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Tecnologias na Educação e consequências pedagógicas

A evolução das tecnologias digitais e das redes de comunicação propiciaram o surgimento de uma sociedade marcada pela conectividade entre indivíduos e entidades, o que tem provocado mudanças acentuadas na economia e no mercado de trabalho, impulsionando o nascimento de novas profissões, com consequências no sistema educacional, criando-se novos cenários de ensino e aprendizagem.
No entanto, não se imaginava, nem mesmo os docentes com práticas mais inclusivas das novas tecnologias de educação, que seria necessária uma mudança tão rápida. Um dos principais fatores que impulsionou as tecnologias de ensino, principalmente as usadas no ensino à distância, foi a expansão do coronavírus que inviabilizou a presença física de professores\as na mesma sala dos alunos\as, e obrigou os professores\as a transpor metodologias e práticas adotadas em salas de aula presencial física para os meios online.
Há muito que se percebeu que não é possível (ou desejável) proibir os alunos de usarem terminais conectados tanto nas aulas como, mesmo, nos testes. Claro, os testes escritos continuam a ser relevantes, ainda que ache importante adotar estratégias que diminuam a tendência para basear os testes em memorização. Uma das formas que habitualmente adoto é a utilização de resumos manuscritos. O pormenor de serem manuscritos torna mais provável que o seu autor seja o próprio aluno\a e não uma simples cópia de um resumo feito por outro ou adotado da internet. No mínimo teriam de copiar na sua própria letra.
A adoção de outras técnicas de avaliação dos alunos parece-me, agora, mais relevante do que nunca. Não só os processos fraudulentos para realização de testes são muito facilitados pelas tecnologias recentes tais como os geradores de texto da Inteligência Artificial (IA), como também o processo normalmente adotado pelos estudantes de estudar apenas pouco antes do teste e apenas a matéria exata que sai para o teste, me parece uma má prática pedagógica.
No capítulo da avaliação, a área de informática tem clara vantagem já que é maioritariamente baseada em trabalhos ou projetos e testes práticos, realizados com computador ligado à rede.
Ou seja, a proibição para tentar parar a evolução tecnológica não é um caminho válido, tal como extinguir a espécie humana não é um caminho válido para combater as alterações climáticas, ainda que provavelmente fosse o mais eficaz. No entanto, os\as docentes terão de estudar, avaliar e praticar novas práticas pedagógicas.
Apesar de reconhecer que não se pode parar o vento com as mãos, também se reconhece que a “ameaça” da tecnologia, é, no entanto, uma verdadeira ameaça para quem “fica para trás” e sente o seu posto de trabalho em perigo. Não se pode ignorar os receios destas pessoas. A rápida evolução de tecnologias cria uma forte diferenciação entre os indivíduos que a conseguem acompanhar e os que se mantém no registo tradicional, proporcionando mais oportunidades tecnológicas, ignorando outro tipo de conhecimento também relevante e complementar. A escola tem de cumprir a sua função e ser um veículo para o combate a estas desigualdades.
O facto de professores e alunos terem acesso à mesma informação, o que é muito facilitado pela tecnologia, em especial pela World Wide Web que permite o acesso a todo o tipo de informação e aulas online, é indicado, por vezes, como fator que dificulta a lecionação nas nossas escolas. Mas, se pensarmos bem, isso já acontecia antes da “revolução dos dados”.
Aconteceu algumas vezes (infelizmente poucas) os alunos\as lerem o livro em que a matéria a lecionar se baseia permitindo um conhecimento prévio que o\a leva a um questionar insistente ao\à docente que está a lecionar uma aula. Infelizmente. O acesso facilitado dos dias de hoje não teve por consequência um aumento deste tipo de situações, o que leva a concluir que apenas facilitar o acesso à informação não é suficiente.
Torna-se, hoje, mais desafiante ajudar ou guiar o\a aluno\a na floresta de informação entre textos científicos e teorias de conspiração, muitas vezes embrulhados na mesma embalagem e apresentados como “a última novidade” ou “a informação de que ninguém fala”.
Com as tecnologias aplicadas à educação surgiram uma grande variedade de termos e conceitos que se tornaram difíceis de distinguir. Por exemplo, na área da educação mediada pelo digital, os termos Ensino Remoto, Ensino à Distância, Educação à Distância ou eLearning são muitas vezes usados, nem sempre sendo possível distinguir diferenças de significado. A abundância de termos e conceitos é própria de uma área do conhecimento jovem, talvez a atravessar uma adolescência rebelde, insegura, exploratória, mas absolutamente necessária ao crescimento e maturidade da área de conhecimento. É, assim, inevitável a abundância de termos muito diversos e com significados diferentes para cada autor. Parece-me que o trabalho de sistematização, que dá, certamente, muitos papers é, em grande parte, inútil. Funciona um pouco como um novo bioma numa área recentemente criada por um fenómeno natural qualquer, surgem muitas espécies novas, mas ao fim de algum tempo só algumas delas vingam. Também na área da educação impactada pelas tecnologias alguns termos vão vingar e um dos que me parece estar bem posicionado para isso é efetivamente o onLife, um conceito que pretende ser abrangente e integrador, preconizando o apagar de fronteiras entre o digital e o físico.
Do conhecimento sobre as tecnologias e da IA em particular, acredito principalmente numa educação futura baseada na criatividade e nos ambientes integrados com métodos, processos e funções on e off-line, virtuais e físicos, numa palavra: híbridos. Acredito, igualmente, no paradigma de inteligência aumentada pela tecnologia, em oposição ao paradigma dos fundadores da inteligência artificial que pretendiam a substituição de trabalho humano por máquinas (afinal é esse o conceito de tecnologia), acredito na simbiose humano-máquina.
Mas então como será o futuro da educação com as tecnologias?
Ninguém tem, certamente, a resposta a esta questão, mas vários grupos de trabalho a vários níveis: europeu, nacional e até na Universidade dos Açores se têm debruçado sobre este problema. Num documento recente, intitulado Política Pedagpógica Institucional da Universidade dos Açores, preconizam-se não apenas práticas de inovação pedagógicas mediadas pela tecnologia, mas, principalmente a criação de uma cultura de inovação que se pretende institucionalizada.
O documento referido refere-se a um ensino centrado no aluno e não no docente ou na tecnologia. A tecnologia efetivamente contribui para o efeito de espanto inicial do contacto com uma tecnologia entusiasmante e é um fator relevante que deve ser aproveitado nas atividades pedagógicas. É o que se tenta fazer nas atividades com robôs educativos no festival regional de robótica (azoresbot2024.uac.pt), por exemplo.
No entanto, este efeito tem uma duração no tempo limitada, pelo que para manter o interesse dos alunos\as é necessário inovar nas práticas pedagógicas e identificar novas formas de utilizar as tecnologias. Este é o objetivo do projeto PeCOT – Pensamento Computacional com Objetos Tangíveis, atualmente a ser desenvolvido em escolas de São Miguel pelos núcleos de investigação IS2E e NICA da Universidade dos Açores. No âmbito deste projeto, foi criado um pequeno robô educativo a que chamamos azoBOPI – Be Open to the Power of Innovation!
Em projetos como o SeaThings e o SimSea pretendeu-se igualmente obter metadados de suporte à IA e recolher informação sobre utilização e utilizadores com objetivo de permitir a criação de aplicações “inteligentes”. O mesmo se está a fazer na educação levando ao conceito de educação analítica, capaz de utilizar a informação disponível para sugerir planos de aula, combinações de objetos de aprendizagem, sugerir possíveis colaborações entre professores e turmas, tratamento individualizado de alunos\as, entre outras aplicações só possíveis quando os métodos de inteligência artificial poderem ser treinados com muitos dados produzidos pelas plataformas usadas para o ensino.

Armando B. Mendes

Fontes:
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Ilustração: criada pelo Image Creator da Microsoft usando como prompt o título deste texto. Credenciais de conteúdo: Gerado com IA ∙ 14 de maio de 2024 às 1:21 da tarde

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