Os artistas Elliot Sheedy e Sofia Caetano criaram uma experiência imersiva para um trilho de escoada lávica que encontraram na sua propriedade, na freguesia das Calhetas. Esta experiência está ligada à história e cultura açoriana, através do vídeo, da música, da instalação e da performance, e tem lugar todas as quintas-feiras ao pôr-do-sol, mas a localização exacta permanece segredo até que os participantes comprem o bilhete. O preço para residentes é de 30 euros e 45 para os restantes. Nesta entrevista, a artista açoriana Sofia Caetano, que viveu 17 anos fora, fala sobre a sua relação com a identidade açoriana e como a cultura da região pode e deve desempenhar um papel crucial no sector emergente do turismo, mas sem ceder inteiramente às suas exigências e preservando a autenticidade dos artistas locais.
Correio dos Açores – Como surgiu a ideia para criar uma experiência imersiva num trilho de escoada lávica? Qual foi a inspiração inicial?
Sofia Caetano (artista visual/ co-fundadora do projecto ‘Quimera’) – Quando vi este trilho pela primeira vez, estava coberto de vegetação, e eu e o Elliot Sheedy tivemos de o limpar, e fiquei muito intrigada sobre os segredos que poderia esconder. O que seria esta pedra coberta de branco que nos faz sentir que acabamos de aterrar na Lua? Que erupção teria criado esta escoada lávica? Seria recente, ou antiga? Quem teria criado estes trilhos e para que finalidade? Diria que a minha inspiração inicial foi mesmo a curiosidade em investigar o trilho e a sua relação com a história dos Açores. Vivi 17 anos fora, e, ao voltar, senti que queria reconectar-me com a identidade açoriana, e investigá-la.
Naturalmente, senti-me desafiada a pensar e desenvolver um projecto no percurso deste espaço peculiar, através das ferramentas que tenho vindo a explorar no meu trabalho. Há já alguns anos que o percurso que tenho vindo a desenvolver enquanto artista visual se centra na relação entre a instalação e a multimédia, apresentando projectos nos quais os espectadores se sentem imersos numa dimensão alternativa, proporcionada pela relação entre o vídeo, a música, e o som. Por vezes, também a pintura. Enquanto investigava sobre as particularidades do trilho, fui reunindo materiais e ideias para a materialização da Quimera.
Pode explicar-nos o conceito por detrás deste projecto?
Partimos de uma ideia de visita guiada. Uma visita guiada nocturna, através de uma caminhada num trilho muito especial, pois é uma escoada lávica. Liderados por uma guia, segue-se o percurso da caminhada, em que se veste um capacete com iluminação e headphones, e um manto para a chuva inspirado no Capote e Capelo, desenhado e criado pela designer açoriana Sara França. Abordam-se temas como as ciências naturais, a história e a cultura dos Açores. A experiência desenvolve-se através do vídeo, da performance, do som, da música ao vivo, e, também, da fruição do trilho.
A concentração terá lugar na freguesia das Calhetas, às quintas-feiras, ao pôr do sol, mas a localização exacta permanece secreta até à compra do bilhete. Quer explicar?
Nós não estamos abertos ao público enquanto espaço de visita, apenas apresentamos o projecto através de eventos às quintas-feiras, e, por isso, torna-se mais prático manter a nossa localização secreta, até porque gostamos de manter algum mistério.
Uma vez que a experiência pode ser feita em inglês ou em português, precisamos preparar antecipadamente os conteúdos tecnológicos consoante os participantes de cada evento e, por isso, a nossa venda de bilhetes é feita exclusivamente on-line, momento em que os participantes escolhem se querem a sua visita em inglês ou em português. Cada capacete tem a capacidade tecnológica de ter o som numa língua ou noutra e, portanto, podemos acomodar grupos mistos, em que alguns participantes escolhem o português e outros o inglês. Após a compra do bilhete, é enviado um e-mail que revela a localização da Quimera e mais informações sobre o evento.
Em 2016, a Sofia e Elliot Sheedy co-fundaram ‘The Spectacular House’. Como é que este projecto influenciou a criação de ‘Quimera’ e como descreveria a vossa colaboração artística?
A Spectacular House é uma produtora que nasceu em Boston, em 2016, quando eu e o Elliot já tínhamos terminado o mestrado em Media Art, e pretendemos tornar a nossa colaboração mais formal. Em 2021, mudou-se para os Açores, permanentemente. Durante os últimos 8 anos, temos feito variados projectos juntos, desde curtas e longas-metragens, videoclips, uma série para web, instalações multimédia, projectos de cinema, de audiovisual, comerciais ou artísticos. Já nos conhecemos muito bem e sabemos que o resultado final dos projectos beneficia da intervenção dos dois, de diferentes formas. O Elliot, normalmente, está mais ligado ao som e à música, e eu à imagem. Mas, por vezes, também trocamos. Naturalmente, temos vindo a crescer juntos neste percurso e a Quimera é o culminar das experiências passadas. A forma como colaboramos é super dinâmica, normalmente criámos conteúdos em resposta a um desafio proposto pelo outro, ou por um colaborador externo, e em muitos dos projectos acabamos por nos revezar nos papéis, à medida que o projecto se desenvolve vamos passando o projecto das mãos de um para o outro até o conseguirmos levar até onde pretendemos, a sua versão final. Somos os dois muito criativos e críticos, confiamos muito um no outro, e isso acrescenta muito ao trabalho que desenvolvemos.
A experiência explora as ciências naturais, a história e a cultura dos Açores, através do vídeo, música, instalação e performance. Como vê o papel da arte e do artista, ou seja, a importância da cultura na promoção de um sector emergente nos Açores, como o turismo?
A importância da cultura dos Açores para o sector do turismo é enorme. Um dos objectivos deste projecto é, também, dar resposta à falta de experiências culturais nocturnas que aconteçam, de forma recorrente, na ilha de São Miguel, e a criação de novos públicos.
A cultura dos Açores é super interessante, e a sua existência e fomentação é fundamental para que mantenhamos a nossa identidade. Urge que o sector cultural se possa desenvolver com estabilidade, pois neste momento, devido à precariedade do seu financiamento, os agentes culturais trabalham num sistema extremamente frágil. Portanto, é fundamental que haja esse entendimento por parte dos açorianos, do quão essencial é investir no sector cultural açoriano para que esse sector emergente do turismo se possa desenvolver. É preciso não esquecer que os Açores não são só paisagem. Se não apostarmos em investir em projectos relacionados com a nossa identidade cultural, passamos a ser só mais um destino turístico que pouca acrescenta aos outros. Tem de haver visão e aposta no sector cultural, para que este possa acompanhar o crescimento do sector do turismo. Mas é também importante que os agentes culturais tenham oportunidade para continuar a criar de forma livre e genuína, e não apenas a gerar conteúdos para o mercado turístico. Se assim fosse, perderíamos a nossa identidade e autenticidade enquanto artistas. Por isso, acho igualmente importante que não seja requisito que os projectos culturais tenham de responder às necessidades do turismo. Se assim fosse, passávamos então todos apenas a pintar postais e t-shirts, e não haveria mais nada. Não seria bom para ninguém.
‘Quimera’ propõe uma viagem entre o passado e o futuro, misturando realidade e ficção. O que espera que os visitantes sintam ao longo deste percurso?
Enquanto artista, dedico-me a investigar questões ecológicas e futuristas, através do tom da comédia. Por um lado, a minha curiosidade levou-me a investigar as características científicas e históricas do trilho, através da colaboração com investigadores da Universidade dos Açores. Os vulcões, as rochas, a fauna, a flora, e a cultura dos Açores pertencem à dimensão real da experiência, do passado e do presente. Mas também reflectimos sobre o futuro. É cada vez mais importante, enquanto humanos, reflectirmos para onde vamos. E é a partir dessa ideia que a experiência se torna ficcional, a partir de um pouco mais de metade do percurso. Há um momento em que é óbvio que passamos a um momento futurista e a uma dimensão ficcional. Não posso revelar mais informação sobre isto, pois deixaria de ser surpresa quando vierem participar no evento.
É uma experiência super informativa, interactiva com a paisagem, e a guia leva os participantes num percurso com alguns laivos de comédia existencial, com alguns momentos divertidos e surpresas. É uma experiência com muitos estímulos e cada participante tem uma experiência única, identificando-se com diferentes partes do percurso.
Têm algo especial preparado para a inauguração deste trilho no próximo dia 5 de Setembro?
A Quimera é já, na sua essência, uma experiência especial e, por isso, não iremos acrescentar nada ao que já existe! É a primeira vez que fazemos a experiência com a venda dos bilhetes aberta ao público.
Que outros projectos ou iniciativas têm em vista para o futuro?
Na verdade, vemos a Quimera como a primeira experiência no trilho, mas queremos colaborar com outros artistas e criar outros projectos no futuro. Queremos ser um agente catalisador da produção e na exibição dos projectos dos artistas açorianos. Este é um projecto de vida e, neste momento, pensamos que, a longo prazo, gostaríamos de transformar esta propriedade numa floresta cultural, onde se mostram projectos multidisciplinares. Concertos, teatro, instalação, mostras de cinema, residências artísticas e científicas. O local onde se insere este trilho é maravilhoso, pois para além de ser uma escoada lávica, nele podemos encontrar não só espécies endémicas, que não existem noutro território para além dos Açores, da nossa flora, mas também serve de habitat para animais endémicos. Refere-se a uma grande extensão de terreno que se encontra no seu estado natural, sendo que apenas se vê a intervenção dos trilhos criados para a exploração da vinha, no século passado. É importante cuidarmos e protegermos esta floresta, para que possa ser mantida com as características actuais, e é isso que também pretendemos fazer.
Há outras iniciativas que quer destacar?
No dia 14 de Setembro, às 18h15, haverá uma “Quimera Diurna” integrada no programa Open Studios da Anda&Fala – Associação Cultural, onde se falará do processo criativo deste projecto. Esta será uma oportunidade única, não só para saber mais sobre o projecto Quimera, mas também de experienciar e fazer o trilho durante o dia, sendo que a entrada é livre e gratuita.
Para além disso, às 19h30, haverá um concerto do Elliot Sheedy no local, também parte do evento organizado para o Open Studios.
Daniela Canha
