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“Atestando-se o efeito na saúde das nossas águas minerais, (…) é incontestável que teríamos melhores argumentos para captar o mercado do turismo de saúde e bem-estar…”

Luís Miguel Cordeiro afirma que “atestando-se o efeito na saúde das nossas águas minerais, são bastante evidentes as vantagens para a Região… É incontestável que teríamos melhores argumentos para captar o mercado do turismo de saúde e bem-estar, reposicionar as termas no mercado, e otimizar o funcionamento do serviço regional de saúde, com benefícios, não só para quem visita a Região, mas também para quem cá vive.” Realça que “não nos podemos ficar pelo simples orgulho de termos “um riquíssimo arsenal hidrológico” e de, por exemplo, as Furnas gozarem “do estatuto de maior hidrópole da Europa”. Há que investir nesse capital de turismo e de saúde e retirar dele os devidos dividendos.”
Luís Miguel Cordeiro nasceu em 1980, em Ponta Delgada, onde reside atualmente. Licenciado em Fisioterapia, pela Faculdade do Porto, e em Medicina Tradicional Chinesa, em Lisboa. Frequentou a Pós-Graduação Hidrologia e Climatologia, pela Universidade da Beira Interior UBI, Covilhã e, recentemente, o Curso de “Conhecimentos Essenciais de Turismo de Saúde e Bem-Estar” pela Associación Iberoamericana de Termalismo y Bienestar (AITB) (Madrid, Espanha). Dedica-se ao trabalho como Fisioterapeuta no Hospital do Divino Espirito Santo, EPE, Ponta Delgada.

Correio dos Açores – Qual a diferença entre a água dita normal e as águas termais?
Luís Miguel Cordeiro (Fisioterapeuta no Hospital do Divino Espírito Santo) – Em termos sucintos, a água termal e a mineral natural são diferentes da água comum, pelo facto de conterem concentração de sais minerais. Importa esclarecer que a água termal é a emergência de água subterrânea aquecida, seja pelo calor causado pelo gradiente geotérmico, seja por processos de vulcanismo. Já a água mineral natural ou mineromedicinal, é uma água que pode possuir propriedades terapêuticas, justamente determinadas pelas suas propriedades físico-químicas. Felizmente, nos Açores, dispomos de uma enorme diversidade de águas minerais naturais, pelo que apresentamos um grande potencial para o desenvolvimento da medicina termal.

Quais são os benefícios das águas mineromedicinais no nosso organismo?
São bastante amplos e incontestáveis os benefícios das águas mineromedicinais para a saúde. Têm, aliás, resultados comprovados no que respeita a um vasto leque de patologias que podem surgir em muitos dos órgãos e sistemas da anatomia humana. Por essa mesma razão, o tratamento com águas mineromedicinais é cada vez mais utilizado, devendo ser prescrito e gerido com o mesmo cuidado e rigor de quando se indicam ou contraindicam outros planos terapêuticos, em função do grau de necessidade e do historial clínico do utente.

O tratamento termal está indicado para que tipo de doenças?
As virtudes dos tratamentos termais residem não só nas ações terapêuticas das águas minerais naturais e nas diferentes técnicas que existem quanto à sua aplicação, mas também na mudança de ambiente e clima e na modificação do estilo de vida e regime alimentar. São fundamentalmente indicadas para patologias dos sistemas respiratório, digestivo e gastrointestinal, e em áreas como a reumatologia, traumatologia, neurologia e dermatologia.

Podem ter algum efeito nocivo na saúde?
Uma contraindicação, sob o ponto de vista do tratamento termal, resulta da leitura de que um agente terapêutico – qualquer que seja – é prejudicial a determinada doença ou estado patológico. Esse entendimento deriva sempre da correlação de três fatores: o agente terapêutico e suas características; a doença e suas manifestações; o paciente e a sua condição. Decompondo: todos sabemos que existem medicamentos especialmente indicados para dores de cabeça, mas se tivermos uma úlcera gástrica, não nos ocorre tomá-los. Do mesmo modo, existem águas que, se forem aplicadas de forma errada em determinada patologia ou certos estados de doença e pacientes, podem causar distúrbios ou agravar a sua condição clínica.

Há algum tipo de categorização médico-hidrológica para estas águas?
De uma forma geral, podem-se classificar como cloretadas, sulfatadas, bicarbonatadas, carbogasosas e ferruginosas. Entretanto, importa perceber que o estabelecimento das vocações/orientações terapêuticas das águas minerais naturais é um processo que é validado cientificamente ‘a posteriori’, visando conhecer as caraterísticas físico-químicas e biológicas dessas águas, investigar os mecanismos da sua ação terapêutica, comprovar a sua eficácia e otimizar as metodologias da sua aplicação.
Na Região, as águas qualificadas como minerais naturais, ao abrigo da legislação em vigor, são as do Carapacho, as do Varadouro, as das Quenturas e as da Ladeira da Velha.
A água da Ferraria está somente qualificada como recurso geotérmico devido à sua temperatura de emergência e depois existem outras águas que nos são familiares, como por exemplo, as das Furnas que têm apenas uso tradicional e empírico.
Lamentavelmente, continuam todas a aguardar a certificação legal. Como tal, as propriedades curativas destas águas não passam de uma informação e entendimento do domínio do senso comum.

Onde é indicado fazer tratamento termal nos Açores?
Neste momento nos Açores não há termas, existe sim banhos termais coletivos ao ar livre com caráter lúdico, utilizando águas minerais naturais para fins de relaxamento e lazer. As termas são instalações próprias, cujo potencial terapêutico pode e deve ser complementado com outras áreas médicas, como é o caso da fisioterapia. Com isto quero dizer que a presença de apoio médico é fundamental, assim como a aposta na diferenciação dos profissionais que trabalham na área, isto se a Região quiser apresentar os mesmos padrões de qualidade e grau de sucesso que se observam noutros países e que têm nas termas respostas concretas ao nível da saúde e do turismo. Este é o único caminho não descredibilizante para o arquipélago no que toca a esta matéria.
Contudo, devo referir que o INOVA, no âmbito do projeto TERMAZ, tem desenvolvido um papel muito importante e decisivo no sentido de confirmar que, nos Açores, existem águas minerais, lamas termais e ainda os efluentes das centrais geotérmicas, das quais, por exemplo, se poderá fazer uso para aplicações dermo-cosméticas, seguindo os bons exemplos da Islândia e da França.

Os tratamentos termais podem ser considerados um complemento dos tratamentos convencionais?
Sem dúvida. Como fisioterapeuta, vejo como uma mais-valia, do ponto de vista de saúde, associar às técnicas de fisioterapia outros mecanismos de ação através da água. Falo, essencialmente, dos fatores térmicos, dos fatores mecânicos (que não só facilitam a mobilidade em casos de debilidade, como também permitem a função articular sem sobrecarga) e dos fatores químicos, que, devido às propriedades mineromedicinais, vêm permitir uma maior eficácia no tratamento de diversas doenças crónicas e inúmeras perturbações funcionais. A fisioterapia é efetivamente uma das muitas áreas que, através do aproveitamento das propriedades terapêuticas da medicina termal, permite atuar na prevenção, no tratamento e potenciar a reabilitação de um conjunto amplo de patologias.

Fale-nos do seu estudo sobre as águas das nascentes dos Açores.
Selecionei duas águas termais das Furnas reconhecidas pelos seguintes usos tradicionais: a “Água Santa” – que, em mistura com mel e canela e uns goles de cachaça, constitui-se como um dos nossos xaropes ancestrais mais conhecidos para gripes, laringites e faringites – e a “Água da Morangueira – que, por ingestão, é indicada para o tratamento de doenças do fígado e rins. Procedi, depois, à classificação das respetivas águas minerais naturais no que refere à sua temperatura de emergência, acidez e composição química e comparei o uso tradicional da “Água Santa” e “Morangueira”, com as respetivas classificações e indicações terapêuticas propostas pela Direção Regional da Saúde.
Concluí que tendo em consideração a sua mineralização e a respetiva composição físico-química a “Água Santa” poderá vir a ser utilizada nas patologias do foro respiratório, confirmando os resultados descritos com o uso tradicional. Tomando em linha de conta que, na sua classificação, é também uma água sulfúrea, pude também comprovar resultados em algumas doenças dermatológicas, reumáticas e músculo-esqueléticas. No que concerne à água da “Morangueira”, confirmei também os resultados verificados na sabedoria popular, quanto ao tratamento de doenças do fígado e dos rins.

Teria interesse em prosseguir com o estudo?
Sim, seria interessante prosseguir com o estudo, selecionando outras águas (em boa verdade, a origem vulcânica dos Açores explica a existência de maciços de quase todos os tipos, logo a abundância e a diversidade das águas minerais). Tenho de realçar que, havendo condições económicas para investigar, ou justificação para explorar o manancial hidromineral disponível, as águas termais poderão vir a ser classificadas como recursos hidrogeológicos, posteriormente como águas minerais naturais e, estas, depois de estudos médicos-hidrológicos, como águas minerais naturais com efeitos na saúde.
Creio, aliás, que deveria existir um investimento claro e consistente por parte das entidades governamentais no sentido de promover o aprofundamento de estudos científicos e médicos hidrológicos nesta área. Atestando-se o efeito na saúde das nossas águas minerais, são bastante evidentes as vantagens para a Região… É incontestável que teríamos melhores argumentos para captar o mercado do turismo de saúde e bem-estar, reposicionar as termas no mercado, e otimizar o funcionamento do serviço regional de saúde, com benefícios, não só para quem visita a Região, mas também para quem cá vive.
Urge, de resto, avançar com os procedimentos necessários para afirmar a Região Autónoma dos Açores como detentora de uma rede de águas medicinais de elevado e diversificado valor terapêutico, de modo a captar mais e melhor investimento para o termalismo, nas vertentes modernas de prevenção e cura.
Não nos podemos ficar pelo simples orgulho de termos “um riquíssimo arsenal hidrológico” e de, por exemplo, as Furnas gozarem “do estatuto de maior hidrópole da Europa”. Há que investir nesse capital de turismo e de saúde e retirar dele os devidos dividendos.

Este tipo de tratamento tem comparticipação do Sistema Nacional de Saúde?
O valor da comparticipação do Estado é de 35% do preço dos tratamentos termais, com o limite de 95 euros por conjunto de tratamentos termais, e por utente. A comparticipação abrange o conjunto de atos e técnicas que compõem cada cura termal, com duração entre 12 e 21 dias, e nos termos do plano de tratamentos definido pelo médico hidrologista. Nos Açores, o reembolso dos tratamentos termais está definido na Portaria nº 52/2014 de 30 de julho de 2014, que define que o número máximo de atos reembolsáveis, num período de 12 meses, por utente, é de 40 (aplicável somente a 3 itens – banhos de imersão, banhos de vapor e duche-massagem tipo Vichy).
Por seu turno, em França, os tratamentos termais são reembolsados em 65% e, em Espanha, temos o exemplo de sucesso de um programa que oferece tratamentos termais aos pensionistas do sistema da segurança social a preços reduzidos.Trata-se de um programa consolidado com resultados comprovados em termos de saúde e que soma mais de trinta anos de desenvolvimento.
Para além de que, desde que se iniciou, trouxe benefícios para todo o sector turístico, esbatendo a respetiva sazonalidade e, com isso, gerando emprego e atividade económica. Este serviço caracteriza-se por uma gestão mista público-privada e considero que poderia ser um modelo adotado e adaptado ao contexto específico da Região.

Os “poderes curativos” das águas termais são conhecidos pelos açorianos desde os tempos do Povoamento…
A utilização com finalidades terapêuticas das águas minerais das nascentes das Furnas, remonta, de facto, aos primórdios do povoamento da ilha de São Miguel. As virtudes curativas dessas águas foram-se tornando cada vez mais procuradas pela população ao longo dos anos, dando origem à construção de vários balneários. Mas a época de ouro dos balneários estava por chegar e começou em finais do século XVIII, alcançando o máximo esplendor a partir da segunda metade do século XIX e até às primeiras décadas do século XX. Vários acontecimentos marcaram esta época, nomeadamente a chegada de Thomas Hickling e o início da construção da casa e jardim do tanque Terra Nostra em 1770, a construção dos banhos novos em 1863 – um moderno edifício destinado à balneoterapia, onde durante anos as lamas e águas termais foram aplicadas no centro Termal do Balneário das Furnas, em tratamentos de patologias essencialmente ligadas ao foro reumatológico, músculo-esquelético e respiratório. Entretanto, estas práticas extinguiram-se.
A par da atividade médica, que passou a assistir regularmente aos tratamentos, dando-lhes uma orientação mais científica, também se começaram a fazer as análises químicas e a classificação das nascentes das águas minerais – saliento, pela sua importância, as realizadas, em 1872, por Ferdinand Fouqué, do Colégio de França, em 1912, pelo Professor Engenheiro Charles Lepierre e as protagonizadas, em 1954, pelo Engenheiro António Herculano de Carvalho. Em 1930, vários hidrologistas internacionais pronunciaram-se sobre as Furnas. A grande percentagem de resultados favoráveis registados atestou a crenoterapia (tratamento feito através de ingestão e banho de águas minerais) nas Furnas. Contudo concluíram sempre que eram necessários estudos médicos hidrológicos que permitam conhecer melhor estes recursos com que a natureza nos dotou.
Uma história mais recente aconteceu com um dos meus filhos que tinha conjuntivites recorrentes e que, depois de um episódio muito persistente e após recorrer a vários tratamentos convencionais tradicionalmente prescritos, sem resultado no caso em particular, a pediatria prescreveu-me surpreendentemente lavar os olhos com uma água termal específica e o resultado foi surpreendentemente eficaz.
Neusa Almeida

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