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A sustentabilidade é a chave para resolver o desafio complexo da sazonalidade do turismo nos Açores

“As Jornadas Atlânticas do Turismo muito contribuem para estreitar as relações entre os arquipélagos de Cabo Verde, Açores e Madeira, no contexto do turismo, que é um setor fundamental para o desenvolvimento social e económico das nossas ilhas.
Deixo também uma palavra de felicitação à organização do evento, pela escolha dos temas a abordar nestas jornadas, que são de facto muito pertinentes e de grande relevância para um pensamento estratégico relativamente ao presente e ao futuro do setor turístico nos nossos arquipélagos.
Os arquipélagos de Cabo Verde, Açores e Madeira possuem realidades semelhantes, a diversos níveis, por motivos histórico-culturais e por aspetos ambientais, mas sobretudo por um conjunto de desafios, marcados pela nossa insularidade e isolamento e pela dispersão das nossas ilhas e exiguidade do nosso território, que representam dificuldades acrescidas para garantir um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, nos seus três domínios, social, económico e ambiental.
Evidentemente que, sendo o Turismo um dos principais motores das economias destes três arquipélagos, a nossa capacidade de garantir um desenvolvimento sustentável estará inevitavelmente dependente da evolução verificada neste setor.
E isso traz-nos ao tema para o qual tive a honra de ser convidado para palestrar neste evento, mais concretamente o tema da “Competitividade como fundamento da sustentabilidade turística”.
Evidentemente, a competitividade do setor turístico está dependente de um vasto conjunto de fatores, agravados pela realidade insular, fragmentação territorial e isolamento, como sejam as acessibilidades, aéreas e marítimas, a oferta turística ao nível da hotelaria, restauração e serviços direcionados ao desenvolvimento do setor, como também da capacidade de atrair turistas nos mercados externos e de satisfazer as suas necessidades, proporcionando uma experiência única e diferenciadora.
No fundo, numa primeira instância, o sucesso na preparação de um destino turístico competitivo, reside, em grande medida, na capacidade de compreender os fatores determinantes para a eleição do destino por parte do turista, e na capacidade de proporcionar uma resposta adequada a essas expetativas ou requisitos.
No entanto, cumpridas essas premissas, é preciso também conferir sustentabilidade ao sistema turístico desenvolvido, designadamente aos elementos que nos diferenciam dos restantes destinos, que, no caso destes arquipélagos, estão fortemente associados ao nosso património natural, à nossa cultura, tradições e costumes, ao nosso artesanato, à nossa gastronomia e aos nossos produtos locais, como o queijo de São Jorge, produto único, reconhecido internacionalmente, de extraordinário valor acrescentado.
Acessibilidades, hoteleira, restauração e serviços turísticos de qualidade são todos aspetos fundamentais, mas que existem um pouco por todo o mundo.
E, portanto, em destinos turísticos como os nossos, tenho a profunda convicção de que a competitividade está fortemente ligada a uma oferta única e distintiva, associada ao desenvolvimento sustentável promovido por seculares gerações, que nos permitiu herdar um extraordinário património histórico, cultural e ambiental e um vasto conjunto de características únicas e distintivas que temos para oferecer a quem nos visita, que nos cabe a enorme responsabilidade de preservar e de transmitir às gerações vindouras, dando corpo ao conceito de sustentabilidade.
E, por isso, atrevo-me a lançar uma importante questão para reflexão neste fórum.
Será, verdadeiramente, a Competitividade que serve como fundamento da sustentabilidade turística, ou será, a sustentabilidade dos nossos ativos turísticos, do ponto de vista social, cultural e ambiental, que serve como fundamento para a competitividade turística? Deixo esta questão, para já, em aberto.
Os Açores têm percorrido um importante trajeto, em busca de um desenvolvimento sustentável, com vista a preservar o seu património natural, histórico e cultural.
Na verdade, o património natural e ambiental ímpar dos Açores configura um dos principais ativos turísticos, que faz com que a Região se destaque como destino turístico de natureza de excelência.
Atendendo à relevância que este património assume e à necessidade absoluta de o preservar e salvaguardar, a Região Autónoma dos Açores implementou um vasto conjunto de estratégias, ao longo dos anos, designadamente com a criação da Rede Regional de Áreas Protegidas, distribuída em 9 Parques Naturais de Ilha e um Parque Natural Marinho, cuja fiscalização e monitorização é levada a cabo por um corpo de vigilantes da natureza, altamente qualificado, composto por 56 elementos.
A Rede Regional de Áreas Protegidas dos Açores alberga 2 Sítios de Interesse Comunitário (SIC), 24 Zonas Especiais de Conservação (ZEC) e 15 Zonas de Proteção Especial (ZPE), no âmbito da Rede Natura 2000, que cobrem cerca de 80 000 hectares, bem como uma extensa rede de trilhos pedestres e percursos interpretativos e ainda 22 centros de interpretação ambiental, que contribuem de forma muito significativa para envolver, educar e sensibilizar as populações e os visitantes para a importância da preservação dos ecossistemas e de todo o património natural dos Açores, através de exposições interativas, atividades pedagógicas e visitas guiadas.
Na verdade, a educação ambiental é um pilar da sustentabilidade dos nossos recursos naturais, que são um ativo estratégico para o setor turístico, razão pela qual, anualmente, a Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática promove uma vasta Oferta de Atividades de Sensibilização Ambiental Escolar, direcionada a todos os estabelecimentos de ensino dos Açores, com foco na conservação da natureza, na promoção da qualidade ambiental, da economia circular e da gestão adequada de resíduos e no desígnio da mitigação e adaptação aos efeitos das alterações climáticas.
Para a proteção de todo este património e para garantir a preservação e restauro dos habitats naturais, o Governo Regional dos Açores tem em curso diversos projetos relevantes, com destaque para 4 projetos LIFE, coordenados pela Secretaria Regional do Ambiente e Ação Climática, dedicados à conservação da natureza e à mitigação e adaptação aos efeitos das alterações climáticas, que representam, no global, um investimento superior a 40 milhões de euros, sendo que os Projetos LIFE IP Azores Natura e o LIFE IP CLIMAZ são os 2 únicos projetos LIFE integrados em curso em Portugal e os dois maiores projetos LIFE alguma vez implementados no País.
E é com grande satisfação que se constata que Cabo Verde e Madeira têm trilhado percursos igualmente assinaláveis, ao nível da criação de áreas protegidas e da conservação e preservação do património natural e cultural.
Cabo Verde possui diversas áreas protegidas, que visam conservar a sua biodiversidade e ecossistemas únicos, como o Parque Natural da Serra da Malagueta, o Parque Natural do Fogo, com seu icónico vulcão, o Parque Natural de Monte Gordo, ou as Salinas de Pedra de Lume que contribuem para a promoção do ecoturismo, que combina preservação ambiental com atividades turísticas sustentáveis.
Possui também diversas reservas marinhas e zonas húmidas, como as Lagoas de Rabil (Boavista) e a Reserva Natural de Santa Luzia, que são cruciais para a conservação da vida selvagem, para o equilíbrio ecológico e para o sustento das comunidades locais e que, pela sua importância histórica, cultural e científica e pelas suas características naturais únicas, são um cartão de visita turística do Arquipélago.
Relativamente à Madeira, a importância atribuída ao património natural mede-se facilmente se atentarmos ao facto de cerca 2/3 do território terem sido classificados como áreas protegidas, no âmbito do Parque Natural, com destaque para a maior e mais bem conservada mancha de floresta Laurissilva, floresta-relíquia de valor imensurável, que presta relevantes serviços de ecossistemas, e que está classificada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, sendo característica da Macaronésia, e que é, por isso, comum aos arquipélagos de Cabo Verde, Açores, Madeira e Canárias.
Ora, no caso dos Açores, a excelência e a singularidade do seu património natural e cultural, aliados ao empenho e esforços conjuntos do Governo Regional, das Autarquias, das empresas e associações e, individualmente, por cada Açoriano, têm permitido adquirir um conjunto de estatutos internacionais relevantes, que dão um contributo muito significativo para diferenciar e certificar a excelência do destino Açores.
A título de exemplo, os Açores possuem 4 ilhas classificadas como Reserva da Biosfera da UNESCO, designadamente as ilhas Graciosa, Flores, Corvo e as Fajãs de São Jorge, que certificam o percurso de desenvolvimento sustentável percorrido pela Região, a relação harmoniosa entre o homem e a natureza e o respeito pelo meio ambiente, aspetos absolutamente fundamentais para assegurar um necessário equilíbrio em paisagens humanizadas como as nossas.
Também, neste campo, Cabo Verde e Madeira, têm-se assumido como um exemplo, com a integração na Rede Mundial de Reservas da Biosfera, respetivamente, das ilhas do Fogo e do Maio, e de Santana e da ilha do Porto Santo.
O território das nove ilhas dos Açores e a área marinha envolvente ao arquipélago integram também o Geoparque Açores, que faz parte da Rede Mundial de Geoparques da UNESCO, englobando 121 geossítios terrestres e marinhos, dos quais 6 são de relevância internacional, que atestam a riqueza do nosso território e asseguram a representatividade das riquezas geológicas da região, constituindo um extraordinário ativo para o GeoTurismo, um dos pilares fundamentais desta chancela da UNESCO.
Aliás, a Região Autónoma dos Açores é uma das poucas regiões do mundo designadas por MIDAS: Multi-Internationally Designated Areas), que incluem Sítios Ramsar, Reservas da Biosfera, Geoparques Mundiais da UNESCO, e Sítios Património Mundial da Humanidade, como a Cidade de Angra do Heroísmo e a Paisagem Protegida da Cultura da Vinha da ilha do Pico.
Como tal, estes estatutos e classificações, conjugados com práticas e serviços turísticos ambientalmente sustentáveis, permitem-nos alcançar prestígio e reconhecimento mundial, aspetos que são fundamentais para uma certificação como destino de natureza de excelência, que nos diferencia e potencia ainda mais do ponto de vista turístico.
Nesse sentido, importa referir que os Açores foram o primeiro arquipélago do mundo a ser reconhecido como “Destino Turístico Sustentável”, pela Earth Check, um dos principais sistemas de certificação e benchmarking ambiental do mundo para o setor do turismo, tendo alcançado recentemente a Certificação Nível IV, Prata, pretendendo-se já este ano atingir o nível Ouro.
Desde 2020, os Açores têm também sido distinguidos com o prémio de “Destino de Turismo Sustentável” na Europa, no âmbito dos prestigiados World Travel Awards, frequentemente descritos como os “Óscares” do turismo, estando incluídos também na lista dos 100 Destinos Mais Sustentáveis do Mundo, elaborada pela organização Green Destinations, tendo recebido ainda o prémio Quality Coast Platinum, que distingue destinos turísticos que implementam políticas exemplares de sustentabilidade.
Resulta, por isso, claro, que, em realidades como as dos Açores, Madeira e Cabo Verde, tendo em conta as nossas especificidades, a nossa escala e as nossas características, o sucesso para a competitividade, no que se refere ao setor turístico, está absolutamente dependente da nossa capacidade de garantir a sustentabilidade dos nossos ativos turísticos únicos e diferenciadores, associados inequivocamente à natureza e ao ambiente, ao nosso património histórico, cultural e tradicional e à identidade das nossas gentes.
São esses os principais ativos que nos distinguem enquanto destinos turísticos, pelo que é fundamental que o modelo de desenvolvimento turístico adotado esteja centrado na sua proteção, promoção e valorização, pois é na sua sustentabilidade que reside a chave para garantir a nossa competitividade, no contexto turístico, bem como para resolver desafios complexos com que nos deparamos, como é o caso da sazonalidade.
Os Municípios do Sal, de Velas e do Porto Santo pela organização das Jornadas Atlânticas do Turismo, prestam, efetivamente, um relevante contributo para o estreitamento de relações entre estes três arquipélagos “irmãos”, cujas realidades e desafios se assemelham, designadamente no que ao setor turístico e ao desenvolvimento socioeconómico diz respeito, pelo que a realização de eventos desta natureza cria oportunidades únicas para reflexão e partilha de experiências na procura de soluções e de estratégias para enfrentar desafios comuns, no sentido de garantir a competitividade turística.”

Alonso Miguel, Secretário Regional
do Ambiente e Alterações Climáticas

  • Excertos da intervenção proferida
    na II edição das Jornadas Atlânticas
    do Turismo na ilha do Sal, em Cabo Verde
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