vem de casa.
Filomena Furtado (Mãe) – É muito importante. Não pode ser somente a mãe a educar, também tem que ser o pai. Não preciso que viesse família minha para educar o meu filho. Hoje em dia vejo filhos biológicos que não para os pais como o meu Pedro é para mim – querido, carinhoso, ajuda-me e para ele, pareço ser uma boneca, porque ele me pega ao colo!

Causa preocupação na família o aumento de drogas na rua e junto às escolas. Que comentário olhe merece este problema?
Pedro Furtado (Filho) – A nível pessoal, sempre rejeitei qualquer tipo de droga. Acho que o aumento de consumo de drogas é preocupante, porque cada vez mais os jovens estão a ser aliciados e a consumir, o que traz diversas consequências. A família tem que fazer algo para não se tornar num ciclo vicioso, ou a aumentar cada vez. Acho que é um tema preocupante, mas que não está a ser tratado de forma eficaz. Acredito que deveria haver uma maior actuação perante este assunto, para cessar este assunto.
Filomena Furtado (Mãe) – Hoje em dia, só se ouve falar do problema do aumento de consumo de drogas. O pai dizia-lhe que se um dia quisesse fumar, para lhe dizer, porque preferia que fosse ele a comprar o tabaco. O meu Pedro sempre rejeitou isso, como afirmou. Há cada vez mais famílias destruídas por causa das drogas.

Os pais devem ter uma maior intervenção no ensino dos seus filhos?
Filomena Furtado (Mãe) – Nunca exigi nada do Pedro. Há muitos pais que dizem aos filhos que vão ser castigados se não passarem de ano, ou outros que dizem que têm que ter certa profissão. Sempre deixei o meu filho à vontade para fazer o que bem quisesse, tal como o pai. Depois de ele receber as notas, todo contente, mostrava as notas ao pai e o meu marido apenas dizia: “O proveito é teu, filho. Quanto mais fizeres, o proveito é teu”. O Pedro perguntava o motivo de dizer sempre isso, mas era a visão do meu marido, e tinha razão. O meu marido não está vivo, mas acredito que ele está muito orgulhoso do nosso Pedro. O meu filho nunca foi alguém que queria parar, substituiu-me no meu serviço quando tive de vir para casa tratar do meu marido. O meu Pedro continua a evoluir, quer sempre mais e quer ingressar na universidade. Tenho sempre cada vez mais orgulho dele.

Acreditam que a adopção continua a ser um tabu nos Açores?
Pedro Furtado (Filho) – Definitivamente é tabu nos Açores. Há mesmo poucas pessoas que acham que a adopção é normal. Quando digo que sou adoptado, a pessoa olha para mim com espanto, porque não é algo muito normal, até parece uma utopia. As pessoas ainda são um pouco conservadoras, infelizmente, e não se conformam muito com esse assunto, nem falam disso.
Filomena Furtado (Mãe) – Acredito que é um tabu. Quando criei uma criança que depois foi para o Canadá, sendo que sabia que não podia ser meu, pois era para um dos meus irmãos, que também não pode ter filhos, mas a adopção dele levou quatro anos. No momento em que o levamos ao Canadá, sentimos um grande desgosto. O meu marido começou a pensar que queria um filho. Ele sabia que desde o início que eu não podia engravidar, então ele disse que partiriam para a adopção.
Um dia depois do trabalho, fomos a um colégio, havia muitas crianças lá, nós pensávamos que era lá, então, uma criança abriu a porta e disse que ia chamar a Irmã. Depois veio um miúdo, do quintal, a dizer para o meu marido que seria ele a tirar-lhe de lá. Foi muito chocante para o meu marido. A Irmã disse-me para ir à Segurança Social.

Existe muita burocracia no processo de adopção? Como foi o processo de adopção?
Filomena Furtado (Mãe) – Tive muita sorte na altura. Enquanto muitos adoptados com um ano e meio ou dois anos, peguei o meu filho quase depois de nascer. Apenas não veio mais cedo, porque como nasceu de ferros, teve de ficar algum tempo no hospital para a cara ficar toda direita.
O processo durou um ano, porque estive sempre em cima delas. Dizia que não queria adoptar velha, nem com 50 anos, porque não ia ter paciência. Apesar de ser mais velha do que o meu marido, o meu marido quando foi para o Pedro não brincava assim tanto por causa da doença. Sempre tive muita paciência para o meu Pedro, e sempre brinquei com ele.
Vejo muitas pessoas com mais poder de compra do que eu. Infelizmente, tive de colocar uma dívida na casa para poder adoptar o Pedro. Na altura, exigiam que tinham que ter uma casa própria, um quarto com janela, mas fizemos tudo porque o queríamos adoptar.
Quando o Pedro veio para mim, ele tinha quatro meses e pouco. Quando o vi a entrar na Segurança Social, dizia que era meu filho sem saber que era realmente ele, porque sentia no coração. A minha afilhada, que veio comigo, disse-me que provavelmente não era.
O meu Pedro começou a falar desde cedo e disse “mãe e papa”, e depois pôs os braços para o levarmos. Via-se uma alegria muito grande naquele bebé, como se sabia que ia ganhar uma família.
Ele faz tudo por mim. Quer que eu saia e me distraia. Mais dia e menos dia, sei que ele vai-me deixar, vai ganhar asas, voar e fazer a sua vida, tal como eu deixei a casa dos meus pais. Desde que ele seja feliz, serei feliz. Neste momento, o meu filho é técnico de produção animal.
O meu filho, quando me viu mais abaixo depois da operação, ele deu-me um abraço, disse-me que não esteve preparado quando o pai morreu e queria que eu visse o casamento e filhos dele. Ninguém teria mais gosto do que eu que ver os meus netos a correr nesta casa.

Quando descobriu que foi adoptado? Quais foram os sentimentos?
Pedro Furtado (Filho) – Quando os meus pais me contaram, eu tinha 8 anos. Foi um choque. Nesse momento, descobri que não era filho de sangue dos meus pais, nem sobrinho de sangue dos meus tios. De um momento para outro, passei a não saber quem eu era. Mas encarei isso de forma positiva.
Há dois prismas que podem ver isso. O primeiro prisma, tu encaras isso com revolta, sabendo que te rejeitaram ou não sabes quem és e quem te colocou no mundo não quis ficar contigo. O segundo prisma, que foi o que eu vi, sabes que aconteceu, mas por felicidade encontras uma família que contribuíram para construir o Homem que sou hoje.

Quais são as actividades que costumam fazer em família?
Filomena Furtado (Mãe) – Costumamos sair para comer fora. Como a família encurtou com a morte do pai, passamos os natais num hotel, que são oferecidos pelo meu filho. Vai passar o aniversário fora em Junho, mas já tem uma semana em Julho para passar férias comigo. Aproveitei muitas férias com o meu marido, e agora aproveito as férias com o meu filho. No ano passado, por exemplo, fomos três vezes ao continente. Viajo muito com ele.
Pedro Furtado (Filho) – É como a minha mãe disse. Também costumamos ficar em casa a conversar e a rir. Não tenho muito tempo por causa do meu horário, tenho poucos momentos, mas são bons.
Tem alguma memória familiar que queira partilhar com os nossos leitores?
Pedro Furtado (Filho) – Uma das minhas melhores memórias familiares engloba o meu pai, que é falecido, e a minha mãe. Quando era criança, passeávamos e brincávamos. Era muito bom. Infelizmente, já não pode acontecer. Mas tenho muitas boas memórias dos dois – tenho memórias apenas com o meu pai, outras apenas com a minha mãe e também com ambos.
Lembro-me de jogar playstation com os meus pais e de brincar com a minha mãe. Foram momentos muito bons na minha infância, dos quais tenhas saudades e que na altura não sabia o quão importante eram aqueles momentos.

Pretendem acrescentar alguma mensagem no âmbito desta entrevista?
Filomena Furtado (Mãe) – Acredito que é uma mensagem que deveria ser partilhada para muitos casais que poderiam ajudar e fazer muito bem a muitas crianças, porque há cada vez mais crianças para adopção.
Pedro Furtado (Filho) – A mensagem que gostaria de partilhar é que valorizem mais a família. Penso que as pessoas estão num ciclo em que trabalham ou estudam e vão para casa, onde fazem rotina, e têm pouco tempo para o que realmente importa, que são as pessoas que nos amam e as pessoas que nós amamos. E acho que deveríamos passar mais tempo com essas pessoas, criar memórias e momentos afectuosos, em vez de viver em repetição, ou seja, fazer todos os dias a mesma coisa. Se continuar assim, acho que daqui a 20 ou 30 anos vamos pensar que deveríamos ter aproveitado mais com as pessoas que estavam connosco. A maioria das pessoas apenas dá valor quando as perdem. A mensagem que quero dar é que não esperem ficar sem pessoas ou a família para poder dar valor a elas e dizer a elas o quão importante são para vocês.

Filipe Torres

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