“(…) Este pequeno livro foi, porventura, de tudo o que escrevi, o que mais prazer me deu.
Trouxe-me à memória toda a minha infância, passada na Manhenha, na adega da Funcheira, junto ao porto.
A família, os amigos, o mar, os cheiros, os ruídos, sim os ruídos; o chiar madrugador das quilhas nos parais ao arriar dos barcos. Cada companha ao seu.
O meu avô e o seu ESPÍRITO SANTO; o meu pai, os meus tios, o tio avô Manuel do Agustinho e o seu AGUSTINHO; o Mestre José Raulino e o seu IDALMIRO; o mestre Eduíno Polcena e o seu LINA; O MESTRE Manuel Polcena e o seu MEDEIROS, com o infalível José da Florinda no leito da popa.
E o meu avô, nas noites de inverno a chamar, “Lizuarte, mexe-te, já tenho comigo a tarrafa”
A casa dos botes e as duas velhas canoas onde, como imaginam, nós miúdos, muito baleamos.
A distância à escola; caminhada que em dias de invernia era um tormento, com a minha irmã, a Rosa do Azevedo, o Ernesto do mestre Eduíno e o Lizuarte do Manuel Polcena, os dois últimos já falecidos.
Sacola dos livros numa mão e cabaz de vimes com o almoço na outra. Almoço pobre e por isso compensado com um pequeno almoço, preparado pela mãe, de peixe de congro frito e batatas doces assadas no forno.
Os meus tios Manuel Albino e João Herberto a trazer o leite aos sobrinhos, das suas vacas, com o João a não resistir a apanhar uma moiras e 2 ou 3 vejas e, embora rápido que manhã cedo há mais vacas para ordenhar.
Sempre atento às conversas com os mais velhos, mais ouvidas que participadas, sim porque o respeito não podia faltar.
Os lobos do mar da Manhenha e da pesca dos chernes, dos lírios e dos bonitos na Ponta da Ilha, com quem dei os primeiros passos. Pé dentro pé fora da canoa do isco do meu avô que mansamente, ele ou o meu pai, avisavam, “não me mates a isca rapaz”.
Sobre baleias e a baleação as conversas eram poucas. Havia que aproveitar, as passagens no Verão pela Manhenha do Mestres João Silveira Furtado e Manuel Pereira Monteiro Júnior e, ainda, puxar pela língua ao amigo Henrique da Nazaré.
Quantas saudades!
Obrigado por me indicarem o caminho! Fiz o meu melhor. Terá sido certamente pouco. Paciência, é a vida! (…)
Citando um dos poemas de 1939, de Cecília Meireles, “para que o esquecimento não apague a memória”, diria que esse é o objetivo do livro “A PIEDADE E A BALEAÇÃO”.
Não sou um escritor nem tenho essa pretensão. Na sua génese, todos os meus livros buscam o ângulo morto, aquele que ninguém vê ou quer ver.
São, pois, uma tentativa, por ventura inglória, de ligar o passado ao presente, quebrando os grilhões do tempo, com a certeza de que cada final é um novo começo e de que as memórias fazem de nós o que somos.
E, como cada peixe cresce conforme o seu lago, sendo, na escrita, o meu lago muito, muito pequeno, os meus livros ficam-se por aquilo que são, sem qualquer pretensão adicional.
Repito, não sou um escritor; escrevo o que me é possível, sobre a nossa terra, as nossas gentes e as suas diversas vidas, numa tentativa, eventualmente vã, de aceitar o que não posso mudar e de mudar o que não posso aceitar. Por vezes, e quantas vezes, incomodo. Também isso é a vida. Como diz o nosso povo, “amanhem-se”.
Porque a escuridão vem sempre antes da alvorada, sigo e persigo a alvorada. A alvorada dos simples. Simples como os homens de que “A PIEDADE E A BALEAÇÃO” fala.
Simples, mas, de uma simplicidade que contrasta com a grandeza do seu espírito e da sua imensa nobreza de carácter. Homens que, tal como o mar, falam com a alma.
Assiste-nos o dever e a obrigação de não permitir que as suas memórias se percam.
Pese embora reconhecendo as imensas imperfeições dos meus livros, decido sempre seguir em frente porque é com as decisões que tomo que amadureço e, bem ou mal, mas nunca calado, dou voz àqueles que a não têm ou que apenas a tiveram no punho de um remo.
Homens que, depois de tanta tempestade enfrentada, tal como eu, não se molham com um simples chuvisco. A sua marca de água é impressiva, objetiva e determinada.
Esta simples, demasiado simples, homenagem aos homens do mar que balearam na Piedade, tendo como objetivo último homenagear os baleeiros da terra e os que nela se fixaram e constituíram família, começa muitos antes de eles próprios serem baleeiros.
Começa no início do século XX, quando ali aportaram os primeiros baleeiros vindos das Lajes do Pico. A estes seguiram-se os das Ribeiras e, a estes, os da Calheta do Nesquim.
Para além dos baleeiros destes portos referenciados em “A PIEDADE E A BALEAÇÃO”, muitos outros houve que balearam na Manhenha e dos quais não há registo ou memória.
Com uns e outros, iniciaram-se nestas lides os baleeiros da Piedade.
Não tendo a baleação na Piedade sido uma atividade economicamente relevante, ao pôr pão na mesa de algumas famílias, não deixou de ser socialmente relevante.
Sem esquecer os vigias, podemos falar de quinze baleeiros da Piedade, treze lá nascidos e dois que lá fixaram residência e constituíram família.
Destes quinze, seis são familiares de sangue e um, o Senhor Henrique da Nazaré, de coração.
Curiosamente, eu e a minha irmã somos os únicos que reúnem a condição de, na Piedade, termos mais familiares baleeiros, seis. Cinco da linha paterna, incluindo o nosso avô, Mestre Leonardo Augustinho Machado, e um da linha materna.
Também somos os únicos que, na Piedade, temos na família um Oficial Baleeiro, o único natural da Piedade, o tio avô Manuel Augusto dos Santos, e dois trancadores, o tio avô Manuel Vitorino Machado e o primo paterno em segundo grau, Manuel Augusto Machado.
Um livro simples, como constatam escrito por um simples homem do mar, na tentativa de homenagear e de tentar que não se percam as memórias de outros homens do mar, do nosso mar.”
Lajes do Pico, 23 de Agosto de 2024
Comandante Lizuarte Machado
*Excertos da apresentação pelo autor do livro ‘A PIEDADE E A BALEAÇÃO’
