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Apontamento Dominical: Está tudo na Internet?

Começo a acreditar que «talvez». Poucos dias depois de o Cardeal Bergoglio ser eleito Papa, Mariano Fazio publicou um livrinho «El Papa Francisco», a indicar as linhas de força do seu pensamento e, como apêndice, incluiu uma breve carta dele ao clero da diocese. Perdi o livro, mas não esqueci a carta, até que reencontrei o livro em casa de um amigo e decidi reler a carta na Internet.
Investi um grande esforço para a procurar, pesquisando em vários buscadores, com diferentes palavras. Encontrei referências, mas estavam inactivas. Não desisti. Experimentei mais buscadores e procurei com palavras diferentes, até que… por fim! Lá está ela, na página do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Emigrantes e Pessoas Itinerantes:https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/migrants/pom2007-105/rc_pc_migrants_pom105_sobre-oracion-bergoglio.html.
Afinal, a Internet tem quase tudo! Mesmo que algumas coisas sejam muito difíceis de encontrar!
A carta contém ideias que o Papa repete, sobretudo nos últimos meses, mas aquele primeiro texto tem para mim um sabor especial de novidade.
O tema é a oração. O estilo é o de uma breve carta aos amigos: «Não sei bem por que senti hoje um forte impulso [de a escrever]. Ao princípio, perguntei-me “eu rezo?” e a pergunta estendeu-se [a vós]: rezamos? Rezamos o suficiente?, o necessário? Tive que responder a mim mesmo. Ao fazer-vos agora a pergunta, o meu desejo é que cada um responda também do fundo do coração».
É assim que começa esta carta.
O Cardeal Bergoglio reconhece o mérito dos seus colaboradores na diocese: «Parece-me que podemos afirmar, com objectividade, que não estamos ociosos. Na arquidiocese trabalha-se muito. (…) Por outro lado, sentimos o peso, quando não a angústia, de uma civilização pagã que apregoa os seus princípios e os seus “valores” decadentes com tal desfaçatez e segurança (…). Assim, entre o intenso e desgastante trabalho apostólico e a cultura agressivamente pagã, o coração encolhe-se-nos numa impotência prática que nos leva à atitude minimalista de sobreviver tentando conservar a fé. No entanto, não somos tontos e damo-nos conta de que falta algo (…). Não será que pretendemos fazer tudo sozinhos?».
É esta observação que alicerça o resto da carta. Não chegamos para os desafios, mas o sentido de responsabilidade que se nos pede consiste em «forçar» Deus a resolver os problemas. É essa oração insistente que Ele espera de nós.
«Várias vezes falei de “parresia” (palabra grega, muito repetida nos Actos dos Apóstolos, que significa atrevimento, audácia), da coragem e do fervor na nossa acção apostólica. A mesma atitude há-de dar-se na oração: orar com “parresia”. Não ficar descansados por ter pedido uma vez; a intercessão cristã carrega toda a nossa insistência até ao limite. Assim orava David quando pedia pelo filho moribundo (2 Sam. 12:15-18), assim orou Moisés pelo povo rebelde (Ex. 32:11-14; Num. 4:10-19; Deut. 9:18-20) pondo de lado a sua comodidade e proveito pessoal (…)(Ex. 32:10): não trocou de “partido”, não vendeu o seu povo, mas lutou até ao final. (…) Como Abraão, temos de regatear com Deus (…) com verdadeira coragem(…) (cfr. Ex. 17:11-13). A intercessão não é para fracos. Não rezamos “para cumprir”».
Jesus é claro no Evangelho: “Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontreis, batei e abrir-se-vos-á” e, para que entendamos bem, dá-nos o exemplo desse homem que não larga a campainha da porta do vizinho à meia-noite para que lhe dê três pães (…). E se falamos de ser inoportunos, olhemos aquela cananeia (Mt.15:21-28), que se arrisca a ser corrida pelos discípulos (v.23) e que lhe chamem “cadela” (v.27) (…). Esta mulher é que sabia lutar corajosamente na oração».
A carta desenvolve o tema com exemplos sugestivos, por vezes com um sentido de humor provocante, convocando os seus colaboradores a trocar a segurança humana pela confiança em Deus. «Não se trata de uma luta nossa, mas da “guerra de Deus”(2 Cron. 20:15); e que isto nos mova a dar diariamente mais tempo à oração».
Neste Ano da Oração, eu precisava mesmo encontrar esta carta. E consegui!

José Maria C.S. André

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