A exposição “Usos Populares da Laurissilva nos Açores”, patente no Centro Ambiental do Priolo, em Nordeste, da responsabilidade de Azucena de la Cruz Martin e Catarina Sousa, suscita a atenção para a importância das plantas endémicas da Região e para a relevância da Floresta Laurissilva que “é património natural dos Açores, valorizando a região ambientalmente, através da melhoria da qualidade do ar e da água, e da redução do risco de erosões, e economicamente, pelo emprego que gera e pelo turismo que atrai.”
O que é a laurissilva?
Azucena de la Cruz Martin (Ciências do Ambiente) e Catarina Sousa (Veterinária) A floresta laurissilva é um tipo de vegetação caracterizada pela presença de espécies da família das Lauráceas (plantas de folhas perenes e longas) presente em várias áreas subtropicais do planeta, entre as quais a Macaronésia, da qual os Açores fazem parte.
Esta floresta inclui um grande número de espécies de plantas endémicas dos Açores tais como a ginja-do-mato, o cedro-do mato, o sanguinho e a uva-da-serra, entre outras, e é o habitat de espécies emblemáticas como o priolo e o tentilhão-dos-açores.
Qual a origem histórica e geográfica da floresta de Laurissilva?
A Laurissilva é uma floresta relíquia que durante a Era Terciária, antes das glaciações, cobria toda a área do Mediterraneo. Com as glaciações, desapareceu praticamente no continente, restando apenas nas ilhas, que pela influência do oceano, nunca ficaram congeladas. Assim, hoje em dia, a Laurissilva Macaronésica pode ser encontrada nos Açores, na Madeira e nas Canárias.
Nos Açores, e de acordo com o livro “As Saudades da Terra”, de Gaspar Frutuoso, as florestas cobriam as ilhas por completo quando os primeiros povoadores chegaram. Desafortunadamente, à medida que aumentou o povoamento, estas florestas foram cortadas rapidamente para utilização da madeira e criação de espaço para assentamentos e agricultura. Assim, em menos de 100 anos, grande parte destas florestas desapareceram das ilhas. Restaram ainda, algumas áreas de floresta, em zonas de maior declive que continuaram durante séculos a serem utilizadas para obtenção de carvão, madeira e outros bens, ficando cada vez mais degradadas pelo uso sem reflorestação.
Já no século XX, e especialmente após a II Guerra Mundial, a desflorestação atingiu tais proporções que os solos nus começaram a ser um perigo ao poderem causar cheias e derrocadas e, por este motivo, foram criados e implementados pelos Serviços Florestais os primeiros planos de arborização de Portugal que reflorestaram amplas áreas, principalmente com criptoméria, uma espécie exótica, mas muito adaptada às condições climáticas dos Açores. Na altura, a criptoméria foi a solução mais rápida e prática a ser aplicada, uma vez que os privados já a usavam e conheciam-se bem como a produzir. Contudo, já este planos de arborização tiveram o cuidado de respeitar as pequenas manchas de floresta laurissilva ainda remanescentes, como é o caso da Serra da Tronqueira, e que persistem até hoje. Desafortunadamente, muitas destas áreas remanescentes sofreram com a entrada de plantas exóticas invasoras, como a conteira, a cletra e o incenso, que têm uma grande capacidade de ocupação do espaço, reduzindo o espaço disponível para o crescimento das espécies dos Açores.
Mais no final do séc. XX, nos anos 90, é que começou a aumentar a preocupação com a recuperação das que foram as florestas originais dos Açores tendo-se iniciado alguns projectos para a recuperação destas florestas e das espécies que delas dependem, como o priolo.
Concretamente, na zona da Serra da Tronqueira, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) iniciou em 2003 o projecto LIFE Priolo, que teve como objectivo principal recuperar áreas de floresta laurissilva para recuperar a população do priolo, na altura criticamente ameaçado de extinção. Hoje em dia, 20 anos depois e graças aos projectos LIFE desenvolvidos, contamos com mais de 350 hectares de floresta laurissilva restaurada e uma população de priolo em melhor estado de conservação.
Qual a sua importância da laurissilva para a Macarronésia?
As florestas Laurissilvas Macaronésicas que são diferentes entre os três arquipélagos (Canárias, Madeira e Açores) são extremamente importantes para salvaguardar a biodiversidade autóctone destas ilhas. Muitas espécies, não apenas de plantas e aves, mas também de insectos, caracóis, etc.
Portanto, a preservação destas florestas é muito importante, não apenas a nível regional ou nacional, mas também ao nível da União Europeia que identifica este habitat como prioritário para a conservação na Directiva Habitat (92/43/CEE), estando protegida em muitos dos locais onde ocorre pela Rede Natura 2000.
Mas estas florestas autóctones também são muito importantes para a regulação dos ciclos hidrológicos, contribuindo para a captação e retenção da água da chuva e dos nevoeiros no solo, que depois é libertada lentamente fornecendo água de qualidade para o consumo humano. Também contribui para a estabilização dos solos e protecção frente a derrocadas e para o aumento do interesse turístico das ilhas, uma vez que muitas das espécies presentes nesta floresta são únicas.
Que estudos estão a ser desenvolvidos no âmbito da floresta de Laurissilva?
(…) No caso concreto dos trabalhos da SPEA, focamos os estudos na evolução das acções de restauro ecológico realizadas nos últimos 20 anos, para tentar perceber melhor, como evoluem as espécies autóctones após o restauro e quais são as melhores técnicas para recuperar esta floresta de modo mais rápido, efetivo e que garanta que sejam resilientes, ou seja, que resistam, por si próprias, à entrada das espécies exóticas invasoras que continuam a existir fora das áreas restauradas. E claro, estudamos o efeito que a recuperação do habitat tem na população do priolo, que é o motivo principal de se terem iniciado estes trabalhos de restauro na Serra da Tronqueira.
Que medidas estão a ser implementadas para a sua preservação?
As principais medidas implementadas para a preservação da floresta Laurissilva são o restauro ecológico de manchas desta floresta através da remoção de espécies exóticas invasoras, estabilização dos solos e escorrências de água com técnicas de engenharia natural e plantação com espécies nativas e endémicas produzidas em viveiros florestais.
As medidas concretas variam de área para área, dependendo do grau de invasão e tipo de espécies invasoras presentes, o declive do terreno e a presença de linhas de água, mas o objectivo principal é recuperar manchas de floresta dominadas pelas espécies autóctones e, portanto, melhores para suportar a restante biodiversidade (aves, insetos, aranhas, etc..)
Que usos populares eram dados à laurissilva? E hoje qual a sua utilidade?
A Laurissilva, por ser uma floresta tão diversificada, era-lhe atribuído diferentes usos, desde o musgo, utilizado para as camas do ananás, compostagem ou decoração para presépios, até árvores de grande porte para obtenção de madeira, combustível e carvão.
Actualmente, a floresta Laurissilva é património natural dos Açores, valorizando a Região ambientalmente, através da melhoria da qualidade do ar e da água, e da redução do risco de erosões, e economicamente, pelo emprego que gera e pelo turismo que atrai.
Antigamente qual o uso que era dado às plantas endémicas?
Várias plantas endémicas eram utilizadas no quotidiano das famílias açorianas. Utilizava-se madeira para construções (casas, móveis e barcos), trabalhos no campo (alfaias agrícolas, cangas, arames e carros de bois), recipientes (pipas e jarros de vinho), calçado (galochas) e até instrumentos musicais (braços de viola da terra).
Árvores e plantas com muita folhagem eram utilizadas para o fabrico de vassouras (Urze – Erica azorica) e pincéis (Bracel – Festuca petraea) para caiar as casas. Muitas plantas eram usadas pelos seus efeitos medicinais, algumas eram aplicadas diretamente para tratamento de feridas, ou ingeridas sob a forma de infusão para tratamento da tensão arterial, da tosse ou de infecções urinárias, etc. como a Erva-férrea (Prunellavulgaris). Algumas plantas eram utilizadas para alimentação sob a forma de compotas, licores, gin ou aguardente (Cedro-do-mato – Juniperusbrevifolia). Outras utilizações das plantas endémicas surgem com o corante (Sanguinho – Frangulaazorica; e Folhado – Viburnumtreleasei) utilizados para tingir a lã e corar redes de pesca.
Infelizmente muitas destas plantas ficaram ameaçadas pela sua forte exploração e algumas chegaram mesmo a extinguir-se, como o caso do Teixo (Taxusbacata), cuja madeira era muito utilizada para a marcenaria e mobiliário.
As plantas endémicas, pelo seu estatuto de conservação, já não podem ser cortadas, e de facto, estas plantas estão muito pouco presentes na nossa região, pela elevada densidade de plantas invasoras, contudo, estas plantas poderiam ser muito úteis nas quintas e quintais das pessoas. A Faia (Morellafaya), por exemplo, pela sua elevada densidade de folhas é muito útil para sebes (abrigos), protegendo os cultivos da ação do vento; algumas espécies de feto evitam o crescimento de ervas daninhas; e os musgos são excelentes repelentes de baratas. Para não falar do delicioso mirtilo da Uva-da-serra (Vacciniumcylindraceum)e dos corantes naturais do Sanguinho.
Neuza Almeida
