Correio dos Açores – Qual é a importância do Dia Nacional das Casas do Povo?
Carlos Sousa (Presidente da Casa do Povo das Capelas) – Qualquer dia comemorativo é importante. O Dia Nacional das Casas do Povo é importante, porque faz reflectir nas pessoas sobre a necessidade da continuação das instituições, perceberem a importância das mesmas e quais são os motivos de estas existirem e de serem reforçadas em muitas ocasiões.
As casas do povo englobam as suas actividades a favor das pessoas, uma valência muito benéfica para o bem viver das pessoas.
Qual é a importância de uma Casa do Povo para uma freguesia, especialmente para as freguesias com menos população?
As casas do povo têm uma longa história em Portugal, pois foram instituídas nos anos 30, em 1933. Na altura em que se comemorou os 50 anos da Casa do Povo das Capelas –foi criada em 1973 -, descobri que, através de uma carta, houve uma Casa do Povo das Capelas bem antiga, criada a meados da década de 30.
A carta foi escrita pelo senhor Rovoredo, onde se queixava da inactividade da mesma, por causa do afastamento das pessoas. Eu posso adiantar que essa Casa do Povo tinha uma sede, mas tinha objectivos muito diferentes, por exemplo, fazia obras com a junta de freguesia; tinha dinheiro para fazer obras nas casas das pessoas, entre outros.
Mais tarde, derivou muito para as prestações sociais, a providência social, o apoio às pessoas e consultas. Com isto, as pessoas das freguesias pequenas e distantes do centro não tinham que se deslocar para tratar de assuntos muito pequenos, como o pagamento de um imposto, e passaram a fazer em estabelecimentos localizados próximos da sua residência.
Além disso, as pessoas também recebiam as suas reformas na Casa do Povo da respectiva freguesia, algo que era muito importante. Mesmo a meio dúzia de pessoas, dava muito jeito.
Depois do 25 de Abril, deu uma volta muito grande. Há algumas casas do povo que ainda continuam com atribuições muito antigas, como as actividades desportivas, culturais e recreativas. E a maior parte delas passaram a ser IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), com uma componente fortíssima social, colocando de lado essas sociedades desportivas, culturais e recreativas – que também têm uma importância fundamental.
A Casa do Povo das Capelas não é uma casa do povo muito pequena, apesar de já ter sido pequena. Neste momento, a Casa do Povo das Capelas tem quase 70 funcionários. É uma grande instituição, com muitas áreas e valências, desde os mais jovens (creches e centros de actividade de tempo livre) até aos mais idosos (centro de convívio de idosos).
Eu posso ainda adiantar que a Casa do Povo das Capelas tem uma particularidade, na chamada área sénior, para além do centro de convívio de idosos frequentado por 28 pessoas, tem o serviço de apoio ao domicílio, que é servida, normalmente, por 20 a 22 funcionárias, que todos os dias prestam serviços às casas das pessoas que estão acamadas ou com dificuldades de mobilidade. Simultaneamente, uma outra área que muitas instituições não têm é o banco de produtos de apoio. Nesta valência, está incluído as cadeiras de rodas, os andarilhos e as camas articuladas eléctricas. Eu preciso de salientar que, neste momento, a Casa do Povo das Capelas distribui para toda a ilha de São Miguel, não apenas para as Capelas, e que a área do banco de produtos de apoio não tem qualquer apoio governamental.
Acredita que as casas do povo são devidamente financiadas pelas valências e pela importância que têm nas freguesias?
Eu só posso referir apenas a Casa do Povo das Capelas, porque não conheço a realidade das outras casas do povo. A Casa do Povo das Capelas não tem razões de queixa. Aquilo que é dado é muito bem gerido para dar para tudo. De resto, tudo decorre nas perfeitas condições e só há investimento quando há dinheiro para isso.
De tudo que eu tenho vivido, no próximo ano já completo 25 anos na Casa do Povo das Capelas, não tem havido grandes problemas. Agora, há a falta de querer mais… A Casa do Povo das Capelas tem o centro de actividade de tempos livres (ATL) provisório há 25 anos, e nós, elementos da Casa do Povo das Capelas, queremos algo melhor e com outras condições. Portanto, são essas coisas que, às vezes, demoram anos para serem realizados. No entanto, a falta de meios não se tem sentido. Tudo é bem gerido.
O ATL está em instalações provisórias, em algumas salas sem ventilação e sem condições. Ainda assim, a Casa do Povo das Capelas serve mais de 50 crianças.
A Casa do Povo das Capelas tem falado com a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal e o Governo Regional sobre o actual estado do ATL?
Nós não dependemos da Junta de Freguesia nem da Câmara Municipal, apenas do Governo Regional. Já que fala sobre a Câmara, ainda hoje (ontem) fui a Ponta Delgada, para assinar um protocolo para ter apoios da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
A Câmara Municipal apoia as despesas do funcionamento, os projectos de desenvolvimento das outras IPSS, e, desde o ano passado, as obras e a compra de equipamento. Com o apoio da Autarquia, a Casa do Povo das Capelas consegue comprar vários produtos de apoio, como as camas e os andarilhos.
Na minha opinião, é importante referir que a Casa do Povo das Capelas tem feito várias acções fora da caixa. Embora não seja o objectivo determinado por quem governa, acho que é importante investir na formação das pessoas. Por exemplo, a nossa casa do povo tem investido muito na culinária, inclusivamente vamos realizar a sexta edição do nosso pequeno curso de culinária. Normalmente as pessoas que frequentam são mal-vistas, porque recebem o Rendimento Social de Inserção (RSI), mas elas são seleccionadas e são levadas a fazer a sua formação em culinária durante uma semana.
A formação tem sido fantástica, inclusive tivemos resultados fantásticos no último ano. Numa visita ao Centro de Qualificação dos Açores (antigo Centro de Formação Profissional), o próprio Director disse-lhes que tinha um curso que podia ser aproveitado. Quase todas elas decidiram ingressar. Ao mesmo tempo em que faziam o curso, elas foram colocadas em empresas em actividade. Ou seja, elas tiveram um aproveitamento fantástico do curso. Por isso, o Director disse que quer colocar as pessoas que estão interessadas no curso a passar pela Casa do Povo das Capelas para serem pré-preparadas e bem preparadas para ter o total aproveitamento do curso. Neste momento, elas estão todas empregadas. Apesar de ser uma área fora da caixa, é muito importante.
Além da culinária, a nossa casa do povo também investe em áreas como a informática, a arte e a música.
Ainda estão à espera de uma resposta por parte do Governo em relação ao ATL?
Sim, temos ali um problema pendurado há quatro anos. É fundamental ter o terreno e o terreno ainda não está resolvido. Esta questão do terreno já está pendurada há quase quatro anos. Portanto, o segundo passo ainda não pode ser dado como ainda não há terreno. Mesmo com os problemas, há boas vontades de um lado e do outro, continuamos a aguardar pacientemente.
Quais são as principais dificuldades de uma casa do povo?
As casas do povo, ainda hoje, são sociedades com sócios e estatutos. Neste momento, as pessoas não aderem às Casas do Povo e, por exemplo, não há sócios. As pessoas que estão nos cargos directivos são voluntários, ou seja, como costumo a dizer, pagam para trabalhar. Em muitos casos, as pessoas não têm formação suficiente para acompanhar certos e determinados problemas que a tutela devia calcular, como, por exemplo, problemas de ordem financeira e contabilística. Não se exige de uma direcção de voluntários que saibam contabilidade, e nós, se calhar, as casas de povo precisariam de um consultor para assuntos económicos, para nos ajudarem nessa área.
A contabilidade é feita por uma empresa, mas as casas do povo precisam de um consultor para apoiar no dia-a-dia. Não é fiscalizar, é apoiar no melhor sentido da palavra para nos ajudar na gestão para não pormos “o pé na poça”.
Em segundo lugar, aquilo que se diz de assuntos económicos, diz-se da área jurídica. Nós, Casa do Povo das Capelas, não temos apoio nenhum de nenhum jurista. Temos contratos de trabalho com dezenas e dezenas de pessoas e muitas vezes temos de estar em contacto com a inspecção de trabalho para não fazer alguma coisa mal feita. Se da parte governamental ou da parte da instituição houvesse a preocupação de dar esse apoio, isso seria óptimo. De facto, repito, as direcções, os presidentes e toda a gente que está nos órgãos sociais, desde a assembleia geral até ao conselho fiscal, são voluntários. Muitas vezes, nós precisamos desse apoio porque não temos.
Acredita que a população mais jovem fica beneficiada com as actividades de uma casa de povo?
Sim. E isso vê-se pela procura. Nós não temos capacidade de resposta, sobretudo, nas creches, agora, pois o Governo tornou-as gratuitas, toda a gente tem acesso. Passaram a ser gratuitas, mas as vagas continuam a ser as mesmas. Ou seja, a procura é imensa e nós não temos essa capacidade de resposta.
O ATL também tem tido uma procura enorme e não temos capacidade. Se tivéssemos 70 lugares para o ATL, eles estavam todos preenchidos. Isto é a necessidade das famílias e também mostra a qualidade do serviço da nossa casa do povo. Não é o presidente que faz uma casa de povo boa ou má, nem os órgãos sociais, mas sim os funcionários. E os nossos funcionários são de primeira água, de primeira categoria. Temos funcionários belíssimos e tudo funciona muito bem. Com o bom trabalho, as coisas propagam-se e a procura é imensa. Isto é notório.
Os jovens beneficiam? Pois com certeza. As actividades que há, são fantásticas. Desde as danças, os jogos, os passeios que se dão, a envolvência que eles têm nas actividades que fazem, o grupo que temos à frente do nosso ATL é uma coisa fantástica.
Falamos dos mais novos, e das pessoas com mais idade?
Dos seniores, eu já falei dos centros de convívio de idosos, é assim que se chama, a melhor idade. Eu fiz um hino para eles chamado mesmo a melhor idade. Às vezes, eles queixavam-se que estavam velhos e que não era nada a melhor idade. Meu amigo, não tem outra idade, tem é esta e, portanto, se tem esta, essa é a melhor, não pode ser outra. Normalmente não estão todas as pessoas, porque alguém não pode aparecer por estar doente ou por estar com dores de cabeça. Eles convivem, fazem as suas festas de aniversários, os seus passeios, vão visitar outras instituições e para eles é um consolo. Pena é não termos, porque o apoio é muito reduzido, a possibilidade de os termos mais tempo connosco. São apenas duas tardes por semana, mas, mesmo assim, valem a pena, segundo o feedback dos próprios.
O facto de os idosos viverem mais, traz mais doenças e mais complicações de saúde. A nossa casa do povo tem o serviço de apoio ao domicílio para dar resposta a essa gente e o banco para adultos de apoio para dar o apoio em meios, para terem uma vida mais condigna.
Situamo-nos muito na área sénior, na área de infância e na área social propriamente dita, das famílias, dos idosos, etc…
Há uma necessidade. Acabar com isto (casas do povo) seria criar um vazio imenso numa terra, numa freguesia e numa localidade.
No início do ano, André Viveiros defendeu, na apresentação do livro dos 50 anos da Casa do Povo das Capelas, que a Casa do Povo das Capelas deveria de ser no futuro a Santa Casa de Misericórdia das Capelas. Qual é a sua opinião?
A lei natural da evolução das coisas, que nascem pequeninas e vão crescendo, vão-se implantando. Uma Casa de Povo com esta grandeza, se calhar, precisa já de um outro olhar. E poderá eventualmente criar-se a Santa Casa da Misericórdia das Capelas. Porque não?
Com outra abrangência, com outra amplitude que poderá ser. Se calhar, já não tenho idade de a ver ser construída.
Pretende acrescentar alguma informação que ache relevante no âmbito da entrevista?
Saudar todas as Casas de Povo e todos os meus colegas que sacrificadamente se dedicam a este gosto de servir. Ao fim e ao cabo é um gosto de servir toda a gente. É para isto que as Casas de Povo existem. Desejo que mantenham a força e a garra para desenvolver cada vez mais o que fazem e combater uma chaga do nosso tempo e da nossa ilha que é a pobreza.
Filipe Torres / F.F.
