O Presidente da Associação Agrícola de São Miguel, Jorge Rita, afirmou ontem que, num futuro próximo, não se sabe ao certo se o milho forrageiro “não terá de sofrer alguma mutação genética” para semear nos Açores e suportar as alterações climáticas que, este ano, originou uma seca no Verão depois de chuvas torrenciais no Inverno passado.
Isto é “algo que fica como reflexão. Não sou daqueles que não vê o futuro de uma forma diferente, mas também temos de assegurar a sustentabilidade e a biodiversidade nos Açores. Desde que isso fique assegurado, obviamente que a mim não me constrange termos produtos geneticamente modificados nas sementeiras de milho”, afirmou Jorge Rita.
A uma questão dos jornalistas, no campo de ensaio de 15 variedades de milho forrageiro, o Presidente da Associação Agrícola começou por constar que “não são permitidas as sementeiras de milho geneticamente modificado” na Região, apesar de “em todo o mundo já começarem a existir.”
“Na Europa há algumas resistências, só alguns milhos é que são permitidos terem mutação. Começamos a perceber que muitos países já o fazem, aliás fazem na soja e em outros produtos quer na alimentação humana quer na animal, mas claramente não é permitida ainda nos Açores,” referiu.
“Isto não quer dizer”, prosseguiu, que, “salvaguardando todas as questões de saúde, que os produtos geneticamente modificados não possam ser uma hipótese” como solução para os efeitos das alterações climáticas. Isto “é algo que, depois alguém há-de provar, se faz bem ou faz mal (uma coisa nem só faz bem nem só faz mal, há sempre os dois lados).”
Ventura: “A Europa
não permite OGM…” mas…
O Secretário da Agricultura e Alimentação, António Ventura, não exclui que, no futuro, se tenha de enveredar por milho geneticamente modificado para fazer face aos efeitos das alterações climáticas mas afasta este cenário no imediato. “Nós somos uma Região livre da produção e transformação desses organismos. A Europa não tem permitido, de facto, em larga escala, embora vá permitindo alguma variedade de milho. Esta é uma discussão, um debate que pode ser feito na sociedade açoriana se efectivamente é necessário, ou não, enveredar para a existência desses elementos,” disse.
O governante deixou claro que os Açores “têm de ter plantas ajustadas” aos efeitos das alterações climáticas. Falou do exemplo das Fajãs de São Jorge onde algumas agro-produções “são já de plantas ajustadas naturalmente e de combate às alterações climáticas.”
Como disse, “nós temos uma agricultura muito natural. É uma agricultura atlântica, que tem uma influência atlântica e dos solos vulcânicos. Não temos a introdução de laboratório, nem de geneticamente de laboratório na nossa agricultura.”
Mas, completou, “temos de ir pesando ao longo dos tempos e ir verificando qual é o maior benefício. Se é existir alimento ou não existir alimento, tendo em conta a imprevisibilidade do clima. É disto que estamos a falar. O clima tem imponderáveis para quem produz alimentos. Quando colher e quando semear, já não existem os ciclos tão vincados como existiam antigamente.”
A evolução do
campo de ensaio
O Presidente da Associação Agrícola de São Miguel realçou, na altura, que o campo de ensaio de milho forrageiro em Santana “vai de encontro aquilo que é uma expectativa que os agricultores têm de inovar. Os campos de ensaio servem, precisamente, para se mostrar aquilo que se tem de novo e o que se pode fazer para melhorar a nível de produções,” reforçou.
Jorge Rita realçou que, atendendo que as alterações climáticas “não são só para os outros, também são para nós, temos de estar muito atentos a estas mudanças. Se formos a ver os campos aqui na zona, a maior parte já está seco e este milho, aqui, mantém-se com uma grande pujança em termos de verde. Cá está demonstrado, precisamente, que este milho pode servir para as alterações climáticas.”
“Não é só para nós o trabalho que temos feito e que ainda temos de fazer, mas também para a comunidade científica e para o Governo Regional. E a comunidade científica tem que fazer com as associações e com o Governo Regional, cada vez mais, uma aposta em novas sementes para que elas próprias sejam mais resistentes, essencialmente à seca pois não sabemos o que irá acontecer nos próximos tempos,” disse.
“Não temos água armazenada para fazer rega e senão tivermos sementes adaptadas às alterações climáticas, vamos ter uma situação gravíssima com rotura de alimentos para o futuro. E, claramente, esses campos de ensaio servem para provar a excelente qualidade do milho forrageiro e a importância que tem na alimentação dos animais no seu dia-a-dia. E quanto mais e melhor produzimos milho forrageiro na Região, mais auto-suficientes somos na alimentação da nossa pecuária e isto para nós é indispensável”, palavras de Jorge Rita.
Quando questionado sobre se será necessário um aumento do apoio governamental para as sementes, o presidente da Associação Agrícola concordou que deverá ser necessário “haver um reforço do apoio para as sementes, já no próximo ano, para que os agricultores continuem a produzir cada vez mais milho nos Açores. Estamos a falar de 86 mil alqueires de terra de milho forrageiro que se semeia nos Açores. O custo, só para o produtor, só da sementeira, é de mais de 20 milhões de euros. Se falarmos de valores comerciais na Região, embora se tenha mais algumas despesas associadas como o picar o milho e o armazenamento, estamos a falar de perto de 40 milhões de euros. São números que, por si, já dizem muita coisa. É uma produção de excelência, que é acarinhada pelo Governo Regional mas que se calhar ainda tem de ser mais acarinhada,” concluiu.
Outra das questões suscitadas foi a evolução do campo de ensaio de milho forrageiro e Jorge Rita respondeu que a monitorização dos milhos está a ser feita com algumas universidades ao nível das análises. “Todo o milho que é produzido é sempre analisado depois. Da análise determina-se o que pode potenciar na alimentação dos animais na área do leite ou na área da carne. “É indispensável termos o aporte cientifico para, depois, garantirmos ao produtor que o milho A,B,C, uma vez que temos aqui 15 variedades de milho com várias estações, ou seja, há milhos de ciclo curto que podem chegar aos 90 dias, mas há milhos de ciclo longo que podem chegar aos 120 dias, e estes milhos estão adaptados à nossa ilha, e se calhar à maior parte das outras ilhas também,” salientou.
Ventura elogia trabalho
da Associação Agrícola
No entender do Secretário da Agricultura e Alimentação, a Associação Agrícola de São Miguel “faz um trabalho exemplar e necessário e é um seguro, uma garantia naquilo que é o rendimento do produtor. Porque, efectivamente, estamos a falar da obtenção da principal energia para a pecuária nos Açores, em especial a bovinicultura de leite e de carne. Sem esta planta, o milho, que é uma planta secular, não é possível ter-se energia local,”afirmou.
O governante considerou que milho “é a principal fonte de energia alimentar para os bovinos. Nesse sentido, este ano atingimos um novo recorde naquilo que é a área de milho nos Açores. São cerca de 14 mil hectares nos Açores. Isto é um progresso naquilo que é a independência da importação alimentar.”
Face à instabilidade mundial, “naturalmente que produzir alimentos locais, quer seja para a pecuária, quer sejam para os humanos, é um elemento de segurança no âmbito das disponibilidades alimentares. A maior riqueza dos Açores, em termos futuros, é ter esse crescimento auto-sustentável de produzir alimentos,” concluiu António Ventura.
Frederico Figueiredo
