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Crónica da Madeira: As peripécias de uma viagem

Quando a proprietária da agência de viagens me informou que, tanto na TAP como na EasyJet, as tarifas nos meses de maio a setembro para o trajeto Funchal-Lisboa, e vice-versa, ultrapassavam os 400 euros, o que causava um aumento no preço dos residentes, de 86 para 172 euros…eu não queria acreditar! Contudo, não tinha outra alternativa e comprei o bilhete para o voo da EasyJet, que tinha o horário mais conveniente (os voos no percurso FNC/LIS e LIS/FNC estão geralmente esgotados) para embarcar, às 21:05, horas para Cabo Verde. Como já não viajo sozinho acompanhou-me o poeta Vítor de Sousa. Cheguei a Lisboa no horário certo, só que o Aeroporto, general Humberto Delgado, está cada vez mais caótico e sem espaço para tantos passageiros! Tinha cinco horas de espera até o meu próximo voo. Sentado na cadeira de rodas cujo empregado da MyWay educadamente ia pedindo que se afastassem para poder passar, chego à zona dos restaurantes: uma multidão assustadora! As mesas estavam todas ocupadas. De repente, numa delas, levantam-se quatro pessoas, digo ao Vítor que corra, por favor, antes que alguém se antecipe, o que não aconteceu por um triz. Ali fiquei estupidamente a olhar para outros passageiros: ler para matar o tempo, ou conversar era impossível, tal era o barulho. Restou-me pacientemente esperar enquanto meus pensamentos viajavam: inventavam histórias e caricaturavam pessoas. Sentado, já com uma certa inquietação, comecei a ter ataques de tosse; a alergia à poeira, tapa-me as narinas. Sinto uma forte comichão na garganta. Não era para admirar: milhares de sapatos arrastados levantam poeiras e alimentam os vírus.
Para aliviar as minhas comichões, (pensava eu) comi um gelado, só que, à medida que ia comendo, ele derretia-se nas minhas mãos. Resultado fiquei com as mãos pegajosas.
Digo ao Vítor: fica a “cuidar da mesa”. Dirijo-me à casa de banho, por entre uma procissão de gente, com ar de cansada, saturada. Caminho com cuidado, porque não tenho o equilíbrio que tinha e qualquer empurrão deita-me logo ao chão. Todos procuravam uma cadeira, por isso havia uma espécie de namoro, às escondidas, por uma cadeira, tão desejada! Um grupo de passageiros, mais pareciam corredores, corriam como loucos, para porta de embarque. Zumba! Esbarro num cavalheiro que vem de encontro a mim para se desviar de um outro cavalheiro. De repente, como se abrisse o pano de um teatro: uma senhora tão assustadoramente obesa, como as esculturas de Botero, abraça-me, confundindo-me com outra pessoa! Um abraço tão forte, esburrajando os seus seios generosos na minha cara: sou acometido de um ataco de tosse.
“Ah! Desculpe-me, em inglês, mas você não é quem eu pensava: o meu amigo Anthony! É tão parecido! Tony is the brother of Mary, sister-in-law of my daughter. Falou-me como se eu conhecesse toda aquela gente.

  • My God! You look like somuch Tony! So sorry, So sorry. Mas isto de ser tomado por outra pessoa acontece-me, não raras as vezes. Uma ocasião fui a um funeral e tomaram-me pelo filho do defunto, que nunca teve filhos. O Cangalheiro passou-me para as mãos as chaves do caixão. A determinada altura as pessoas aproximaram-se para me cumprimentar, algumas com lágrimas nos olhos, tecendo elogios ao morto: “Ah! Seu paizinho era um Santo.” Os meus pesámos. “É pena, perdermos um madeirense ilustre, deve estar orgulhoso do seu pai.” Eu não tinha tempo para esclarecer o equívoco. As pessoas eram muitas, atrás umas das outras, para me abraçar. Teria muitas outras cenas, para contar, mas referirei a última: estava a bordo do “Preciosa”, um navio da MSC, num cruzeiro pelo Mediterrâneo. Volta não volta, uma senhora, muito elegante, olhava-me com insistência. Eu desviava o meu olhar, até que ela se dirigiu, para pedir-me um autógrafo pensando que era um cantor inglês. “So sorry I though that you are the Singer”, assim se desculpou.
    Finalmente, embarquei, na hora prevista, às 19:45 horas. O avião da TAP levantou voo às 21:05 horas. Instalei-me na minha cadeira, batendo com os joelhos no assento da frente.
    Preparei-me para uma viagem de quatro horas. Não consigo dormir a bordo então vou divagando nos meus pensamentos, até que o cansaço me aniquile. Estávamos precisamente sobre as Canárias, depois de duas horas de viagem, o Comandante anunciou que íamos voltar a Lisboa, porque uma das hospedeiras estava a sentir-se mal. O Vítor, com toda a lógica perguntou, a um dos Comissários: porque não aterramos em Las Palmas, onde tem bons hospitais?! Porquê, voltar para trás quando estamos a duas horas de Cabo Verde?!
    Ninguém soube responder. Chegados a Lisboa uma confusão para acomodar os passageiros, distribuir vouchers para o almoço do dia seguinte; vouchers para os táxis que nunca chegaram. Passamos de novo no controle dos passaportes. Saímos do Aeroporto, num táxi; pago por mim, para um hotel na Costa da Caparica, que deixámos no dia seguinte, ao meio-dia, para voltarmos ao Aeroporto de novo, passarmos no controle. Entramos naquele pequeno “inferno”: voltamos ao recinto dos restaurantes.
    Por fim, chegamos a Cabo Verde, depois de tantas peripécias, estava a nossa espera, o fantástico motorista Napoleão, do Ministério das Finanças, cujo Ministro sempre me dispensa uma generosa atenção. Levou-nos para o Hotel Oásis e ali repousamos em paz…
    Há questões que não posso deixar de mencionar: como é possível que durante cinquenta anos (cinquenta anos!!!) os governos não se tenham apercebido que o desenvolvimento turístico ia chegar a Portugal e que Lisboa-Capital pela sua beleza, pelos seus museus, monumentos, restaurantes, e inclusivamente clima, seria um dos pontos mais visitados, receberia milhares de visitantes. Sendo o Aeroporto a porta da entrada e saída para escoar tantos passageiros, como nunca decidiram construir um novo Aeroporto! Um Aeroporto com condições que desse aos passageiros o conforto e uma imagem positiva de Portugal.
    Um outro assunto que me faz confusão são os preços exorbitantes que a TAP pratica nas viagens para Cabo Verde. Preços proibitivos que afastam as pessoas de visitarem as ilhas daquele país irmão. Uma viagem na “Sata” de São Miguel para a Praia, anda à volta de 300 euros. Na TAP Lisboa-Praia 1300 e tal euros!
    Mais: para fazer uma alteração de rota do Sal para Praia, o passageiro tem de pagar mais de 300 euros! Por estas razões os cabo-verdianos anseiam, pela chegada, em outubro, da EasyJet.
    Não há dúvida que Cabo Verde precisa do turismo para o seu desenvolvimento. Infelizmente não tem petróleo, nem grandes indústrias, porém a opção pelo turismo terá que ter rigor nos projetos e um número controlado de camas. O turismo é importante, até como aproximação dos povos, mas jamais poderá marginalizar a população de Cabo Verde, tão gentil e bondosa. Cabe às entidades competentes estudarem e programarem as formas mais adequadas para o turismo do país. Felizmente estão a tempo. Acredito que o farão.
    Não compreendo também que se continue a ir aos Correios para receber a diferença dos bilhetes aéreos FNC-LIS-FNC. A tarifa de residente. Recentemente verificou-se um “imbróglio” de alguns milhões de euros, praticado pela máfia, o sistema como está, proporciona os truques da corrupção…
    Porquê não pagamos diretamente à agência os 86 euros, evitando corrupções e tornando mais cómoda a situação dos passageiros?!

João Carlos Abreu

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