“Hoje, entre vocês meus amigos, meu povo que do mar e da terra escreveram sobrevivência, apetece-me dizer tanto deste silêncio, desta voz calada, deste sono que se revolta e adormece no tempo, apetece dizer tudo e tão pouco. Apetece ser grito em uníssono e deixar morrer as palavras vãs, as incompreensões e as injustiças, os apelos com destinatário e sem destino. Hoje apetece olhar-vos e deixar-me cair nos braços onde sempre senti no calor da casa-mãe baleeira, da Rua da Baixo, o incentivo, a intuição e o desejo da partida com regresso marcado.
Hoje não tenho palavras novas. Apenas velhos sentimentos, que um homem só tem força e razão, quando encontra na matriz da sua raiz educacional e cultural o alimento para, persistindo inventar o sonho de todas as causas. E vocês povo do mar e da terra, terra de baleeiros, foram e são, sem o saber, a expressão da imagética e do rigor de todas as minhas inquietações. Por isso nenhum obrigado recompensará o tudo que vos devo, e o que dou é sempre tão pouco, do muito que merecem.
Digo em voz alta o que já escrevi em silêncio:
“ Sentados sobre o muro, os degraus abandonados, a rampa escorregadia, um lugar à fresca, solidários com alguém que chega para conversar desabafos incontidos de glórias efémeras, de lutas intermináveis nos apelos da subsistência, estórias de medos – guerreiros, alimentadas numa memória rica de verdade e fantasia.
Ainda lá estão agarrados ao muro do Caneiro na ânsia de um rabo de baleia, cada vez menos, na sede da última esperança. Sabem que não voltarão às águas salgadas das noites prolongadas de escuridão, molhadas a pão seco e calor de um gole de água ardente.
Vivem na ilusão da heroicidade reconhecida entre discussões repetidas e acaloradas no banco da pesqueira, no dominó da filarmónica ou na sueca da Sociedade de Santo António.
Outros mais longe, fugidos da guerra com os filhos às costas sabem que vão morrer entre arranha-céus, campos rasos de relva, e cruzes do Vietname.
São os últimos baleeiros dispersos na solidão da memória e no reconforto da família, vagueando o corpo do trabalho entre a lágrima da saudade e a mágoa do desespero.
Sem eles – os nossos baleeiros – não haveria tempo para nós. Para esta reconciliação com o passado de que nos devemos sempre orgulhar muito.”
Um dia, depois de muitas notícias e reportagens, por essas ilhas e por esse mundo fora, um dia depois de perceber que ninguém neste país percebia a essência da saga da baleação, dos seus protagonistas, dos seus heróis resistentes e persistentes das grandezas e misérias, entendi enquanto jornalista de rádio (o meu olhar, uma caneta, um bloco de notas, um gravador de cassetes, a investigação, a paciência dezenas de horas e muita, muita devoção) escrever a minha “ Carta de Amor “ aos baleeiros, à vila das Lajes do Pico. Um documento intemporal, que perdurasse a vida toda, sempre que o tempo passasse, cada vez mais, a vida toda, sem perder rigor, sem perder sentido e sentimento.
Há quase 30 anos escrevi “ Baleeiros em Terra “, com o empenho, a dedicação e o profissionalismo do Raúl Resendes, na sonorização e trabalhos de pós produção. Nas directas da madrugada parámos muitas vezes as gravações para chorar ao ouvir os cânticos da procissão de velas ou o sermão da pesqueira. O gemido das cagarras. Parámos muitas vezes, emocionados, porque esta reportagem, dez anos depois, em 2004, em formado CD – Rom, com traduções em inglês e francês e ilustrações muito enriquecedoras – constituiu uma dádiva, um hino de segredos, silêncios, memórias, medos, mistérios. Gente incompreendida de um só rosto, muitas vozes, um só tempo. Um só lugar, Lajes do Pico.
Mas no meu íntimo era preciso um livro, palpável, tocável, partilhável.
Trinta anos depois, no Museu dos Baleeiros, este dia, – quinta-feira da Semana dos Baleeiros, em honra de Nossa Senhora de Lourdes- dia do lançamento de Baleeiros em Terra, em formato livro trilingue, é um momento com significado único par mim e, creio, para muitos de vós…
O sonho feito verdade. Um sonho sem limites que tem em várias instituições e pessoas, a expressão maior da nossa alegria, motivo do mais alto reconhecimento:
Ao Dr. Manuel Francisco Costa, (O costinha) por ser um amigo irmão que canta para eu chorar, sempre; que traz no sangue as trovas marinheiras de seu pai, Manuel Costa, baleeiro, filósofo, que abre e fecha este livro: “ e aquela alegria durava…era uma adoração porque estavam milhares e milhares de bocas à espera daquela baleia…esperavam as crianças, as mães, as velhas; esperavam as pessoas para comer aquele magro daquela baleia”… Sim fecha o livro com a sua viola cantando a Barquinha Feiticeira “ às baleias devotas que choram os homens repartidos e ausentes…”.
Ao Manuel Costa, por ter aceitado apresentar este livro de forma bela, intensa e sábia como só ele o poderia fazer;
Ao Manuel Costa por tudo o que representa para mim. Tudo.
Ao Instituto Açoriano de Cultura, na pessoa do seu Presidente, professor e um dos grandes poetas portugueses contemporâneos, Carlos Bessa, que desde a primeira hora foi o incansável líder na conjugação de esforços e apoios para conseguir uma obra inovadora, moderna e de qualidade indiscutível. Ele é um perfeccionista e não permite cedências duvidosas. De resto é justo sublinhar e enaltecer o excelente trabalho que sob a sua Presidência tem sido realizado pelo Instituto Açoriano de Cultura em diferentes domínios, inclusive este particular, abrindo as portas a áreas menos reconhecidas como o jornalismo radiofónico.
À Câmara Municipal das Lajes do Pico, na pessoa da sua Presidente e minha amiga Dra. Ana Brum, a primeira presidente “baleeira” que cedo percebeu o alcance da iniciativa e não regateou esforços para apoiar de forma significativa este trabalho que, espero, venha a ser mais um souvenir desta terra. De resto a Câmara Municipal das Lajes do Pico só me tem mimado, sem rodeios e hesitações, em qualquer das iniciativas que sugiro ou proponho.
Agradecer à Secretaria Regional da Cultura na pessoa da Senhora Secretária Regional, Dra. Sofia Ribeiro, também pela amizade e empenho que sempre me disponibilizou.
À minha empresa de sempre a RDP – Antena 1, por ter facilitado que um trabalho de arquivo não ficasse esquecido entre quatro paredes, tornando-o acessível aos estudiosos e aos que pretendem recordar ao vivo todas as memórias desaparecidas. Este é um gesto significativo dum verdadeiro conceito de “Serviço Público de Radiodifusão.
Aos que permitiram as ilustrações fotográficas: Ao Dr. Sérgio Ávila, pelas tardes de calor e tolerância impaciente no seu gabinete na universidade, no cantinho do meu escritório lá de casa pela noite adentro, na escolha, montagem, paginação de fotografias e texto; ao João Melo que se despiu de generosidade e um carinho sem limites para enviar muitas das fotos de baleeiros que só ele tem e alguns dos quais já morreram…
À Márcia Olival da Rosa, que debaixo de calor e muitas queixas telefónicas e os pés inchados pelos caminhos de Lajes e Ribeira do Meio, nunca desistiu de cumprir o trabalho solicitado num verdadeiro espírito jornalístico e de amor à terra.
Ao Hélder Silveira que me dá a honra de ter obra sua num livro meu; e a Todos: instituições como o Museu dos Baleeiros e Particulares, que cederam fotografias do seu espólio para que este livro fosse mais enriquecido.
Ao Raúl Resendes apenas o abraço forte e sincero da nossa duradoira cumplicidade radiofónica, pessoal e lajense, pelas fotos em particular a escolhida para capa do livro que me havia oferecido e sem interferência minha foi escolhida para tal. É uma grande fotografia e simboliza bem a festa dos baleeiros em terra.
Uma palavra muito especial para os tradutores, António Melo Sousa, língua inglesa e Marc-Ange Graff, língua francesa. Grato e reconhecido por tanta paciente competência em particular quando era preciso exprimir expressões da narrativa mais poética.
Merecem nota muito alta a designer, Angelina Caixeiro e toda a equipa do seu atelier, pelo conceito, exigência e superior criatividade no detalhe; a minha amiga Dra. Margarida Vitória Fonseca, pela revisão voluntária, demorada, persistente e amiga, em português e Inglês; e a Secretária do IAC, Senhora Sónia Dias de uma simpatia e rigor profissionais inexcedíveis.
Agradecer, comovidamente, a todos os que estão vivos e ou presentes e que fazem parte deste trabalho:
António Madruga, Eng. Aurélio Machado, Camilo Costa, Francisco Medeiros, e Alexandra Teles; e a todos os familiares dos que estando bem vivos, com seus testemunhos entusiasmados, empolgantes, já não estão entre nós:
Professor Carlos Cordeiro, Manuel Costa, Maria do Egipto, João Lelé, João Vigia, Padre Garcia, Emílio Porto, Manuel Portugal, João Maurício, Mestre Gil, Manuel Garcia, Mestre Vieira Boga, Francisco Martiniano, Dias de Melo, Francisco Barbeiro, Ritinha, Mestre Hermínio, Professor Moniz Bettencourt, António Ávila, Manuel Augusto, Dimas, Elma Boga, Serge Villele…
Tinhas razão Serge: “Isto é uma Mérreeda “
E por fim uma palavra ao Adelino Gomes – embora não esteja aqui presente – porventura, o maior e mais completo repórter português, de rádio, televisão e imprensa deste país. O Professor, o profissional. O Mestre de uma geração de referência com quem muito tentei aprender alguma coisa…
António Jorge Branco, Maria Leonor, Maria Júlia Guerra, Francisco Sena Santos, Fernando Alves, João Paulo Guerra, Joaquim Furtado, Carlos Fino, Baptista Bastos, Fernando Da Costa, para só citar meia dúzia dos que moldaram o meu entendimento sobre a rádio e o jornalismo. Adelino Gomes, veio aqui às Lajes, há 20 anos falar do rádio, da Grande Reportagem, e claro, deste trabalho, que ele tão bem conhecia na sua fase original e mais tarde como membro do júri que lhe deu prémio. Uma distinção e um orgulho imenso que tanto agradeço.
Assim, 50 anos depois de ter começado uma vida radiofónica devolvo à Rua de Baixo, tudo o que ela me deu, ou como dizia no meu primeiro livro:
“… nunca saberei dizer pranto, lamento, canto, conto, desencanto, sem beber em ti – princípio e fim da minha vida de mensageiro de notícias e uma ilha por contar – o cheiro a povo que me embala o peito e a saudade por matar …Rua de Baixo, minha ilha, a noite e o que sobras do mar …”
No prefácio desse livro o poeta Eduardo Bettencourt Pinto dizia a propósito:
“… sentado na pedra da sua ilha, o poeta sabe que ama o rumor da efemeridade …”
Como poderia sugerir uma reportagem feita para a rádio “Baleeiros em Terra” não foi um documento do efémero, do instantâneo, do ouvir e deitar fora como as palavras levadas pelo vento, a toda a hora. A Grande Reportagem ainda é o género maior do jornalismo e assim sendo também pode ser, história, sociologia, etnografia, antropologia cultural. Fica a comprová-lo este modesto contributo.
Assim sendo a olhar o Monumento de Pedro Cabrita Reis possa poema dizer como no poema.
“…Velas de cal branca e pedra negra. Dentro. Azeite dos caldeiros na humidade quente da pele. Degrau a degrau a rebentação da maré. Concerto de murmúrio dos lábios. O monumento. Memorial. Porta do Caneiro de pé. Homens de marfim e silêncio de mármore. Jazigo vertical. Baleeiras e baleeiros. Heróis sem nome a navegar… Na margem sul a montanha a sós. Santuário ao sabor da rosa – dos – ventos…”
Baleeiros em Terra são vocês todos. Somos todos nós…
São tantos e quase todos que aqui falando, há muito já partiram. Esta é a minha simples homenagem que nunca se perderá no tempo.
“…E assim as baleias devotas choram os homens repartidos e ausentes…”
A esta terra, a este povo baleeiro, o meu sentido e sincero obrigado.”
Sidónio Bettencourt
(Intervenção proferida no lançamento
do seu livro ‘BALEEIROS
EM TERRA’)
Lajes dos Pico, Museu dos Baleeiros,
22 de Agosto de 2024
