Na Vila Franca do Campo, há uma equipa que está a realizar prospeções arqueológicas, com o objectivo de localizar evidências da existência dos engenhos de açúcar, sendo que afirmam que “a ilha de São Miguel teve também um papel relevante nesta produção no século XVI”. Este projecto tem sido desenvolvido por N’Zinga Oliveira, do Museu Municipal de Vila Franca do Campo; João Gonçalves Araújo, do CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores, e André Teixeira, do CHAM e Departamento de História, FCSH, Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores. Em declarações ao jornal, N’Zinga Oliveira, João Gonçalves Araújo e André Teixeira afirmam que é “importante sublinhar e valorizar o importante património cultural, arquitectónico e arqueológico, tanto nos seus núcleos urbanos, como em espaço rural”.
Correio dos Açores – Qual é a importância do Museu Municipal de Vila Franca do Campo para o concelho?
N’Zinga Oliveira, João Gonçalves Araújo e André Teixeira – Enquanto organismo científico-cultural, direccionado sobretudo para a arqueologia e a etnografia açoriana, este museu assume a missão de investigar, preservar e divulgar o património cultural local.
O Museu Municipal é composto por um edifício-sede com exposições permanentes de Arqueologia, Viola da Terra e Cerâmica da Vila, além de ter outras peças determinantes da etnografia local. Ainda fazem parte deste museu, o núcleo das olarias de São Pedro, o núcleo museológico da hidroelétrica de Água d’ Alto e o núcleo museológico da moagem da Ribeira Seca.
Quais são os trabalhos que estão igualmente a ser desenvolvidos pelo Museu Municipal de Vila Franca do Campo?
Entre exposições temporárias, visitas guiadas, oficinas pedagógicas e criativas, conferências e projetos científicos, o museu tem desenvolvido atividades com e sem parcerias, que promovem o património cultural, material e imaterial do concelho.
O Museu Municipal de Vila Franca do Campo está a colaborar com o projecto «CERIBAM – Arqueologia e Arqueometria da expansão atlântica-ibérica no Norte de África e nas ilhas da Macaronésia (séculos XV-XVI): cerâmica, povoamento e comércio». Este é liderado pela Universidade do País Basco, através do grupo GPAC, e envolve professores da Universidade Nova de Lisboa, da Universidade dos Açores e da Universidade de Coimbra. Pretende dar um contributo para o estudo do início da expansão portuguesa e espanhola através da arqueologia, nomeadamente através da investigação sobre cerâmicas.
Neste âmbito está a ser desenvolvida uma tese de doutoramento sobre a cerâmica açoriana, por João Gonçalves Araújo, um investigador micaelense do CHAM, unidade de investigação da Universidade dos Açores e da Universidade Nova de Lisboa. Para já estão a ser estudadas cerâmicas encontradas em escavações arqueológicas realizadas no âmbito de obras em Ponta Delgada, bem como o acervo do Museu de Vila Franca do Campo, obtido nas escavações de 2015-2016. Além do inventário, desenho e registo das peças estão a ser feitas análises arqueométricas, com vista à caracterização das técnicas e origem das produções.
O Museu Municipal de Vila Franca do Campo está a trabalhar na prospeção de engenhos de açúcar ao qual Gaspar Frutuoso refere nas ‘Saudades da Terra’. Qual o ponto da situação dos trabalhos e que resultados alcançaram? Pode desenvolver o tema?
No âmbito desse mesmo projecto, a equipa está a realizar prospeções arqueológicas em várias freguesias do concelho de Vila Franca do Campo, com o objectivo de localizar evidências da existência dos engenhos de açúcar. Nem sempre se associa o arquipélago dos Açores ao início do cultivo da cana-de-açúcar no espaço atlântico no âmbito da expansão marítima portuguesa, mas a verdade é que, embora depois e sem atingir os níveis de produção da Madeira, a ilha de São Miguel teve também um papel relevante nesta produção no século XVI. Gaspar Frutuoso menciona a existência de engenhos em várias ribeiras da ilha, com destaque para a de Água d’Alto com quatro engenhos a laborar ao longo do seu curso. Estamos ainda nos primeiros dias de trabalho, mas já encontrámos alguns indícios relacionados com esta realidade.
Estes engenhos que características têm e qual sua utilidade no passado?
É importante sublinhar que no século XVI o açúcar tinha um enorme valor económico, atingindo preços elevadíssimos na Europa. Era um bem raro e muito procurado pois era visto como tendo propriedades curativas. Hoje associamos o açúcar a doenças porque o consumimos em grande quantidade, mas em séculos passados, onde a maioria da população tinha uma dieta alimentar pobre, ele estava associado à saúde e à recuperação de doenças, nomeadamente era usado em conservas de fruta, com vitaminas. Algumas pessoas mais velhas ainda terão memória disto…
Portanto, o açúcar acabou por ser um dos grandes motores económicos da expansão portuguesa no Atlântico, mas também espanhola e, mais tarde, de outros países europeus. Nas ilhas, sobretudo a Madeira e São Tomé e Príncipe, mas também os Açores, Canárias e mesmo Cabo Verde, foi experimentado o sistema de produção que depois foi muito largamente expandido no Brasil.
Sucede que para se extrair o açúcar das canas, elas têm que ser espremidas logo após serem cortadas. Portanto, não se pode plantar as canas nas ilhas e levá-las para outro local para produzir o açúcar. Este tem que ser produzido nos próprios locais de plantação. Esta produção obrigava a vários processos, além da própria moagem das canas, como a cozedura do suco ou a purga, para se separar o pão-de-açúcar do melaço. Enfim, todos estes processos levaram à instalação nas ilhas, e depois no Brasil, de engenhos. Em muitos casos, o desbravamento de terras e a implantação rural fez-se em torno destes engenhos, pelo que eles tiveram enorme importância no povoamento.
Sentem que os açorianos estão cada vez sensibilizados pelos trabalhos arqueólogos?
Julgamos que é importante realizar estes trabalhos para sensibilizar cada vez mais os açorianos para o enorme valor do seu património arqueológico. Muitas vezes se considera, por comparação com o continente, que os Açores têm pouco património arqueológico, mas isso não é verdade. O arquipélago podia mesmo constituir-se como uma referência em Portugal no estudo da época moderna em termos arqueológicos, como aliás já foi defendido para a Madeira.
Querem acrescentar alguma informação no âmbito desta entrevista?
Os Açores são hoje considerados internacionalmente como um espaço com um extraordinário património natural. Mas seria importante sublinhar e valorizar o importante património cultural, arquitectónico e arqueológico, tanto nos seus núcleos urbanos, como em espaço rural. Note-se que este projecto está a trabalhar tanto com materiais resultantes de obras nos centros históricos das cidades – razão porque é importante existirem sempre os devidos acompanhamentos dos trabalhos de reabilitação –, mas também em valores existentes no espaço rural.
Filipe Torres
