Francisco César sucede a Vasco Cordeiro como líder regional socialista, depois de este ter sucedido a Carlos César. O ainda dirigente recebeu um partido habituado ao exercício do poder, dado como exemplar em termos nacionais, sendo muitas vezes apelidado como uma federação que outros deveriam seguir. Em termos de organização interna, e posterior chegada e manutenção no poder. O longo período de governação do partido e do governo pelo atual Conselheiro de Estado, fazendo as purgas que considerou necessárias até ter, à sua volta, os indefetíveis da pessoa, em primeiro lugar, e da força partidária, em segundo lugar, permitiram-lhe ser um líder incontestado abertamente durante longos anos. Os que lhe foram mais próximos juntaram ambas as paixões. Os restantes, mesmo competentes tecnicamente ou fiéis ao socialismo democrático, tombaram sempre que isso foi necessário.
Chegado ao poder, Vasco Cordeiro tentou, sem ruturas, caminhar num gelo demasiado fino, mantendo os próximos do seu antecessor, e premiando os que, nesta nova liderança, o acompanharam. Recordo-me de se ouvir dizer que o partido era o mesmo, mas as coisas seriam feitas de outra forma. Realmente tentou-se, tendo o responsável do Comité das Regiões recuperado alguns dos proscritos da era cesarina, como foi o caso de Luís Fagundes Duarte, entre outros. Mas fê-lo sem nunca afrontar aquele que formalmente já não detinha o poder interno, no partido, e externo, no governo regional, mas que informalmente tinha ainda, em lugares chave da administração pública regional e autárquica, próximos seus que naturalmente dificultavam a vida a quem se pretendia afirmar. Pese embora ter governado durante oito anos, e ter tentando empreender reformas importantes tanto no âmbito eleitoral, como no que concerne ao parque empresarial público da região, no relacionamento com os municípios da oposição, no combate público que passou a ser feito à pobreza e aos maus resultados na educação, que se mantiveram subterrâneos durante muito tempo, por opção política e estratégia eleitoral, o seu legado fica marcado pela perda do poder. Vasco Cordeiro sai do governo e deixa de ser líder partidário também porque nunca quis seguir o exemplo do seu antecessor: limpar o partido a seu favor.
Agora é a vez de Francisco César. Sobre ele pendem muitas dúvidas e algumas certezas. Os dotes de oratória, a visibilidade nacional que passou a ter depois de eleito ao parlamento nacional, a licenciatura que conseguiu terminar depois de muito tempo a marinar, as raízes familiares que não o abandonam, as promessas de cargos regionais e nacionais e os convites que terá feito mesmo antes de ganhar eleições. As respostas negativas que terá recebido ao apoio público à sua candidatura que se tornou única. A sua apregoada proximidade ao atual líder nacional, e as consequências dessa proximidade, para os Açores e para si próprio. O enfado que terá revelado quando achou que o hemiciclo regional era demasiado pequeno para a sua ambição, tendo trocado o trabalho na Horta pela posição em Lisboa. O caráter apaziguador e consensual que alguns lhe reconhecem, podendo correr o risco de ser interpretado como pouco assertivo e mero gestor de silêncios para não se prejudicar. A personalidade de chefia em tempos de travessia no deserto de quem se habituou a coabitar o poder durante mais de duas décadas, na região e no país.
O atual deputado à Assembleia da República recebe um partido a perder influência social e política, com eleitos a renunciarem aos lugares, um aparelho partidário a habituar-se à oposição em modo lento, e uma sociedade que quando se lembra dos longos anos de governação socialista, os associa a níveis muito altos de intromissão do governo regional nas decisões e recursos das entidades da sociedade civil, na profunda pobreza que se encontra em muitas freguesias da região, e a grande afeição no que dizia respeito a apoios sociais não contributivos. Um processo eleitoral interno que não o deixará reforçado, pela condição de não ter com quem disputar o poder. Um slogan de campanha que pouco dirá aos que vivem fora da bolha política, na qual se sente a habitual vacuidade de quem não espera desafios verdadeiramente difíceis. César encontra um navio a afundar. Veremos o peso que ele tem.
Fernando Marta