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Aos 84 anos, Manuel João Melo é dos poucos artesãos que ainda trabalham o miolo de figueira

João Manuel Melo foi professor de Matemática e Ciências, mas o gosto pelas antiguidades e pela tradição açoriana fê-lo fundar, em 1998, a Oficina-Museu das Capelas, onde desde então continua a expandir uma colecção privada de peças ligadas às artes e ofícios tradicionais dos Açores. São cerca de 37 casas ou oficinas que compõem este museu, como é o caso da taberna, a barbearia, a mercearia e sala de imprensa.
O projecto inicial da Oficina-Museu centrava-se na ideia de “um museu vivo”, com um espaço de produção de artesanal pelo que conta com uma sala de tecelagem e de olaria que ainda estão activas. Foi precisamente na garagem deste museu que o seu fundador começou os trabalhos em escamas de peixe e miolo de figueira.
Actualmente, são muito poucos artesãos que continuam a trabalhar com miolo de figueira e Manuel João Melo aprendeu esta técnica há cerca de 30 anos. Entretanto, já ensinou “muitas pessoas, mas nem todos conseguem. É uma prática minuciosa e um dos maiores problemas é a respiração. Basta um sopro e o trabalho vai todo pelos ares”, explica.
O artesão conta que o material é obtido durante as podas, o que geralmente acontece nos meses de Inverno: “cortamos os ramos da figueira que têm cerca de um ano, pois após esse período começam a secar e fechar. Esses ramos podem variar em tamanho e o miolo seca rapidamente — em apenas um dia fica pronto para ser trabalhado. Podemos cortá-lo em fatias para criar os troncos das peças. Em seguida, rola-se para dar forma circular. Se quisermos criar outros tipos de peças, podemos usar uma prensa para laminar o material, o que nos permite criar diferentes formas e texturas conforme necessário”, esclarece.

Uma tradição açoriana
A arte de trabalhar o miolo de figueira surgiu na ilha do Faial e remonta ao século XIX. Apesar da sua origem exacta ser incerta, acredita-se que esta arte foi desenvolvida nos conventos que existiam na cidade da Horta. A suas expressões mais comuns são os motivos florais, moinhos e barcos à vela. A divulgação e reconhecimento da técnica aumentou quando a artista Emília Madruga que, em 1885, ganhou uma menção honrosa na Exposição Universal de Paris.
Um dos grandes entusiastas dessa técnica foi o artista faialense Euclides Silveira da Rosa que trabalhou uma colecção de figuras de miolo de figueira que é única no mundo. No Museu da Horta, encontram-se 70 das suas miniaturas, representando barcos, cenas da vida no Brasil, onde viveu largos anos, e costumes de Portugal.

A técnica de trabalhar
o miolo da figueira
Quando iniciou o seu percurso pelo artesanato, por volta dos 50 anos de idade, Manuel João Melo conta “estava à procura de algo que me pudesse entreter. Vi que as flores eram muito bonitas e enveredei por este caminho”. Prefere trabalhar “motivos florais, em especial as hortensias, rosas, jarros e malmequeres”, partilha.
Além do miolo de figueira, o artesão também faz trabalhos em escamas de peixe: “Comecei por experimentar com o miolo das hortênsias e fiz um barquinho. Depois, passei para o miolo da figueira, que é mais compacto, mais fácil de cortar e, na minha opinião, mais bonito. Entretanto também encontrei uma prima que fazia em escama de peixe, achei graça e decidi experimentar.”
Para além disso, na ilha de São Miguel, relata, “só havia uma ou duas pessoas a trabalhar esta técnica. Já na altura, miolo de figueira tinha mais relevo na ilha do Faial, onde há uma exposição permanente do artesão Euclides Rosa. Ele é, de facto, um grande artista e, para além de os seus trabalhos serem feitos a uma maior escala, são muito pormenorizados, como é o caso das suas caravelas e moinhos”.
As peças de Manuel João Melo também estão à venda em várias lojas de souvenir em Ponta Delgada: “Produzo trabalhos mais simples porque acaba por ser mais barato e desta forma há mais facilidade de vender. As peças rodam os 25 e os 30 euros. Mas, na verdade, não paga o trabalho. As pessoas gostam muito, mas não querem pagar,” lamenta. E prossegue: “Hoje em dia, estes trabalhos já são mais conhecidos, mas naquela altura, não havia tantas formas de divulgar. É um trabalho difícil e minucioso, mas o mais difícil é vender. As pessoas passavam, viam e andavam.”
Quando questionado acerca do gosto pelo artesanato e aos mais de 26 anos que dedicou à colecção de objectos e histórias que compõem este museu emblemático, responde “a gente inventa, cada alma tem o seu pensamento e vocação.”

Daniela Canha

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