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Nos 516 anos do Município Funchalense

Existirá alguma cidade que amanhece no mais recôndito silêncio de um viajante e onde no pórtico de uma Catedral se caseie, nas pedras, a história de séculos de uma grande epopeia marítima? Só o Funchal emoldurado no ziguezaguear das suas ruas e becos, que sobem as montanhas, proporciona, esta emoção que se experimenta, de repente, na vertigem da saudade…
Nos 516 anos da Fundação do Município Funchalense, dirijo-me à Senhora Presidente, dra. Cristina Pedra, não só para felicitá-la pela efeméride, tão significativa, da Cidade, que todos os dias nos recebe, na alegria de uma luz que desenha os nossos passos e conduz-nos até onde a imaginação traça um roteiro de saudade que nos coloca na fronteira entre a terra e o mar. Este mar que nos aprisiona e que é, simultaneamente, meta dos nossos sonhos. É também meta das nossas loucuras, embebedadas pela poética da própria Cidade.
E porquê me dirijo a si, Senhora Presidente?
Dirijo-me pelo prazer de lhe dizer que gostei muito do seu discurso, no dia em que a Cidade fez 516 anos. Achei-o inteligente, bem estruturado na transparência de uma linguagem entendível, tal como deveria ser para que a mensagem chegasse aqueles que tiveram o privilégio de ouvi-la. Gostei do discurso porque me proporcionou o conhecimento do dinamismo de um Município, liderado por si, com uma equipa de vereadores retratada na competência do trabalho que, diariamente, concretiza em prol da Cidade. Mas o seu discurso deu-me para além do dinamismo imprimido, essa sua forma de ser, de se relacionar, com a Urbe, onde as suas raízes estão mergulhadas; a forma como a vive, tão intensamente, porque tão intensamente a ama, por isso o seu trabalho não é só experiência mas é, também, o amor que a empenha em todas as coisas e alimenta-lhe a alma para que não lhe falte nunca a força, tão necessária para a sua árdua missão. Desde muito novo, talvez por estar imbuído de uma forma diferente de pensar dos meus pais, sempre coloquei mulheres e homens no mesmo pé de igualdade, considerando que tanto umas como os outros poderiam assumir cargos dirigentes. Por isso, quando a vi presidir ao principal município da minha terra, regozijei-me, tanto mais que, em 500 anos, uma mulher, pela primeira vez, é Presidente.
Sabendo da sua competência manifestada nos cargos anteriormente por si ocupados, logo acreditei no sucesso do seu desempenho à frente do município funchalense, tal como está a acontecer, para satisfação dos munícipes, para quem a Sra. Presidente, todos os dias, governa com a consciência do que isso representa, do ponto de vista humano e de desenvolvimento. A explicação obra a obra executada, ou em execução, feita no seu discurso, fez-me avaliar a dimensão do trabalho gigantesco que a Câmara está a realizar. Obras, em parte, desconhecidas dos funchalenses, cuja expressão de grandeza é impressionante e, a todos os títulos louvável. Eu diria que os atuais dirigentes da C.M.F. estão a realizar uma corrida contra o tempo para levar a efeito os inúmeros projetos até ao final deste mandato, em 2025.
Há, porém, Senhora Presidente, uma parte do seu discurso que não posso deixar passar em branco, pelo que revela da nobreza da sua alma, da sua coerência e espírito de justiça. Foi quando se referiu ao seu antecessor, homenageando-o, exaltando o seu trabalho no Município.
Eu, como V. Exa., admiro o dr. Pedro Calado e reconheço-lhe muita competência e uma extraordinária capacidade de trabalho. Uma personalidade que temos de respeitar pelo muito que de si deu à Cidade. Sabe, Senhora Presidente, ao ouvi-la, naquela sala completamente cheia de gente, veio-me à mente as palavras de S. Francisco de Assis:
“Começa por fazer o que é necessário. Depois faz o que é possível. De repente estarás a fazer o impossível.”
Precisamente o que está a acontecer consigo.
Já se sabe, Senhora Presidente, a oposição nunca, ou raras vezes, reconhece ou exalta o trabalho dos que dirigem. Não tem a grandeza para prestar justiça, por isso anda como anda, a democracia no nosso país. Mesmo que seja uma ação que engrandeça a Cidade e beneficie os munícipes, a oposição não tem a humildade de o reconhecer. A democracia dá-nos a liberdade de sermos críticos, mas pede-nos também, que sejamos justos e coerentes e que a ajudemos, na base da verdade e da justiça, a ser mais forte. As críticas inteligentes ajudam a melhorar as situações, a corrigir os erros. Não se deve fazer só a política do bota-abaixo. O discurso da senhora deputada municipal do Partido Socialista, entristeceu-me, fez-me imaginar que ela não se referia ao Funchal, mas sim a uma outra Cidade, invisível. Tudo, mas tudo, estava mal, para meu grande espanto! Pobres dos que vivem numa Cidade e nela não descobrem nada de bom, de positivo. Não descobrem sequer o privilégio e a poética da vivência quotidiana. Por fim, ela ao terminar o discurso, fez com acentuada ênfase e bombasticamente, afirmou que «o Funchal era a pior cidade do mundo!». É triste, mas é isto que temos …
Achei equilibrados e justos os discursos do Presidente da Assembleia Municipal Dr. José Luís Nunes e do Presidente do Governo, dr. Miguel Albuquerque. Um e outro, prestaram homenagem ao trabalho da dra. Cristina Pedra, pondo em destaque as obras que a Câmara vem realizando e salientando a excelente colaboração entre o Governo e o Município.
Senhora Presidente, governar não é fácil, por tantas razões. Presidir ao Município do Funchal é uma honra, mas é, simultaneamente, um grande desafio, sobretudo é uma cidade com uma grande densidade populacional, por quilómetro quadrado. Uma Cidade onde alguns dos munícipes não a sentem, assim, não a compreendem, por isso facilmente a criticam. Contudo o Funchal no cosmopolitismo do seu quotidiano, cada vez mais cresce, proporciona ainda uma vivência agradável e de qualidade. Uma cidade onde os telhados airosos levantam-se sobre os edifícios, desafiando os arranhas céus de outras cidades, onde os seus habitantes trazem, diariamente, no ânimo a poeira da melancolia. Uma cidade onde os muros bordados com buganvílias coloridas transportam alegria, derramando a energia de viver.
Existirá alguma cidade que amanheça no mais recôndito silêncio de um viajante e onde no pórtico de uma Catedral se caseie, nas pedras, a história de séculos de uma grande epopeia marítima?!
Só o Funchal, emoldurado no ziguezaguear das suas ruas e becos, que sobem as montanhas, proporciona esta emoção que se experimenta, de repente, na vertigem da saudade …
Há, Senhora Presidente, um assunto que se fala muito: o excesso de automóveis no centro da Cidade. Eu pessoalmente penso que é uma questão de difícil solução. Existem famílias que dispõem três ou quatro viaturas e trazem-nas para o centro. Por outro lado, a existência de empresas de rent-a-car ilegais, como referiu no seu discurso, em nada ajuda, o tão desejado desafogo do centro Citadino.
A Câmara preocupada com este problema, que mais se agrava, porque também, mais automóveis entram para venda, estuda como resolvê-lo. Como?!
Em algumas cidades adotaram o sistema das matrículas: uns dias circulam as matrículas pares, nos outros as matrículas ímpares. Em outras cidades há grandes parques de estacionamentos fora dos centros com serviço de “navetes” em permanente ligação com o centro.
Senhora Presidente, creia-me, há em cada um dos seres-humanos uma força que surge sempre que necessário, sobretudo nos momentos mais difíceis. Costumava dizer, aos meus alunos, que não havia situações desesperantes, nós é que desesperávamos perante as situações, acrescentando que havia sempre, uma espécie de luz que nos guiava muito mais forte do que as dificuldades que nos rodeavam. Assim se resolviam os problemas.
A propósito de dificuldades, há anos, num Congresso em Nova Iorque, um dos painéis era as ilhas, suas condições geográficas e as dificuldades dos ilhéus.
Quando chegou ao momento da minha intervenção disse-lhes que o povo, ao qual eu pertencia tinha transformado as rochas em socalcos, agricultando-os. Eram Ilhéus que não receavam quaisquer dificuldades. Somos Ilhéus enraizados na memória dos tempos. Exaltados, todos os dias, no basalto.
Dra. Cristina Pedra, é desta estirpe de gente que somos feitos: dobramos as dificuldades e erguemos as obras, com orgulho. Esse tem sido o espírito que a norteia, aos seus vereadores e aos diretores. Haverá sempre vozes discordantes, são essas que, paradoxalmente, dão mais força e razão para que continue e leve a efeito os projetos de que muito vão beneficiar os munícipes. É muito mais importante do que todas as vozes discordantes.
Senhora Presidente, uma vez mais, parabéns pelo aniversário do município a que preside, com tantas tradições alicerçadas em cinco séculos.
Um município em que todos os autarcas que o serviram, deram o seu contributo para fazer do Funchal a cidade que hoje desfrutamos.
Nestes cinco séculos de existência, com visões e pareceres de autarcas, em épocas diferentes, cujas mentalidades de alguns deles, espartilhadas em receios e preconceitos, sufocaram as mentes mais avançadas, impedindo os progressos necessários e adequados para o desenvolvimento da Cidade. Aliado a um estrabismo acentuado estrangulando visões para futuros anunciados, enfileirado em burocracias devoradoras, que provocou uma certa estagnação nos moldes de governar a urbe. Desta maneira acumularam-se os gravíssimos problemas, alguns, ainda hoje deixando as suas marcas.
Até que um dia, surgiu um Presidente corajoso, madeirense, inteligente, que não temendo críticas, avançou com os seus planos de modernização da Cidade.
O Dr. Fernão Ornelas, com uma visão futurista, amando e sentindo o Funchal, mudou-o, contra ventos e marés. Tomou medidas acertadas dando outras perspetivas a urbe. De tal forma que de entre os muitos Presidentes que a Câmara teve, o seu nome é, ainda hoje recordado, com simpatia e admiração. Já se passaram tantos anos! Outro Presidente que marcou a C.M.F. com a sua presidência numa época difícil, foi o Professor Virgílio Pereira, com o espírito decisivo de mudança, ele introduziu inovações úteis para o progresso da Edilidade. Seguiram-se João Dantas e Miguel Albuquerque, como Presidentes, muito ativos, traçaram planos que de sobremodo enriqueceram a Cidade.
Afinal, o teor da minha crónica desta semana para assinalar a efeméride da Cidade transformou-se na carta do munícipe para exprimir a sua admiração pelo notável trabalho que a Presidente do Município e os Vereadores vêm realizando, fazendo do Funchal uma Cidade mais aberta, moderna, sem porém, perder a sua identidade: a energia artística das Igrejas, as portas e janelas das casas cinzeladas em cantarias tão características, e um olhar muito atento e preocupado para a solução dos problemas mais prementes: da habitação, do transito, dos assuntos sociais e tantos outros, que se arrastam há anos.
Senhora Presidente, Senhores Vereadores,
“O que salvará não será nunca aquilo que não tivemos guardado no tempo, mas sim, aquilo que deixamos mudar, para que se reinventasse, em nós mesmos, um tempo novo”.

João Carlos Abreu

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