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Coisas que fazem lembrar rentrées

Os sociais-democratas já lançaram a próxima época política no sítio do costume, o popular Pontal algarvio. Para lá da Festa do Avante, esta é sem dúvida a mais popular rentrée partidária, e o primeiro-ministro soube aproveitá-la bem. Com o anúncio de três medidas que se mantêm na memória sem qualquer dificuldade, Luís Montenegro foi acusado de eleitoralismo e, ao mesmo tempo, de não ter chegado suficientemente longe na sua bonomia. Estas acusações cruzadas são o equívoco que as propostas criaram, já que seria difícil ser-se dito, à esquerda e à direita, que elas não eram acertadas. Sobra a discussão sobre a intensidade.
Sobre intensidade falará também o secretário-geral comunista, em particular a intensidade dos ataques israelitas a Gaza, o contra-ataque ucraniano em solo russo e o rescaldo das eleições venezuelanas. E se, neste último caso, a culpa das manifestações pacíficas que têm exigido provas da vitória de Maduro é dos norte-americanos como habitualmente, a incursão ucraniana é a prova de que o fascismo grassa naquela terra.
Onde é que já se viu um país mais pequeno levar a guerra para dentro da fronteira do seu agressor? A invasão da Ucrânia pela mãe Rússia é legítima, já que pouco antes da época medieval eram apenas um território dominado por um antecessor de Putin. O resto é fantasia nazi, dirá eventualmente Paulo Raimundo do palco central, no comício de domingo à tarde.
André Ventura voltará ao tema da imigração, vindima que julga continuará a dar frutos, podendo até, na sua cabeça, servir de moeda de troca para a aprovação de um orçamento de Estado. Considero muito sábia a utilização de referendos, sempre que temas pertinentes, que dizem respeito ao povo, têm lugar de destaque na discussão pública, à imagem do que acontece em países como a Suíça. Bem sei que não são exemplos similares, mas o povo português tem tanto direito a pronunciar-se sobre assuntos importantes que lhe mudem o futuro, como qualquer outro. Usar um referendo sobre um tema que não diz nada aos portugueses, muitos deles pais e filhos de gente que emigrou para países tão díspares como a Venezuela, a França, a Alemanha e os Estados Unidos ou o Canadá, é só mais um disparate a somar aos outros a que o Chega já habitou os portugueses, incluindo aqueles que alguma vez lhe deram o voto.
Mariana Mortágua levará ao lançamento de mais um ano político os temas que lhe têm valido alguma fidelidade de voto, ainda que este se tenha demonstrado cada vez mais volátil e escasso. A defesa das liberdades no âmbito da igualdade independentemente do género, o apelo à paz e o fim da OTAN, a defesa das minorias e a ambição de habitação para todos. Não será um ano fácil para os bloquistas, já que o regresso à atividade sindical relevante veio novamente mostrar que os comunistas mantêm o domínio das principais federações sindicais, seja na educação, na ferrovia ou nos transportes públicos em geral. O ativismo permanente não trouxe a influência social esperada, ainda mais com o crescimento de uma esquerda verde e ecologista, protagonizada por Rui Tavares e o Livre. Consigo, trouxe uma certa modernidade a um campo que, para além de se apregoar progressista, continua a revelar enormes vícios de um conservadorismo que ainda cheira a revolução industrial, e mantém uma cegueira mais um menos proeminente em relação aos extintivos satélites terrenos do socialismo real, fictício ou sonhado.
Sobram o PAN e o regresso à defesa dos direitos dos animais, agora que os incêndios voltaram e os canis ilegais revelam, novamente, a falta de legislação consequente para quem maltrata animais de companhia. Mas também o CDS e uma nova investida nos valores da família tradicional, quando uma ministra do seu governo subscreve a linguagem neutra em termos de «pessoas que menstruam», levando a que deputados do PSD e o executivo entrem em conversas azedas através dos jornais, o que até acaba por ser positivo: pouco unanimismo, muita discussão e alguma dose de modernidade à mistura, num governo que muitos apelidaram de dado ao conservadorismo mais inquietante. Veremos.
O verão está a acabar.

Fernando Marta

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