A Dwell Azores é um espaço de ‘co-living’ e ‘co-working’ que existe desde 2020 nos Fenais da Luz. Os seus fundadores, Anna, da Polónia, e Charles, dos Estados Unidos, também eles nómadas digitais durante alguns anos, viajaram por várias partes do mundo, mas foi nos Açores que decidiram ficar para construir este projecto. Nesta entrevista, falam sobre as obras de reconstrução da casa, que realizaram com as próprias mãos; da relação de amizade e respeito mútuo que cultivaram na freguesia dos Fenais da Luz; e também expressam a sua frustração para com os estrangeiros que vivem afastados da comunidade açoriana. Reconhecem o potencial da região como destino de topo para nómadas digitais, mas sublinham a necessidade de um maior envolvimento e acção por parte do governo, que até agora não tem mostrado um real interesse em explorar esta vertente do turismo, que, como afirmam, “vem durante todo o ano e é muito mais sustentável”.
Correio dos Açores – A Anna é da Polónia e o Charles é dos Estados Unidos. Como se encontraram e o que vos trouxe aos Açores?
Anna Mrozek (psicóloga/ co-fundadora da Azores Dwell) – Nós conhecemo-nos há cerca de 10 anos quando eu estava a trabalhar num hostel e o Charles estava de visita à Polónia. Entretanto, fiz o meu estágio de Erasmus no Porto, onde vivi cerca de um ano e meio. O Charles visitou-me várias vezes e viajamos muito por Portugal, mas durante todo este tempo, os meus professores em Gondomar falavam-me sempre dos Açores e diziam que eu ia adorar. Em 2018 viemos a São Miguel pela primeira vez.
Charles Driscoll (músico/ co-fundador da Azores Dwell – A nossa primeira visita foi durante o Inverno e não durou mais do que três ou quatro dias. Pelo menos para mim, e daquilo que até então tinha visto noutras partes do mundo, a ideia tinha de uma ilha era que esta estava sempre ligada a resorts, clubes nocturnos e a todo o tipo de coisas mais turísticas; o que de certa forma é bom, mas falta autenticidade. No entanto, quando visitei os Açores foi uma grande surpresa perceber que, apesar de ter as tais ‘island vibes’ (ambiente de ilha), era sobretudo um local rural, agrícola. Ou seja, havia quintas e vacas por todo o lado, um ambiente que me é familiar pois cresci no campo. Para além disso, naquela primeira viagem também fiquei com a ideia de que a maior parte da ilha não foi criada para visitantes, mas para aqueles que vivem cá, principalmente naquela altura, em 2018.
Percebemos que aqueles três ou quatro dias não eram suficientes e menos de um ano depois estávamos de volta aos Açores para mais uma curta viagem no Inverno. Foi nesta altura que decidimos que tínhamos de voltar por mais tempo; e não me refiro a uma viagem de duas semanas. Ainda não sabíamos o propósito, mas estávamos convictos de que tínhamos de passar algum tempo nos Açores.
Quando surgiu a ideia de criar a Dwell Azores nos Fenais da Luz?
Anna – Quando chegamos aos Açores em 2019, começamos a pensar no que poderíamos fazer por cá, pois não viemos só pela praia e pelos trilhos. Eu trabalhei num hostel e tinha o sonho de abrir o meu próprio espaço, porque adoro conhecer pessoas de países diferentes e adoro a atmosfera de comunidade que se sente na maior parte dos hostels – era precisamente isso que queria recriar nalguma parte do mundo.
Charles – Eu também tinha os meus próprios motivos. Fiz algumas renovações de casas e estive ligado ao sector imobiliário nos Estados Unidos, mas por volta de 2017 decidi que iria passar mais tempo na Europa, onde também queria começar algum tipo de projecto. Para além disso, naquela altura já tínhamos viajado muito e conhecemo-nos num hostel, portanto é seguro dizer que somos fãs deste tipo de ambiente onde conhecemos pessoas diferentes e onde se fazem amigos que no dia anterior eram completos desconhecidos.
Anna – Na altura, ambos trabalhávamos em remoto e queríamos criar um espaço onde os nómadas digitais pudessem combinar a interacção social típica de um ambiente de hostel com o trabalho. E foi aí que começamos a pensar ‘ok, podemos criar algo assim nos Açores’: uma espécie de ‘airbnb’ com um ambiente de comunidade, mas também tem secretárias e cadeiras com condições para os profissionais. E foi assim que começou a surgir a ideia para Dwell. Compramos a casa em Outubro de 2019 e abrimos no Verão de 2020.
Porquê o nome ‘Dwell Azores’?
Charles – O nome é um pequeno jogo de palavras com o termo inglês ‘dwell’, que pode ter dois significados. Um deles é “viver em algum lugar”, ou seja, ‘to dwell somewhere’ que significa viver lá. Por isso, em vez de chamar uma casa simplesmente de casa, em termos legais podemos chamá-la de ‘dwelling’ – uma ‘dwelling’ localizada na Rua de Baixo, por exemplo. Mas ‘dwell’ também tem um segundo significado: ‘to dwell on something’ significa passar algum tempo a pensar sobre algo. Por exemplo, quando temos uma grande decisão a tomar, podemos dizer “I’ve been dwelling on this”, ou seja, é dedicar tempo a reflectir ou considerar algo. Portanto, queríamos criar um lugar onde as pessoas pudessem encontrar uma espécie de escape mental; um lugar para viver, mas também um lugar para passar algum tempo a reflectir.
Em Junho de 2019, chegaram aos Açores com um bilhete só de ida e em Outubro do mesmo ano compraram uma casa em ruínas nos Fenais da Luz. Como foi o processo de renovação e quais foram as maiores dificuldades?
Anna – A casa estava em muito mau estado e começámos a renová-la sozinhos, o que nos levou cerca de nove a dez meses. Para além disso, estávamos no meio das renovações quando a pandemia chegou, mas mantivemos a determinação e continuámos a trabalhar. Finalmente, abrimos no Verão de 2020.
Charles – Fizemos a maior parte do trabalho sozinhos, mas contratámos alguns açorianos para nos ajudar-nos a levantar algumas vigas para o telhado, ou trabalhar com cimento, por exemplo. As dificuldades que enfrentámos foram em várias frentes, mas para mim, umas das coisas mais difíceis foi trabalhar com materiais diferentes. Nos Estados Unidos, as casas são construídas em madeira, não em cimento e pedra, e adaptar-me a materiais diferentes e ainda ter de lidar com a questão da humidade foi um grande desafio.
Anna – Provavelmente, o maior desafio para nós foi mesmo o clima. Sabíamos, claro, que o clima aqui é muito específico, mas a verdade é que subestimámos muito a questão da humidade.
Charles – Fazer as renovações durante a Covid também complicou as coisas, pois tivemos muitos atrasos com os materiais. Para além disso, também houve um choque cultural, porque ambos viemos de países diferentes, com políticas e horários de trabalho diferentes. E tentar ajustar tudo isso com as nossas expectativas de prazos foi muito difícil.
A Dwell Azores começou em Agosto de 2020. Como foi abrir um alojamento turístico no meio da pandemia?
Anna – No final das renovações, já tínhamos gastado o nosso dinheiro todo e foi assustador. Começamos a pensar coisas como: ‘o que é que fomos fazer à nossa vida? Estamos a renovar um projecto turístico numa altura em que ninguém pode viajar’. Foi um grande choque, mas a verdade é já tínhamos investido tanto que não podíamos parar. Acabamos a renovação da casa e rezamos pelo melhor. Por fim, chegou Agosto de 2020 e a verdade é que tivemos muita sorte.
Charles – Naquele Verão, houve um ligeiro alívio das restrições, um pouco mais de liberdade comparado com os meses anteriores, que foram os mais assustadores do confinamento. E como naquele mês de Agosto as pessoas começaram a sentir-se um pouco mais livres e confiantes para viajar, o Dwell Azores estava quase cheio quando abrimos.
Claro que é aqui que está toda a ironia da pandemia, em geral, e do nosso projecto em particular… Porque a verdade é que a pandemia acelerou o movimento de trabalho remoto; até as pessoas que trabalhavam em escritórios passaram a ser trabalhadores remotos. Assim, tivemos muitos hóspedes a vir de Londres, da Alemanha, de Paris, de toda a Europa, em especial de países que tinham regras de confinamento mais severos, onde as pessoas não podiam, por exemplo, sair do apartamento, excepto para ir ao supermercado a um quilómetro da porta.
Anna – Nos Açores, as pessoas podiam estar ao ar livre, e como temos um espaço de co-working com várias secretárias, os nossos hóspedes conseguiam manter as suas rotinas; trabalhavam durante o dia, ao final da tarde iam nadar ou passear, e à noite cozinhávamos juntos. Um dos casos mais caricatos que tivemos nessa altura foi o de um casal que vinha apenas por duas semanas, mas começaram a adiar continuamente o regresso ao seu país de origem e, no final, acabaram por ficar três meses! Todas as semanas eles viam as notícias dos seus países e, claro, pensavam: ‘porque vou voltar a estar confinado no meu apartamento se aqui consigo ter uma vida bastante decente?’ E nós estávamos muitos felizes por ter cá hóspedes em estadias mais longas, pois era esta a ideia inicial da Dwell: aproveitar os Açores, trabalhar em remoto e construir uma boa comunidade.
Charles – Ao longo dos anos temos recebido pessoas de todo o mundo, muitos deles nómadas digitais, e esta pode ser uma vida bastante isolada e, diria até, solitária. No passado, muitas das interacções sociais das pessoas eram feitas no local de trabalho. Mas, actualmente, há quem trabalhe exclusivamente de forma remota, sem nunca ter conhecido os colegas pessoalmente, e não vê ninguém no seu dia-a-dia. Portanto, o nosso objectivo era criar um lugar onde as pessoas não são recebidas apenas como hóspedes ou clientes, mas como um amigo ou um conhecido que estamos a receber na nossa casa. Esta é a ideia que tentamos implementar, não só como um slogan na página web, mas na prática. Se alguém chega e estamos todos a jantar, por exemplo, dizemos logo: ‘Vem, senta-te. Acho que temos comida suficiente, come connosco, e deixa-me servir-te um copo de vinho’. É um ambiente muito informal e descontraído.
Como é um dia normal de um nómada digital na Dwell Azores?
Anna – Normalmente, as pessoas trabalham no horário da Europa Central e os dias começam uma ou duas horas mais cedo do que o normal, por volta seis, sete da manhã.
Charles – As pessoas tomam o seu café e, claro, muitas vezes vão até à costa para ver o mar, tomar o pequeno-almoço e talvez cumprimentar os outros nómadas. Especialmente quando falamos de trabalho remoto, é importante ter outras pessoas à nossa volta que não estão apenas de férias. Ou seja, ver outras pessoas a acordar cedo para trabalhar é uma forma de manter todos motivados. Aqueles que têm um horário mais flexível vão correr ou fazer caminhadas pela manhã
Anna – A nossa localização é excelente, pois estamos mesmo ao lado do trilho costeiro. Se sairmos de casa e andarmos para fora do centro, estamos só e a natureza – o mar de um lado e os campos do outro. É um lugar muito bonito. Depois das rotinas matinais, subimos para o espaço de co-working, que é uma sala designada com vista para o mar, onde cada um tem a sua secretária. Algumas pessoas têm reuniões logo de manhã e vão para as cabines de chamada, para terem mais privacidade; outros ficam nas secretárias; e, inclusive, alguns gostam de trabalhar de forma mais descontraída num puff no terraço. Os hóspedes acabam por criar amizades e muitas vezes fazem pausas para café juntos, cozinham juntos e muitas vezes, se alguém tem comida extra, partilham entre si.
Charles – À hora de almoço, há muitas conversas a acontecer, tais como: ‘E que tal fazermos uma caminhada?’, ‘Queres ir às termas na quinta-feira?’, ‘Amanhã estava a pensar em fazer coasteering ou canyoning’. As pessoas começam a planear actividades nestes momentos de pausa, tal como acontece num ambiente de trabalho convencional. Estão no trabalho, mas também estão em casa, interagem como se fossem parte da família e, ao mesmo tempo, como colegas de trabalho.
Para organizar as actividades que acontecem na Dwell, tentamos perceber quais são as paixões e talentos dos nossos hóspedes. Por exemplo, há pouco tempo descobrimos que uma hóspede gostava de pintar aquarelas e perguntámos se ela estaria disposta a partilhar isso com os outros numa espécie de aula de pintura, e ela ficou muito entusiasmada. E este é apenas um exemplo de como estes eventos acabam por surgir de forma orgânica.
Anna – Todos os dias vamos nadar, geralmente nos Poços de São Vicente, e levamos os hóspedes da Dwell connosco. O mesmo acontece com caminhadas e outras actividades diárias, pois há sempre algo a acontecer nesta casa, que é muito vibrante e dinâmica.
Charles – Também tentamos integrar os hóspedes na comunidade local e muitas vezes levamo-los até ao centro dos Fenais da Luz, ao snack-bar ou ao minimercado.
Anna – Na altura em que estávamos a renovar a casa, íamos quase todos os dias ao snack-bar cobertos de cimento e pó, e as pessoas de Fenais da Luz já nos conhecem desde essa altura. Para nós, é divertido levar um grupo de estrangeiros ao nosso bar local porque para eles é uma experiência muito diferente – é onde conseguem ver como é realmente viver numa freguesia açoriana.
Como funcionam a interacção entre os nómadas digitais e a comunidade local?
Anna – Se estiveres durante algumas semanas ou meses numa freguesia pequena, os locais começam a reconhecer-te porque percebem que não és apenas um turista, mas alguém que está realmente por lá. E no nosso caso, os locais já dizem: ‘Ah, são hóspedes da Anna e do Charles, da Dwell’.
Charles – Levamos os nossos hóspedes tanto à Quinta da Jardinete como ao bar do Luís ou o bar do José Eduardo. E é muito bom ver que eles até acabam por voltar lá sozinhos e levar outros hóspedes. E o mais importante é que começam a interagir com os açorianos que estão no bar, que lhes perguntam de onde são, o que estão a fazer nos Açores e daí surgem boas conversas.
Anna – Os locais são muito acolhedores e sempre foram muito bons para nós. Não temos nada de negativo a apontar! E, claro, sempre que há festas na freguesia, como a festa de Nossa Senhora da Luz, nós estamos lá. Conhecemos toda a gente e sentimos que realmente fazemos parte da comunidade
Charles – O facto de muitos estrangeiros estarem a comprar casas na região está a criar algumas tensões devido ao aumento dos preços das casas, entre outras questões. Mas, aquilo que realmente nos desilude e nos deixa frustrados é que muitos estrangeiros vivem completamente à parte e ‘acima’ dos locais. Para nós, sempre foi importante tentar viver entre a comunidade, e não acima dela. Não faz sentido vir para cá como estrangeiros e viver completamente à parte dos locais. Na verdade, penso que é uma falta de respeito ter essa atitude ao chegar a um lugar novo, pois muitos estrangeiros compram uma casa, mas depois não interagem com a vida desse lugar.
Anna – Já ouvimos pessoas dizerem coisas como ‘não sei como vocês vivem perto do mar nos Fenais da Luz. Aquilo são só problemas, só gente má.’ E nós ficamos perplexos, porque vivemos junto ao mar e as pessoas são maravilhosas – temos muito orgulho no lugar onde vivemos e gostamos muito de cá estar.
(Conclusão pág. 13)
Na vossa opinião, o que leva os estrangeiros residentes a distanciarem-se dos açorianos? É difícil interagir com os locais?
Charlesl – Não diria que os locais são difíceis de conhecer ou de se relacionar com, mas em certa medida esta ilha é bastante tradicional e, neste sentido, os locais conseguem ser um pouco reservados. Quer dizer, as pessoas não vão necessariamente sair e abordar os estrangeiros, mas se nós estivermos dispostos a participar nas actividades locais, se formos ao bar local beber uma cerveja ou às Festas da Nossa Senhora da Luz, por exemplo, então aí haverá respeito mútuo e espaço para criar relações.
Neste aspecto, o facto de termos sido nós a fazer todo o trabalho de renovações ajudou muito a ligarmo-nos às pessoas. Para além disso, conduzíamos um Opel Corsa de 1998, o pior carro da freguesia. Não estamos a tentar viver acima de ninguém, fizemos o trabalho físico nós próprios, e os locais viram isso. Durante nove meses, chegávamos todos os dias ao café meses cobertos de pó e cimento; e creio que foi aí que as pessoas perceberam que não éramos apenas estrangeiros com dinheiro a tentar explorar portugueses para fazerem o trabalho pesado. Estávamos a trabalhar duro a tentar melhorar o bairro; comprámos uma casa em ruínas que estava vazia há anos, renovámo-la e tornámo-la agradável. Agora temos pessoas que vêm para cá, gastam dinheiro no café e no bar, e contribuem para a comunidade.
Anna – Na semana passada, falámos com o Bruno, o Presidente de Fenais da Luz, e ele disse-nos o seguinte: ‘Vocês trouxeram vida à Rua de Baixo’; e foi maravilhoso ouvir isso. Ele está muito feliz por nos ter cá e apoia nosso projecto. A verdade é que gostaríamos de fazer ainda mais pela comunidade, mas, como se sabe, isto é uma luta em Portugal, pois por maior que seja a vontade, a burocracia torna difícil fazer as coisas acontecer.
Quais foram os momentos mais memoráveis deste projecto?
Charlesl – Eu diria que um dos momentos mais especiais foi o primeiro Natal que passamos cá. O bar do José Eduardo costuma organizar todos os anos um jantar de Natal para a família e amigos do bar, o que basicamente incluí todas as pessoas do centro dos Fenais da Luz (risos). E apear de estarmos cá apenas há dois meses e de ainda sermos estranhos, disseram-nos que estávamos convidados e que seriamos muito bem-vindos. E foi um jantar incrível, com muitas pessoas, as crianças todas da freguesia, muita alegria e muita comida! Como eu sou músico, disseram ao José Eduardo que eu sabia tocar guitarra, e ele disse logo: ‘Charles, vai buscar a guitarra!’ Então fui a casa, peguei na guitarra e, de repente, tínhamos o bar inteiro a cantar connosco. Foi uma experiência incrível.
Depois de tantos anos a viajar e a viver em lugares diferentes, posso dizer que os portugueses, e os açorianos em particular, são provavelmente das pessoas mais acolhedoras que já conheci, mas de uma forma genuína. Eu sou americano e sei que também somos simpáticos, mas é de uma forma um pouco falsa (risos). Mal chegámos cá, já tínhamos muitas pessoas a sorrir e a dizer ‘bom dia’ e eu respondia com um ‘olá’; e estas são memórias que me marcaram muito.
Anna – Também temos muitas boas memórias das pessoas maravilhosas que ficaram hospedadas na Dwell, mas eu também diria que o momento mais marcante foi aquele Natal no café do José Eduardo. Foi um momento muito especial.
Acreditam que os Açores têm potencial para se tornarem um destino de topo para nómadas digitais? Quais são as vantagens e desvantagens que eles encontram na região?
Charles – Os Açores têm, sem dúvida, o potencial para ser um destino de topo para os nómadas digitais, mas, há uma diferença entre ter potencial e concretizá-lo.
Um bom exemplo para comparação é a Madeira, em particular a Nomad Village, na Ponta do Sol. Tal com os Açores, a Madeira tem um grande potencial em termos de beleza, natureza e conectividade com o resto do mundo, mas a grande diferença é que nos últimos cinco anos o governo na Madeira foi bastante proactivo no que toca a apoiar e organizar iniciativas para que a comunidade de nómadas digitais funcione bem. Isso incluiu a colaboração com o Gonçalo Hall, que liderou o esforço para criar um ecossistema favorável ao nomadismo. Eles criaram espaços de co-working, estabeleceram parcerias com hotéis e alojamentos na área e organizaram eventos.
Nos Açores há algumas iniciativas semelhantes, mas, infelizmente, pelo que vejo, o governo parece fingir que sabe o que está a fazer, mas não tem as competências nem o conhecimento para executar.
Anna – Ninguém espera que saibam tudo, mas não lhes iria causar transtorno pedir ajuda. Tal como aconteceu na Madeira, o Governo dos Açores também deveria falar com alguém com mais conhecimento nesta aérea. A região tem definitivamente potencial, mas precisam de alguém que saiba liderar esse desenvolvimento.
Charles – Na Ribeira Grande, por exemplo, abriram um espaço de coworking que nem estava visível no Google Maps durante algum tempo. Criaram um site para nómadas digitais nos Açores, especificamente para São Miguel, Ribeira Grande e áreas circundantes; compilaram uma lista de todos os espaços de co-working, mas a lista não incluía o nosso espaço nem os outros dois espaços de co-working reais que existem na ilha. Incluía, no entanto, uma escola de surf e uma biblioteca, o que mostra que claramente não entendem as necessidades de um nómada digital. Ou seja, se um nómada digital sério confiar nesse site e aparecer no bar de uma escola de surf, vai acabar por ter de cancelar todas as suas reuniões porque não tem condições para trabalhar.
Anna – Nós estamos dispostos a ajudar, mas nunca houve nenhuma tentativa de contacto por parte do Governo. No entanto, fomos abordados pelo Nonagon (Parque de Ciência e Tecnologia de São Miguel), que vieram visitar o nosso para conhecer o nosso projecto; e foi uma boa reunião. Agora, o que acontece é que as iniciativas partem maioritariamente do sector privado.
Charles – O governo, no melhor dos casos, às vezes atrapalha ou faz as coisas de forma errada. Ou seja, pelo menos nesta área, não estão a liderar, nem a ajudar. Mas deveriam, pelo menos, decidir se querem, ou não, atrair os nómadas digitais para cá. E está tudo bem se não quiserem, os Açores não têm de ter a mesma abordagem da Madeira.
Os nómadas digitais viajam durante todo o ano e têm estadias mais longas. Na vossa opinião, apostar neste tipo de viajantes será uma forma de lidar com a questão da sazonalidade no turismo?
Anna – Completamente. O Verão na Dwell está sempre cheio com uma mistura de turistas e nómadas digitais; mas a partir de Setembro, praticamente só temos pessoas que vêm trabalhar e já estamos lotados para este mês e para o próximo.
Charles – Há uma oportunidade clara, mas o governo parece não estar interessado ou não sabe como aproveitar isso. Atrair mais turistas de Verão só agrava os problemas, como o aumento dos preços e a saturação dos serviços. O turismo que vem todo o ano é muito mais sustentável; e os nómadas digitais viajam todo ano e ficam por mais tempo.
Anna – Para além disso, ao ficarem por mais tempo, os nómadas compreendem melhor os Açores, conhecem os locais e vêem como é a vida aqui. Em contraste, os turistas de curto prazo apenas visitam os pontos turísticos e só têm contacto com os locais nos restaurantes.
Charles – O governo precisa de regular o turismo de forma mais eficaz; provavelmente começar a cobrar uma taxa turística que ajude a resolver a crise habitacional ou, pelo menos, eliminar os grandes problemas de burocracia para a construção. Muitas vezes os promotores imobiliários não querem trabalhar aqui porque demora cerca de dois anos só para começar. Portanto, é preciso simplificar o processo para que se construam habitações para os locais; o foco não pode ser apenas as habitações para o turismo.
E, neste momento, pelo que percebi no programa 2030, a maior parte do dinheiro destinado a projectos turísticos está a ir para hotéis de quatro e cinco estrelas. Ou seja, o que eles querem construir, onde estão a investir o dinheiro, é apenas em alojamentos de luxo, o que, na minha opinião, não será a melhor abordagem para o futuro. Eu não controlo os cofres do governo, mas penso que investir ainda mais no turismo de luxo é apenas uma forma de aumentar a sazonalidade do sector, esgotar recursos e retirar qualidade de vida aos locais.
Anna – Para além disso, o dinheiro que entra nos Açores com o turismo de Verão não está a beneficiar suficientemente a população local. A maior parte desse dinheiro fica com os grandes operadores de hotéis, e são eles que estão a enriquecer. Mas os trabalhadores continuam a receber os mesmos salários baixos, e o governo não está a investir realmente em programas sociais. Deveria haver mais regulamentação e investimento no turismo de longa estadia, o que beneficiaria tanto os recursos naturais da ilha, quanto o nível de vida dos locais que chegam a um restaurante em Agosto e não têm lugar para se sentar; que vão para qualquer lado e está tudo lotado.
Daniela Canha
