Pedra, trono e alicerce! Pedra rejeitada que se torna angular, pedra sobre a qual se edifica a Igreja do Evangelho, a tal que nos fala daquele que não tinha uma pedra para reclinar a cabeça, e que no dia-a-dia nos diz que quem não tem faltas atire a primeira pedra. Pedra rolada do sepulcro em manhã de Páscoa e o Senhor glorioso ao nosso lado no sofrimento e dentro de nós na Fé que nos marca na nossa história pessoal e na história do nosso mundo e dos nossos horizontes. Fé da Teologia e Fé do Povo! Com este sempre vencedor! No nosso caso a Fé do Povo da Vila! Que tem um Só Senhor… que aqui é da Pedra!
Pedra, trono e alicerce! Pedra rejeitada que se torna angular, pedra sobre a qual se edifica a Igreja do Evangelho, a tal que nos fala daquele que não tinha uma pedra para reclinar a cabeça, e que no dia-a-dia nos diz que quem não tem faltas atire a primeira pedra. Pedra rolada do sepulcro em manhã de Páscoa e o Senhor glorioso ao nosso lado no sofrimento e dentro de nós na Fé que nos marca na nossa história pessoal e na história do nosso mundo e dos nossos horizontes. Fé da Teologia e Fé do Povo! Com este sempre vencedor! No nosso caso a Fé do Povo da Vila! Que tem um Só Senhor… que aqui é da Pedra!
Confesso que tremi quando a Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca, Professora Eugénia Leal, me contactou para ser eu, na minha voz cansada, a proferir algumas palavras de abertura das Festas do Bom Jesus da Pedra, nos 205 anos desde o seu início. Estar aqui neste Templo onde se fundem os três maiores cultos açorianos, o culto ao Espírito Santo, Titular desta Igreja; o culto mariológico aqui simbolizado na Senhora da Misericórdia, e com todo o mérito e júbilo histórico, já que Misericórdia aqui existe, pelo menos desde 1551, altura em que houve a fundação da grande confraria do Espírito Santo, já lá vão 473 anos; e culto cristológico com a lendária imagem do Bom Jesus da Pedra, no passo afrontoso da Paixão que Cortes-Rodrigues sublimaria em “trono de luz e glória”, estar aqui neste templo, repito, é sentir-me criança na festa a que nunca faltei, desde tenros anos, ao colo de minha mãe e às costas de meu pai, e pequenino na fé e no saber, para vos dizer aquilo que bem merecíeis ouvir de outra voz mais sábia e mais jovem.
Mas como disse à Professora Eugénia Leal, “ao Senhor da Pedra não se diz que não” e por isso aqui estou para um desafio tão simples e ao mesmo tempo tão complexo como é este de falar sobre “A Vila e a sua Fé”.
A vila! Única, entre as demais açorianas, e não só, que o é por si, pelo seu nome apenas. Não precisa de mais nada para ser identificada. É a VILA, sabendo-se que é Franca, do Campo e também do mar, onde a guarda o nosso ícone sentinela, ilhéu de sonhos e lendas que temos de ser capazes de defender contra as fúrias de interesses presentes e futuros. É a Vila Concelho, desde a terra do sol nascente – Ponta Garça, até onde ele se esconde no véu da tarde: Água d’Alto.
“Caminhem com o pé na terra e com o coração no céu” disse um dia Dom Bosco… Parafraseando, apetece-me dizer que caminhar nestas terras da Vila é como caminhar no céu com os pés na terra.
A Fé! Mais do que o simples crer no que nos ensinaram é viver o que apreendemos. A Fé, degrau superior de uma simples crença é a conjugação do aprender e apreender. Como se pode ler na Carta aos Hebreus (11:1): “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem”.
A maior doçura para aquilatarmos esta palavra está na mulher doente que vendo Jesus passar, diz para si mesma… Se eu ao menos lhe tocar na fímbria do seu manto, poderei ser curada… Jesus sentiu e disse… Mulher: a tua fé te salvou! Ou de outra vez outra mulher: mesmo os cães comem as migalhas da mesa dos donos… e a resposta: Grande é tua Fé. Tua filha está curada.
Como a confiança é o alicerce da Fé, assim o Povo, o nosso Povo de Vila Franca, desde o seu início, tal como aconteceu em muitas terras dos Açores, sentiu a fé como arrimo e apoio nos momentos difíceis, dos quais até soube fazer acção de graças.
Quem já leu o chamado “Romance de Vila Franca” na versão que nos deixou Gaspar Frutuoso, que nasceu precisamente em 1522, ano do terramoto que arrasou Vila Franca e que o viria a recolher 70 anos depois, quando era Prior na Matriz da Ribeira Grande, e no qual conta o que aconteceu “Em Vila Franca do Campo /Que de nobre precedia /Na ilha de São Miguel/A quantas vilas havia,” percebe bem o âmago desse sentimento de Fé
Ali, entre a dolorida narrativa de tantos sofrimentos, de tantas mortes, que poucos vivos se viam, há a lendária e tocante cena da chegada do Capitão Rui Gonçalves da Câmara que “Manda logo cavar gente /Onde antes estar soía /O Santíssimo Sacramento /Cuidando que se acharia, / Vendo quanto Deus nos ama /Quão grande bem nos queria, Que querendo dar castigo /Sobre si o tomaria
E continua o romance; A arca acham no Altar /Mas sem ele estava vazia: /Não sabem se foi ao céu, / Se na terra ficaria /Nalgum sacrário metido, / Para o qual se mudaria.
Alguns sinais viram disto / A gente que ali acudia,/ Vendo daquele lugar/ Uma nuvem que subia,/ Ouvindo muitos cantares / De suave melodia,/ Suspeitando ser dos anjos, / Alguma gram companhia /Que da terra para os céus/ A Deus acompanharia; /Ou por mãos angelicais /Noutra Vila se poria.”
No mundo da lenda, a Fé toma rédeas históricas quando Frutuoso escreve que aqueles que sobreviveram, depois de enterrar os mortos que iam descobrindo, “Vão todos em procissão /A uma Ermida que havia, / Da Virgem Santa Catarina / Que de paróquia servia; / Dão todos graças a Deus / Como cada um podia, / Pelos livrar da prisão / Da terra que os cobria.”
A fé do Povo de Vila Franca, estende-se do mar à serra, no nosso caso, desde a Praia do Corpo Santo onde existiu a ermida dedicada ao patrono do Homens do Mar, o Sant’Elmo, São Pedro Gonçalves, demolida no início do século XX, com a Imagem do orago a ser transferida para a Ermida de Santa Catarina, esta, como já vimos, sobrevivente do cataclismo de 1522 e sede paroquial com a derrocada da Matriz, até ao Monte da Senhora da Paz, com a sua Ermida multissecular e sonho de a vermos como primeiro santuário mariano de São Miguel. No caso da Ermida de São Pedro Gonçalves, saúde-se a sua reconstituição em três dimensões promovida pela Câmara de Vila Franca e que muito honra conhecimento patrimonial da nossa velha urbe e que, também para a Senhora da Paz, haja caminho de consensos para um futuro que se avizinha e que esperamos risonho para o nosso concelho.
E é bom que se refira aqui como os nossos antepassados, por divina coincidência, ou por experiência adquirida, souberam até escolher os padroeiros das nossas freguesias. Ainda há pouco tempo, numa reunião de preparação com os Romeiros da Matriz da nossa Vila, eu dizia que a Ouvidoria que cobre o concelho de Vila Franca, tem cinco paróquias e que eu conheça, é a única ouvidoria que, no seu conjunto, tem representadas todas as invocações do que popularmente chamamos a “corte celestial”. Vejamos: na Ribeira das Tainhas há a invocação do Senhor Jesus, o Deus humanado, o Bom Jesus Menino; em Ponta Garça, Maria, na invocação da Senhora da Piedade; temos um Anjo, mais propriamente Arcanjo São Miguel, na Matriz; um santo, o Apóstolo São Pedro, logo ao lado, e finalmente, mas não por último, temos Água d’Alto com Lázaro, a figura da parábola evangélica que bem nos pode representar a todos, homens e mulheres, no nosso dever de misericórdia e partilha com todos. E já tivemos São José, quando a Ribeira Chã fazia parte da nossa Ouvidoria, o que aconteceu até finais do século XX. E, se os tempos fossem outros, não haveria que escolher para a Ribeira Seca. São João, o Baptista, seria o padroeiro. Parece que os padroeiros foram “escolhidos a dedo”: Jesus, Maria, um Santo, um Anjo e uma Parábola. Bela representação!
Mas, desde tempos imemoriais, era a fé e a festa que marcava o ritmo do ano e basta ver as datas das festas no concelho que abrangem todas as estações do ano, abrindo primaverilmente, e falando só nas que são especificamente nossas, com São Miguel e o Irró; passando no Verão por São Pedro, Senhora da Piedade e São Lázaro… com apogeu aqui neste Senhor da Misericórdia que é pedra de alicerce da nossa tradição; Em pleno Outono, quando caem as folhas amareladas das árvores e dos calendários, subimos o monte da Senhora da Paz, e na Ribeira das Tainhas, a Senhora da Conceição, e na gema do Inverno celebramos o Bom Jesus Menino, Aquele que era Verbo e se fez carne, criando o zero dos séculos e o esplendor do tempo novo.
Os séculos e a vida, as dores e as alegrias, as súplicas e acções de graças foram moldando a identidade de ser povo da Vila, na Vila e no seu Concelho. Da mais humilde pessoa às mais preclaras figuras da nossa memória histórica. Daquelas de quem rezam os livros e daquelas que estão dentro dos nossos corações, porque, de facto, só se morre quando a nossa memória desaparece. E a soma do que vemos hoje na nossa vila em termos religiosos, culturais e sociais é o resultado de infinitas parcelas de doação, sacrifício e espírito de Fé.
Em espírito de fé, no final dos anos 500 daqui saiu Bento de Góis, de seu nome Luís Gonçalves, rumo ao então desconhecido e inóspito Oriente. Sob lema e brasão Jesuíta e depois de anos de viagens e descobertas a anunciar a paz e o cristianismo aventura-se na maior travessia de que há memória histórica. Estando em Goa, na Índia e constando que na China, a quatro mil quilómetros de distância, havia comunidades cristãs nestorianas, ou seja, separadas doutrinalmente de Roma, na questão da natureza humana e divina de Jesus, aí vai, tentar uma reconciliação. Mais de quatro anos de caminho, obstáculos e heroísmo até à morte.
Séculos depois, já bem mais recentemente, outro nome vila-franquense, é orgulho da nossa identidade e também em terras longínquas do então império português: Artur do Canto Resende, que em plena II Grande Guerra é preso, torturado e morto na sequência da invasão Japonesa a Timor. Morre como herói, e todos cremos que os princípios de cidadania e honradez que bebeu na sua Vila, no seu Externato, o terão guiado nos duros momentos. Hoje a sua memória perpetua-se aqui na Terra Natal, em Coimbra, onde está na toponímia e em memorial, em Lisboa, na cidade da Beira de Moçambique, e em Timor onde lhe ergueram um memorial e foi nome de uma escola.
Fé nos actos e na bravura. E fé na Ciência, como o Padre Manuel Ernesto Ferreira, falecido há 81 anos, em Janeiro de 1943, mais precisamente, Capelão desta Santa Casa da Misericórdia por longos anos, fundador do nosso querido jornal A Crença que já caminha para os seus bonitos 110 anos de vida, orador sacro de renome até que lhe faltou a voz, professor de tantas gerações no Externato, correspondente com cientistas de vários pontos do país e estrangeiro e verdadeiro educador na simplicidade e regras de vida.
E podíamos ir muito mais longe que longa é a lista de quem viveu dando testemunho abnegado de fé, dando tudo de si a todos, todos, todos, como diria o Papa Francisco e como tivemos a dita de sentir numa vida como a de Augusto Botelho Simas, pai dos pobres e médico de corpo e alma. Por isso o 6 de Novembro de 1976 é data imorredoura para quem o conheceu e o guarda no coração.
E continuando aqui bem perto, aqui mesmo ao lado deste templo onde nos guarda a evocação do Senhor da Pedra, como podemos esquecer a alma franciscana do génio poético que foi Armando Côrtes-Rodrigues, um dos nossos maiores poetas, mesmo a nível nacional, mas com acrisolado amor a Deus, à natureza e à terra que o viu nascer? Para só citar algumas das suas obras, saliento os livros “Em Louvor da Humildade”, “Cântico das Fontes”, “Auto de Natal” e “Auto do Espírito Santo”. Escolho estes para que sintamos o quão profunda era a sua relação com o Infinito. E com que doce orgulho afirma-nos, sem nos cansar, ter sido ele a escrever a letra do hino do Bom Jesus da Pedra que começa precisamente com esta dimensão do significado teológico da Imagem, “Passo afrontoso da Paixão”, tornado “trono de luz e de glória”… e que, depois de nos lembrar que “nossos pais nos legaram esta fé, que queremos manter sempre firme em vós”, nos leva à súplica final que sobe em nossa emoção, como fumo de incenso perante a imagem: “Escutai a nossa prece ardente – Pois só em Vós, esperamos, ó Senhor!”.
Em Armando Côrtes-Rodrigues, a sede de Deus era uma constante e basta lermos um dos seus poemas num dos dois números da Revista “Orpheu” , a mais célebre revista literária com Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro e Almada Negreiros, e na qual o mesmo Côrtes Rodrigues também aparece como Violante de Cysneiros: Eis o poema:
Passo Triste no Mundo
Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E místico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh’Alma do profundo
Abismo do seu Ser.
Vivo de Mim, em Mim, e para Mim,
E para Deus em Mim ressuscitado,
Sou Saudade do Longe donde vim,
E sou Ânsia do Longe, em que por fim
Serei transfigurado.
Vivo de Deus, em Deus, e para Deus,
E minh’alma, sonâmbula, esquecida,
Nele fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e sozinha, olhando os céus,
No caminho da Vida.
Fui Outro, e, Outro sendo, Outro serei;
Outro vivendo a mística beleza,
Por esta humana forma que encarnei,
Por lágrimas de sangue que chorei
Na terra da tristeza.
Espírito na Dor purificado,
Ser que passa no mundo, sem o ver,
Em esta pobre terra de pecado,
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.
E outro grande poeta místico, natural deste concelho, concretamente de Ponta Garça, o Padre José Jacinto Botelho, que escreveu sob pseudónimo de António Moreno e que durante mais de 40 anos paroquiou nas Furnas, sem nunca se esquecer de Vila Franca aonde se deslocava sempre que possível, em 1919, dedicava estes versos ao Senhor da Pedra.
Jesus! Se loucos ingratos, por trono pedra te dão
Trono vivo aqui te fica
Este pobre coração.
Dirás que a negra ironia
com o tempo não se cansou
Diria que por dura pedra,
Pedra mais dura te dou
Jesus, Olhar de ternura
Se pões os olhos nos meus
Do inferno incêndios apagas
e acendes o lume dos céus!
Como já referi, a Fé do Povo da Vila está presente, do mar à serra, de nascente a poente, em tantos sinais que nos lembram a finitude do tempo e a sede do infinito que dorme dentro de nós e acorda ao som de um sino, ao vermos ao longe uma ermida, um cruzeiro, umas “alminhas” em humildes azulejos quase de ervas e musgo tapados, um império do Divino em seu triatro ali silencioso… Mas mais importante é que a Fé se manifeste nos momentos do encontro, nas horas de tristeza, com os mais abandonados e fragilizados, no verdadeiro sentido da Misericórdia, pessoal e institucional, mas também nos encontros de festa e alegria, de saudade mitigada, como agora, no abraço a quem nos visita, na gratidão de promessa cumprida, neste mar de gente que faz deste belo e único centro histórico da Vila, velha Matriz, vetusta casa do Arcanjo, Igreja da Misericórdia, e seu antigo Hospital, imponente e altaneiro edifício da Municipalidade, jardim Antero de Quental e Largo do Pelourinho, rebatizado Medeiros Ferreira, uma torrente de fé e de festa, de sons e de luz, na magia de um encontro silencioso de olhares com o Senhor na sua Imagem, sem importar os ruídos alheios, porque é no segundo que dura esse olhar que se desvanecem as sombras que agora dão mais relevo à luz da Esperança que há mais de dois séculos alimenta a fé e robustece o Amor.
Aqui, e graças à continuidade que a Santa Casa da Misericórdia, através dos tempos e com todos os seus Provedores, deu à promoção deste culto e desta festa, podemos terminar dizendo que diante do Bom Jesus da Pedra, este lugar se torna Tabor (É bom estarmos aqui), Pretório (Eis o Homem) e Cenáculo (fazei isto em minha Memória).
Que a pedra onde o Senhor se senta seja o trono da Misericórdia e do amor desinteressado de cada dia, por todos, todos, todos!
E que todos aprendamos a retribuir com tudo o que pudermos porque a Ele, Senhor, pela nossa Fé, é devida honra e glória para sempre.
- Conferência proferida pelo Director Adjunto do ‘Correio dos Açores, José Santos Narciso, na sessão solene de abertura da festa em honra do Senhor Bom Jesus da Pedra em Vila Franca do Campo.