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A Levada – XV

Os sismos e as erupções vulcânicas do Verão de 1563 e a inundação do Inverno, devastaram a Ribeira Grande. Destruídos os moinhos da ribeira Grande, a Vila foi moer aos moinhos da ribeirinha. Era uma solução provisória, pois, esses moinhos eram fracos. Assim como abastecer de futuro a Vila? Ou a Cidade de Ponta Delgada? O mais rico mercado dos moinhos do Capitão. Ter-se-ia (obviamente) de encontrar sem perda de tempo uma solução permanente (e capaz). Em 1565, chega à Ilha o dono dos cinco moinhos arrasados da ribeira Grande. Confrontado com a alteração radical que a ribeira (e as suas margens) sofrera, D. Manuel da Câmara optou por construir uma levada fora das margens da ribeira Grande. Construída de raiz ou adaptando regos de água que já existissem? Dos regos que regavam as quintas? Não sei. Fosse qual fosse a opção, que bem pode ter incluído regos e novas valas, é provável que seguisse o modelo das levadas madeirenses. A origem madeirense do capitão (e da sua família) leva-nos a essa suspeita. A levada (em causa) é uma vala artificial, rasgada terra dentro, com pouca ou nenhuma pedreira, construída a uma distância (tida como) segura da ribeira. A solução provou ser boa, pois, como se tem verificado ao longo de mais de quatro séculos, tem protegido os seus moinhos. Quando se começou a construir a levada? Dado a urgência, talvez ainda em 1564, ano em que os moinhos (junto à ribeira) foram destruídos. O capitão poderá ter enviado de Lisboa instruções nesse sentido. Ou em 1565, quando já estava a Ilha. Depois de 1564/65 e antes de 1573, – ano em que regressou a Lisboa, poderia já haver mais do que um moinho na nova levada. Embora possam ser boas hipóteses, a primeira prova documental data de 1578. A levada, cuja extensão actual rondará os 2.500 metros, criou riqueza a 15 moinhos, a uma fábrica setecentista de ‘panos de lã e (…) de meias de tear,’ a uma fábrica de fibra de espadana (já no século XX), a uma de licores, a dúzias de quintas e de pomares. Havia um agueiro que corria as suas margens (servidões) – hoje (em parte) usurpadas pelas casas que a confrontam. Limpava o que pudesse ‘entupir’ os cubos e os caboucos dos moinhos, ainda não se prestava atenção à matéria microbiológica e distribuía a água pelas quintas (fonte de rendimento).
Uma pitada de História da levada para não asneirar (assim tanto) no futuro? O livro de actas de 1578, o primeiro sobrevivente depois do de 1555, o mais antigo dos Açores, dá-nos conta da existência de sete moinhos na levada. Frutuoso, talvez na década seguinte, contabiliza menos um: ‘leva dentro de si seis moinhos.’ Apesar de serem seis, eram ‘cada um de duas pedras,’ e os ‘melhores e que melhor moem que todos os da ilha e Portugal (…).’ Voltando às actas de 1578: moeriam os sete moinhos só cereais? Estariam todos na nova levada? Dois eram conhecidos pelo nome do local: ‘Praia e rua do Alegrete.’ Os dois seguintes, adoptaram nomes que se relacionam com os dois primeiros: ‘Novo e o de Cima.’ Onde ficaria o moinho de Cima? Já seria o moinho da Palha? Os três restantes referem-se a nomes de pessoas: ‘Francisco Ferreira, Miguel Fernandes e Simão Gonçalves.’ Quem seriam eles? Onde ficaria a ‘mão’ (represa) desses (6 e 7) moinhos quinhentistas? Olhando para o que hoje se vê por ali, mas descontando as muitas alterações sofridas (algumas bem drásticas) no leito e margens da ribeira (conforme nos autorizam os relatos das cheias de 1563/4, 1667, 1848, 1895 e 1919), há a possibilidade (simplesmente uma hipótese) dessa ‘mão’ ter ficado algures em espaço à volta do poço da Mãe (até pela origem possível do nome) ou ainda em local um pouco mais abaixo. Ou seja, muito abaixo do Anel actual. Já em 1645/6, o florentino Frei Diogo das Chagas, que andou pela Ribeira Grande, situa a levada mais acima: ‘Pelo meio da outra parte da Vila que fica para a parte Poente corre a levada dos moinhos que se toma ao alto e princípio do cerro, que vai para o sertão da mesma ribeira e outras águas, que trazido por seus vales por terras e cerrados entra na vila por esta parte, e fendendo pelo meio se vai meter ao mar, na qual estão seis moinhos.’ Para Frei Agostinho de Monte Alverne (‘fuseiro’ que por aquela mesma altura, andaria por ali) a levada ficava (muito normalmente) por ali ‘onde hoje se vêem [os moinhos].’ Era tão normal estar ali, que em 1699 serviu (como ainda hoje serve) de divisão entre as freguesias de Nossa Senhora da Conceição e a de Nossa Senhora da Estrela: ‘(…) partindo da levada dos moinhos para a parte do poente (…).’ Nessa altura (voltando a Frei Diogo das Chagas e segundo ele) havia seis moinhos na levada. Em inícios do século XVIII, o conde constrói (muita certamente com água da levada) a sua fábrica de panos. Terá a construção obrigado a reajustes a montante na levada? Não sei. No que toca a moinhos, o já então Conde era ainda rei e senhor, porém, a Carta Régia de 15 Setembro de 1766, dirigida a D. Antão de Almada (Capitão e General das Ilhas) iria (começar a) abalar a sua posição dominante. Iria doravante permitir aos donos de ‘águas particulares’ – em querendo -, que as usassem para levantarem (construírem) ‘moinhos.’ O Conde vai (então) ter de defender (com tudo o que está ao seu alcance) o que lhe resta: a levada. São muitas as demandas. Em 1769, uma acta da vereação da Ribeira Grande identifica (como moinhos da Vila, acho que se refere aos da levada) não os seis que Diogo Chaga indicara (sem os identificar) mas cinco (cremos ser ainda todos do Conde). O Conde (pelo que me é dado saber) vai-se aguentando (geralmente bem) até 1821. Nesse preciso ano, porém, são abolidos os Direitos Banais: mais um rombo no monopólio multissecular (da vala) do Conde. Três séculos e meio depois de os moinhos terem (por precaução) sido mudados para a levada, talvez ainda nessa mesma década de vinte, são construídos novamente moinhos nas margens da ribeira Grande. O Conde dispunha ainda de uma cartada importante: dele dependia ir mais ou menos água para a ribeira. Daí as muitas guerras do Anel (bitola de água à entrada da levada) que se seguirão. Escapando de forma ‘esperta’ às disputas, talvez ainda na década de vinte, um deles, pelo menos, particulares levantam dois moinhos acima da mão da levada do Conde. Sem desistir, na sua tentativa (que provaria ser inglória) de impedir o aparecimento de novos moinhos, o Conde continuará a recorrer, por mais duas décadas, a expedientes legais e a outros estratagemas. Mexer na bitola de entrada da água (no Anel) de modo a ir menos água para a ribeira, foi o expediente que acabaria por ser contrariado (sobretudo pela Câmara). Os proprietários dos novos moinhos da ribeira e as lavadeiras que usam a água da ribeira, queixam-se da ‘falta de água (…) por ocasião da usurpação que dela fazem os rendeiros dos moinhos do Conde.’ Tomando partido pelos queixosos, a Câmara manda ‘construir um ladrilho por debaixo do anel estabelecido na levada do referido Conde (…).’ É a guerra total do Anel. O Conde reage de pronto, o Juiz de Direito, dando-lhe razão, manda repor a bitola do anel. A Câmara contra-ataca (sempre). Uma outra forma de o Conde tentar vencer a concorrência dos moinhos da ribeira, foi o de ele próprio construir um moinho na ribeira (ou teria apenas recuperado um que fora destruído em 1563/4?). O moinho do Açougue (com os seus soberbos cubos e situado junto ao coração da terra) acabou por ser o melhor moinho da ribeira. Mesmo assim, o Conde iria perder a guerra com a Lei de 22 de Fevereiro de 1846. Que declarava (mais uma vez) abolidos todos os Direitos Banais. A década de cinquenta prova a perda do controle do Conde sobre a levada: uns atrás dos outros são construídos moinhos particulares na própria levada do Conde. Em 1852, Manuel Pedro de Melo e Silva está a construir um moinho (o do Félix). Em 1855, a 19 de Março, ‘Jacinto Inácio Ferreira – Matriz – Pedindo licença para edificar 3 moinhos de água na casa que possui na rua do Vale desta vila – Diferido.’ Em Maio deste mesmo ano, ‘Manuel da Silva Peixoto e António Pacheco Alfinete – Conceição – pedindo licença para moerem seus moinhos – Diferido.’ Antes de 1880, fora a vez do primeiro moinho a contar de cima.
O número de moinhos na vala da Condessa (e de mós) foi variando. Em 1880, havia já treze. Entre 1919 e 1935, 15: o máximo que atingiria (e de mós). Porém, entre 1966 e 1971, perderia à volta de 35% dos moinhos. Em 1986, ainda resistiam nove, em 1997, cinco. Em 2014, morre o moleiro a mais inovador: Carlos Silva (conhecido por Carlinhos Correia). O seu moinho do Outeiro, no entanto, não deixou de moer. Armindo Silva, Jantarinho, aparentado com Carlos Silva, ainda mói (um ou dois dias por semana). Armindo Vitória, tal como os Silva, descendente de uma antiga estirpe de moleiros, tendo deixado de moer em 2018 no moinho da Praia, tem moído desde 2017 no moinho do Vale (entretanto, transformado em espaço museológico).
Como se vê, a levada (e os moinhos) teimam em não morrer. Abandonada, continua a ser uma das causas da poluição que apoquenta o Monte Verde (e a Cidade). Faz 38 anos em Novembro que percorri a levada do Anel ao Monte Verde, então testemunhei uma verdadeira catástrofe ambiental. E hoje? Mesmo sem voltar a calçar botas de cano, quero crer que a situação (ainda que não – como se sabe -, erradicada) esteja muito distante da de 1986. De quem é a levada? Dos moinhos. E de quem depende a levada? Em 1986, Óscar Vitória (pai do Armindo), disse-me: ‘Antes desse Governo Regional de agora, era a Junta Geral. Hoje não se sabe quem manda na levada, se a Direcção dos Serviços Hidráulicos da S. R. E. S, se a Câmara Municipal.’ E antes? ‘Até há pouco tempo (cerca de 20 anos, talvez menos), era a Câmara que ‘arranjava’ um homem que tomava conta das valas da Condessa – o Ti Baganha foi o último -, cobrava renda da água da rega e aferia pesos e medidas.’ Que fazer à levada? Para uns, a solução ideal seria acabar com ela: ‘tapar o anel na Longaia.’ Ou ‘desviar a sua água para a ribeira.’ Não seria piorar os problemas da ribeira Grande? Pergunto. Outros: ‘a água da levada deve ser tratada antes de chegar ao mar no Monte Verde.’ Isso já seria outra música. Outros: deveria obrigar-se algumas (poucas, felizmente) casas (renitentes) a se ligarem à rede pública de saneamento básico (ou a melhorarem as suas fossas). Acima de tudo, trate-se com dignidade aquela levada com mais de quatro séculos e meio de História partilhada entre a Ribeira Grande e Ponta Delgada. Lanço um repto: essas duas cidades, mais as duas freguesias centrais da Cidade da Ribeira Grande que a partilham, devem exigir (à autarquia e ao governo): a sua vigilância, integridade, limpeza e restauro. Se na década de sessenta (do século passado) a Câmara atribuiu o nome dos Condes à antiga canada do Moinho da Palha, por que não a classificar de Bem de Interesse Municipal (pelo menos)?

Mário Moura

Miradouro de Santa Pachorra (com vista para a levada) – Cidade da Ribeira Grande

(continua)

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