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‘Quem nos visita espera que os Açores se mantenham como um destino verde e sem turismo massificado’,alerta o empresário açoriano Pedro Vieira

Correio dos Açores: Quando surgiu a ideia de criar a Quad Azores Tours e como foi o processo de implementação?
Pedro Rui Verdadeiro (empresário/ proprietário da Quad Azores Tours) – A Quad Azores Tours estabeleceu-se em Fevereiro, mas a ideia surgiu no ano passado após convite de um amigo para experimentar fazer umas visitas guiadas à volta da ilha. Como na altura tinha finalizado uma licenciatura em Gestão de Empresas e estava à procura de um projecto para investir, juntou-se o útil ao agradável, porque, para além de ser um negócio interessante, há o gosto em conviver com outras pessoas e o gosto pelas motos.

Qual tem sido a adesão ao serviço por parte dos turistas e dos locais? Quem são os clientes que escolhem a Quad Azores Tours?
A adesão tem sido boa, mas vem sobretudo daqueles que nos visitam, pois este tipo de mercado é mais direccionado para o turismo. Por outro lado, também já tivemos alguns locais a experimentar, mas sobretudo em situações festivas – oferecem o passeio a um familiar ou amigo que celebra o seu aniversário, por exemplo. Os locais que experimentam ficam radiantes porque, por um lado, não é todos os dias que andamos de moto 4 e, por outro, mesmo sendo naturais de São Miguel conseguem ter uma perspectiva completamente diferente nestes passeios.
O tipo de cliente que nos procura é maioritariamente estrangeiro, não é o turista nacional. Maioritariamente espanhóis, depois também temos holandeses, alemães, ingleses, americanos e canadianos. A faixa etária varia muito, mas posso dizer que a minha cliente com mais idade tinha 78 anos e o mais novo tinha 18, pois só a partir dessa idade é permitido conduzir estas motas – com carta de carro.

Que tipos de tours são oferecidos e quais são os mais populares?
Neste momento, tenho vários tipos de passeios, mas o que tem mais saída é, sem dúvida, o das Sete Cidades. Cada passeio tem a duração de quatro horas, faço duas saídas, uma de manhã e outra à tarde. E como trabalho com grupos pequenos, tenho mais facilidade em fazer mais paragens. Fazemos cerca de 60km por cada passeio e as moto 4 são todas novas.
Trabalho sempre com grupos pequenos ou privados, ou seja, no máximo de seis pessoas. Isto porque quando ainda estava a estudar este mercado reparei que as pessoas estão à procura de um serviço mais personalizado, algo com um toque mais pessoal. Não me considero um guia, mas sim um contador de histórias. Em todas as viagens partilho histórias e vivências pessoais da perspectiva de quem nasceu e foi criado em São Miguel; depois junto sempre alguns factos históricos com o contexto actual.

Como é que a Quad Azores Tours se diferencia de outras empresas de passeios turísticos na região?
A Quad Azores Tours diferencia-se devido ao toque pessoal na relação com os clientes. O grande número de críticas positivas que tenho recebido e grande parte da adesão das pessoas tem passado muito por aí: os clientes sabem que a tour é feita por alguém que nasceu nos Açores e que partilha as suas vivências enquanto local. A verdade é que as pessoas não estão à procura de ser mais um número numa excursão, estão à procura de um convívio e de uma experiência mais personalizada e pessoal.

Que balanço faz desta temporada até agora?
A temporada ainda está a meio, mas até agora o balanço é positivo. O estudo económico e de viabilidade apontava para isso mesmo, pois a verdade é que não entrei nesta aventura de ‘olhos fechados’ ou sem saber o que esperar, mas tem sido muito agradável ver que os números estão a bater certo.
Por uma questão de opção pessoal, não tenho funcionários e faço toda a gestão da empresa. É uma actividade que dá muito trabalho e algum desgaste físico, pois estou em cima da mota duas vezes ao dia, sete vezes por semana. Mas para ter sucesso é preciso ter esta disponibilidade, ter boas histórias para contar e um bom poder de comunicação. Felizmente, o meu percurso passou pela tuna masculina da Universidade dos Açores e isso deu-me um enorme à vontade para falar com as pessoas e estar no meio delas. Para além disso, é importante dominar fluentemente outras línguas, neste caso falo português e inglês nativo; espanhol e um pouco de francês. O domínio de outras línguas facilita muito a interacção com os clientes porque no fundo conseguimos manter uma conversa num tom mais familiar.

Há algum momento ou história da Quad Azores que o tenha marcado particularmente?
Há sempre muitas histórias caricatas, umas boas e outras más. Mas posso realçar a história da minha cliente com mais idade porque impressionou-me muito. A senhora chegou a Ponta Delgada sozinha, num cruzeiro; contactou-me e pediu-me para eu ir buscá-la directamente ao cruzeiro para fazer o tour. Quando cheguei lá, não estava nada à espera de encontrar uma senhora de 78 anos, mas ela quis ir sozinha e o facto é que ela levou a sua moto durante aquelas quatro horas de viagem. A força desta senhora impressionou-me e naquele dia ela provou que a idade é mesmo só um número.
Quais são as reacções dos turistas quando fazem este tipo de passeio?
Já tive clientes de todos os continentes e mesmo estando com a actividade apenas há seis meses, aquilo que as pessoas dizem sempre é que nós vivemos num paraíso. Estamos a falar de pessoas que viajam muito pelo mundo todo, mas chegam aos Açores e ainda conseguem ficar completamente abismadas com aquilo que vêem. Com as nossas ilhas, não há aquela questão da foto ‘postal’ que vêem na internet não corresponder à realidade, muito pelo contrário, aquilo que vêem ao vivo supera as expectativas a 100%.
Para além disso, todos eles também me transmitem que gostariam que os Açores permanecessem assim: um local verde e com um turismo que ainda não é massificado. Infelizmente, acredito que é uma questão de tempo até isso acontecer, pois os grandes grupos tendem a crescer com a massificação deste tipo de sector. Temos de ter muito cuidado e a continuar com o destino Açores como um destino verde e sustentável. Daí que também escolhi montar esta actividade com poucas motas, pois não quero tornar esta empresa uma coisa massificada. Acredito que continua a ser preferível ter ‘pouco e bom’.
Neste sentido, aproveito para deixar um apelo às entidades locais para que actuem no sentido de manter os Açores como um destino sustentável e não como um local de turismo massificado.

Têm planos para expandir os serviços ou introduzir novos tipos de tours no futuro?
O processo passa por consolidar a empresa da forma que está. Expandir será para um futuro não muito próximo. A minha intenção é ter uma empresa mais familiar porque quando não dependemos só de nós num negócio, as coisas tendem a descarrilar.

Faz preços especiais para locais. Que falar-nos da importância de incluir os locais nas actividades maioritariamente destinadas ao turismo?
Aproveito, desde já, para deixar o apelo para que os locais me contactem, pois temos um preço especial. Venham conhecer a nossa ilha através da moto 4 porque é uma experiência completamente diferente. O que conseguem ver quando vão passear nos seus carros é completamente diferente da perspectiva que vão ter num passeio deste tipo.
Acredito que é muito importante fazermos um preço para os locais, sobretudo porque a ilha é deles. Com isto não quero dizer que as actividades devam ser grátis em todo o lado, pois existem preços de manutenção. No entanto, sou completamente a favor de as entidades privadas fazerem um preço especial para os locais, e devemos integrá-los nestas actividades que normalmente são muito direccionadas para o turismo.
Para além disso, e tendo em conta que o nosso poder de compra é muito menor ao do turista que nos visita, temos de fazer esta atenção, isto porque o preço praticado neste tipo de actividades é convidativo para o turista, mas é insuportável para o local.
Daniela Canha

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