O Monte Verde ‘é já considerada uma zona balnear, daí ter, durante a época balnear um nadador-salvador e balneários, contudo, não lhe é classificada de água balnear porque teria de estar vários anos sem acusar nada.1 À primeira vista, custa acreditar que as Poças (ali mesmo na sua continuação) e Santa Bárbara (ali no outro lado do Bandejo) tenham Bandeira Azul e o Monte Verde nem ao menos seja tida como zona de água balnear.2 Mais custará, se se pensar que foi berço do surf da Ribeira Grande (e da sua expansão na Ilha), que acolheu o primeiro campeonato Europeu de Surf e seja frequentada (ao longo do ano) pelas escolas de surf e bandos de surfistas e bodyboarders. Por que não tem o mesmo estatuto de Santa Bárbara? Não será pelo mar do Monte Verde ser mais ‘agreste’ do que o de Santa Bárbara. Não será porque a maior fábrica de lacticínios dos Açores e do País ainda faça descargas para a Rochinha Preta. Já se deixou disso há muito. Ou que a autarquia (é incrível, mas aconteceu) continue (no mesmo local) a despejar lixo no funil (estrutura em betão que levava o lixo ao mar). Também (felizmente) já não o faz há muito. Ou que as geotérmicas lancem descargas na ribeira Seca (que desagua no Monte Verde). Ou será que os moradores (alguns) ao longo da vala dos moinhos continuam a usá-la como cloaca? Ou será que (apesar da rede pública disponível) ainda subsistam ligações ilegais de efluentes domésticos? Será que a empresa de extracção de areia (do tufo) nem sempre faz uso do sistema de filtragem que se diz ter adquirido? Será que os viteleiros/vacarias (não mais de dois ou três, acreditem) a montante – próximos das ribeiras que desaguam no Monte Verde – cumprem? Serão casos acidentais impossíveis de evitar? Ou não?
No do Monte Verde ‘são colhidas amostras de água para análise em dois locais: um, a poente – junto à ribeira Seca; outro, a nascente, junto à foz da ribeira Grande e da levada dos moinhos. Fazemos, com regularidade, todas as semanas durante a época balnear – do mês de Junho ao mês de Setembro inclusive. No resto do ano, fazemos, de duas em duas semanas.’ ‘De vez em quando, acusa no lado nascente [foz da ribeira Grande e da levada dos moinhos da Condessa], no poente – estou aqui há seis anos -, nunca acusou. O que acusam as análises no lado Nascente? ‘Fezes à superfície com a chuva são arrastadas para a ribeira. Problemas com as vacarias, como a que aconteceu há dois anos.’3 Que substâncias são detectadas? ‘Ecolis, etc.. Causam gastroenterites, afecções cutâneas.’4
Pode (à confiança) dizer-se que virão de longe as tentativas de fazer do Monte Verde uma praia como qualquer outra. Já em 1949, D. Lopo de Sousa Coutinho, mais conhecido por Conde de Caminha, na sua proposta visionária de urbanização da Ribeira Grande (hoje, sem que o saibam, parte dela está sendo posta em prática), o Monte Verde constitui um eixo central essencial.5 A sua localização, no coração da antiga Vila, era (e continua a ser) única. Um verdadeiro motor de desenvolvimento.6 Nesse ano de 1949, Jorge Gamboa de Vasconcelos, numa feia pega com o Presidente Lucindo Rebelo Machado, recusou aceitar (mesmo a título de mera hipótese) que a Vila (como defendia Lucindo) passasse a Cidade sem antes dar solução ao problema da falta de saneamento básico (ligado ao Monte Verde).7 Já então Jorge via a via litoral (como parte da solução do problema). Por essa mesma altura, prolongando-se até inícios da década de sessenta, ter-se-á dado início ao aterro que ligaria a actual Vila Nova ao Bandejo – a chamada rua da Areia.8 Em 1971, terminados os aterros da rua da Areia, assim como (em grande parte) o bairro da Vila Nova, o engenheiro Fernando Monteiro e a sua equipa de vereadores, investiram no melhoramento do acesso à praia do Monte Verde e constroem (junto aos moinhos da Areia) um parque de estacionamento. Isso ao mesmo tempo que pretenderam (sem sucesso) melhorar o acesso à praia dos Moinhos pela Ladeira da Velha.9 Nessa mesma década, como aconteceu à Praia de Santa Bárbara, a exploração de areia aumenta brutalmente. Espantosamente, se na Praia do Monte Verde (por várias razões) não chegou a dar tanto nas vistas, nem causou tanto banzé, a verdade é que (segundo uma tese de Doutoramento) ter-se-á daí extraído apenas um terço menos da de Santa Bárbara.10
De volta à década de setenta. Acentua-se (então) uma tendência (generalizada) da mudança que afectaria (e ainda afecta) o Monte Verde. A pecuária começa a ocupar o lugar deixado vago pela agricultura. Como teria sido antes dessa substituição? Ezequiel Moreira da Silva, escrevendo em 2005, tira um retrato fiel: ‘Nesses tempos [antes dos anos 70], as pastagens permanentes não apareciam ali. Estavam mais para cima, noutras altitudes, nas faldas da Serra da Água de Pau e numa dimensão muito mais humilde do que agora ostentam.’11 ‘Os agricultores ou camponeses, que traziam as terras maioritariamente de renda [sobretudo de donos de Ponta Delgada], faziam o seu cultivo e orientavam toda a sua vida de trabalho à volta delas. E os lavradores que possuíam algumas vacas de leite, o qual era, todos os dias, vendido aos quartilhos e à canadas pela porta de cada um e à sua própria porta e possuíam, sobretudo, bois de trabalho, arados e grades de madeira e, muitas vezes, também um carro de bois e carroças.’12
Em 1981, ano da elevação a Cidade, em colaboração com a RTP/Açores, Jorge Gamboa (na qualidade de historiador que mais conhecia a História da Ribeira Grande e de Delegado de Saúde), volta a relembrar o flagelo do saneamento básico. A Via litoral e a Praia do Monte Verde continuavam a fazer parte da solução. Rosa Lourenço, médica continental (casada na Ribeira Grande) no Hospital da Ribeira Grande (que passaria a Centro de Saúde por Decreto Regional), recorda que por esta altura e até mais tarde, a partir do mês de Junho e até Setembro, sucediam-se as gastroenterites (devido ao não tratamento das águas). Até diz que quando na Ribeira Grande se passou obrigatoriamente a ir nascer (por decreto) a Ponta Delgada o espaço deixado vago da (anterior) maternidade no Hospital (agora despromovido a Centro de Saúde) foi destinado às ‘gastroenterites’ estivais. Sem ligarem a isso nem ao papão do mar do Norte, a Praia do Monte Verde a partir dessa década de oitenta seria (assim como a de Santa Bárbara, Santa Iria e as ondas de Rabo de Peixe, um dos locais preferidos dos surfistas da Ilha. A praia foi atraindo mais e mais gente da Ribeira Grande, da Ilha inteira e de fora (sobretudo turistas).13 Em 1995/6, João Brilhante desafiava ali mesmo uns miúdos da Ribeira Grande que surfavam à sua maneira a surfarem como deveria ser: mais de uma trintena aderiria. Ali, na zona dos espinafres, a poente da Areia (Monte Verde), surgiu (então) uma escola de Surf. João Brilhante não só ensinou a modalidade como defendeu em artigos e entrevistas aquela praia e a sua irmã Santa Bárbara. A entrevista que concedeu em 1997 ao jornal Açoriano Oriental, onde frontalmente denuncia o problema da água daquela praia, é um exemplo. Poucos dias depois, José Stone (Fuseiro da Matriz, cujo pseudónimo profissional é António Valdemar), em férias, num artigo também publicado no Açoriano Oriental, visa os que considera culpados (não toca ainda nas vacarias).14 Qual a razão de o Monte Verde apesar de ser bastante concorrido, usado para treinos e provas oficiais de surf e de acolher as célebres construções na areia, ambas as iniciativas promovidas (ou consentidas) por entidades particulares e oficiais, não era (ainda) uma praia como qualquer outra? Perguntou. Em 1990, na Bandeirinha (ao cimo dos Foros) um industrial extraía areia do tufo devolvendo (de seguida, sem a tratar) a água à ribeira. Dando um aspecto detestável às águas do Monte Verde e das Poças.15 Foi (entretanto, não sei exactamente quando) encontrada a solução. Construiu-se uma bacia de decantação (com piscinas sucessivas), em que a água é separada das lamas.16 Ainda por esta mesma altura, sentiu-se (pela primeira vez) o impacto das descargas da geotermia. Lançavam à ribeira Seca a água dos poços geotérmicos: água que vinha desaguar no Monte Verde (na área dos espinafres). Fonte oficial da empresa, garante que é reinjectada a partir de 1997.17
Em 2001, enquanto a Câmara (espicaçada pela opinião pública e pelos surfistas) abria a praia de Santa Bárbara (com um mínimo de condições: nadador-salvador, duches e um parque de estacionamento), a Junta de Freguesia da Conceição (não querendo ficar atrás) fez outro tanto na do Monte Verde. Havia já lá um parque de estacionamento, bom acesso, bastou fazer uma limpeza sumária, (re)instalar duches e promover algumas actividades lúdicas. Sendo boa a intenção, a realidade foi péssima: as constantes análises positivas às suas águas impediram-na de ir tão longe como a de Santa Bárbara.18 Apesar disso, contra proibições do Delegado de Saúde ou (esporádicas) fiscalizações da GNR, banhistas e surfistas, pondo em risco a sua saúde, não arredaram pé. Já em 2004, a escola de Surf fundada (entretanto) por José Seabra, ia lá treinar. Em 2006/2007, quando a vereação chefiada por Ricardo Silva decidiu reabilitar (de alto a baixo) a praia de Santa Bárbara, decidiu também fazê-lo na Praia do Monte Verde. Mais uma frustração, cedo se viu que ali (ao contrário de Santa Bárbara) a situação exigia outra solução (mais profunda e radical). Numa determinada situação ocorrida em 2006/7, a associação ambientalista Amigos dos Açores alertou a população para o perigo sanitário daquela praia. Resultou daí, uma tomada de posição pública (moderada) da Delegação de Saúde: colocação de um simples alerta aos banhistas. A Capitania do Porto opôs-se. Ainda assim, em 2007, a Câmara instalou no Monte Verde dois módulos de apoio aos banhistas: duches, balneários e casa de banho.19 Ironicamente, em 2008, ano seguinte à realização da primeira prova do Campeonato Nacional de Surf na nova praia de Santa Bárbara, a praia do Monte Verde (não havia ondas em Santa Bárbara) seria a primeira praia açoriana a acolher um Europeu e (mais tarde) um Mundial de Surf.20 Não era (de todo) possível resgatar o Monte Verde sem o Passeio Atlântico (ou via Litoral).21 Aproveitando a realização do seu primeiro troço e planeando o segundo, a autarquia avança: acabou com as descargas de efluentes domésticos a céu aberto junto à foz da ribeira Grande.22 E (de seguida) projectou uma ETAR (que já na vereação de Alexandre Gaudêncio) seria substituída por uma estação elevatória que conduziria a uma ETAR (como se verifica agora).23 Espera-se que resolva grande parte dos problemas que apoquentam o Monte Verde.24
Falta dar solução ao chorume (merda e urina).25 Apesar de ser um problema bicudo, basta querer e boa vontade, e é resolvido em dois tempos. Para controlar a situação, por que não uma ‘central biodigestora que recolhesse e transportasse o chorume das explorações’? Ponha fim às maiores queixas: ‘a praga dos cheiros, o uso de pesticidas, a infiltração de fosfatos nos lençóis de água.’26 Produziria (até) gás metano. Os lavradores (melhorariam a sua imagem pública) e fariam dinheiro. Não é ficção, é realidade em países como a Alemanha, a Dinamarca, a Itália e mesmo aqui na Ilha há uns bons 50 anos (até já houve um projecto mas que foi chumbado!). Se se pretender ir mais longe, por que não adquirir as (poucas) explorações que afectam o Monte Verde? A Região já o fez para salvaguardar as águas das lagoas das Furnas e das Sete Cidades ou as nascentes do Monte Escuro. A autarquia tem-no feito (também) para as nascentes. A saúde pública, a economia, a dignidade e a boa imagem da segunda Cidade dos Açores (a nível de impostos) e a terceira em termos populacionais não pode ficar mais tempo refém dessa situação.27 Enquanto isso não se faz, fica em causa a credibilidade da Marca capital de Surf e coloca-se em cheque a pretendida candidatura a Reserva Mundial de Surf. Creio que o urgente (e inadiável) resgate do Monte Verde não irá custar mais do que custou o resgate de Santa Bárbara.28 Aliás, irá trazer retorno: ‘Aquelas praias [Santa Bárbara e Monte Verde] valem oiro!’ Ouvi dizer isso a um empresário de fora.
R. Grande
(continua)
Mário Moura