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Estudo sobre a olaria de Santa Maria pretende valorizar o que foi uma actividade económica importante e que está a desaparecer nos Açores

Em Vila do Porto, na ilha de Santa Maria, está a decorrer uma investigação sobre a olaria entre os séculos XVI e XVIII, que, segundo os entrevistados, é uma ilha onde “se preserva ainda hoje uma importante concentração de fornos de olaria e telha, muitos deles, infelizmente, em mau estado de preservação”. Em entrevista, João Gonçalves Araújo (CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores), André Teixeira (CHAM e Departamento de História, FCSH, Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores), Javier Iñañez (GPAC, Departamento de Geografia, Pré-História e Arqueologia da Universidade do País Basco) e Joana Bento Torres (CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa e Universidade dos Açores) explicam a importância dos Açores na compreensão das dinâmicas de povoamento dos arquipélagos atlânticos entre os séculos XV e XVIII, a dimensão de Santa Maria na olaria açoriana e a importância do projecto para o meio de enriquecimento cultural das comunidades.

Correio dos Açores – Qual é a importância dos Açores no projecto internacional denominado CERIBAM “Arqueología y Arqueometría del expansionismo atlántico Ibérico en el Norte de África y las Islas de la Macaronesia (siglos XV-XVI): cerâmica, poblamiento e comércio”?
João Araújo, André Teixeira, Javier Iñañez e Joana Torres – O projecto CERIBAM é um projecto sediado na Universidade do País Basco, mas que engloba instituições académicas e organismos políticos e culturais de vários países, como Portugal, Espanha, Marrocos e Cabo Verde, e tem como principal objectivo o estudo das dinâmicas socioeconómicas entre a Península Ibérica, o Norte de África e as ilhas da Macaronésia entre os séculos XV e XVI, a partir da Arqueologia. No âmbito do CERIBAM estão também a ser desenvolvidas várias teses de doutoramento.
Essa aproximação ao passado material faz-se essencialmente através do estudo dos materiais cerâmicos exumados em escavações arqueológicas nesse âmbito crono-espacial. A cerâmica é, regra geral, nestes contextos o tipo de espólio mais comum, potenciando a investigação de um mais vasto leque de questões que se relacionam não só com as interações comerciais entre estes diferentes espaços, mas também com aspectos mais concretos do quotidiano das suas populações ou ainda fenómenos de transformações culturais que se materializam na cerâmica arqueológica.
Nesse sentido, o arquipélago dos Açores assume-se como um território perfeitamente integrado nessa rede de relações entre a Península Ibérica, as cidades norte-africanas ocupadas por Portugal e Espanha e os restantes arquipélagos macaronésios, aos quais podemos somar São Tomé e Príncipe, que apesar de não se enquadrar nestas regiões, acaba por ter muitos pontos em comum com os restantes arquipélagos atlânticos povoados pelos países ibéricos.

Qual é o papel dos Açores na compreensão das dinâmicas de povoamento e abastecimento dos arquipélagos atlânticos entre os séculos XV e XVIII?
Desde a sua descoberta que os Açores desempenham um papel central na rede de interações humanas entre os diferentes espaços do Atlântico. Tal centralidade foi logicamente mais sentida no passado, em que o desenvolvimento tecnológico obrigava à utilização das ilhas como pontos de apoio nas viagens transoceânicas.
A descoberta relativamente precoce do arquipélago tornou as ilhas açorianas como excelentes campos de experimentação face ao desafio que era a ocupação de territórios desconhecidos e despovoados. Nesse sentido foram experimentadas novas estratégias de ocupação do espaço, espaços exíguos em área e instáveis em termos geoclimáticos, que condicionaram forçosamente o modo como as populações se instalaram no território e o exploraram economicamente. Às culturas agrícolas já amplamente cultivadas no território continental ibérico, como os cereais, somaram-se novas culturas como as plantas tintureiras e sobretudo a cana sacarina, essencialmente vocacionadas para a exportação, em grande medida numa lógica a que hoje poderíamos chamar de capitalista e que acabou por ajudar a moldar a forma como os europeus se foram instalando e explorando os restantes territórios insulares atlânticos e sobretudo o continente americano, onde podemos destacar o Brasil ou as Caraíbas.
Todo esse processo, já amplamente explorado pela historiografia mais tradicional, deixou vestígios materiais que são o objecto de estudo da Arqueologia. Essa materialidade, quer sejam estruturas ou artefactos, permite-nos desenvolver uma distinta abordagem ao passado humano, com diferentes metodologias e “fontes” de o estudar, resultando muitas vezes na produção de conhecimento que não é reflectida a partir da análise documental.

Está a ser realizado um projecto de doutoramento sobre a olaria açoriana nos séculos XVI a XVIII. De que consta o projecto e qual é o objectivo?
O doutoramento de João Gonçalves Araújo, financiado através de uma Bolsa de Doutoramento da FCT, acaba por se enquadrar plenamente no âmbito do projecto CERIBAM. Tem como objectivo geral estudar a olaria açoriana desde o seu início, no decorrer do século XVI, até ao final do século XVIII, a partir da lente da Arqueologia. O processo passa por caracterizar a olaria açoriana durante esse período, concretamente a sua produção e o seu consumo, ou seja, a sua utilização, em distintos contextos arqueológicos, contextos esses que reflectem diferentes ambientes socioeconómicos. Como resultado pretende-se que, além do contributo científico para a Arqueologia de Época Moderna no seio da Expansão Portuguesa e Europeia, seja um pequeno contributo para a História dos Açores em geral e do conhecimento do seu património cultural material.

Qual é o objectivo da escavação arqueológica do forno de olaria localizado na rua dos Oleiros, em Vila do Porto?
A ilha de Santa Maria é uma ilha central para o conhecimento de todo o processo de produção oleira nos Açores, uma vez que é a ilha que possui, por vicissitudes geológicas, as melhores argilas para a produção de louça. Dela se exportava argila para quase todas as outras ilhas do arquipélago, de modo a abastecer as suas olarias, bem como louça e telha que era ela própria produzida na ilha. É por isso um território chave para a compreensão de todo o fenómeno desde o século XVI até a meados do século XX.
É também em Santa Maria que se preserva ainda hoje uma importante concentração de fornos de olaria e telha, muitos deles, infelizmente, em mau estado de preservação. O forno que nos encontramos a escavar na rua dos Oleiros, em Vila do Porto, é provavelmente um dos mais antigos fornos de louça que ainda subsistem na ilha. Esta estrutura já foi alvo de uma intervenção arqueológica exploratória em 2013 dirigida por Élvio Sousa, à época arqueólogo no CEAM (Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea), instituição madeirense. O objectivo da nossa intervenção é dar continuidade a esse primeiro intento, procurando aprofundar o conhecimento sobre o forno em aspectos como a sua estrutura, modo de funcionamento, cronologia e articulação com o espaço envolvente. Trata-se de um processo moroso, que pretendemos continuar nos próximos tempos . Para tal temos tido o apoio logístico pontual da Câmara Municipal de Vila do Porto e da Secretaria Regional do Turismo, Infra-estruturas e Mobilidade.

Como está a situação do estudo de cerâmica proveniente de contextos arqueológicos escavados em Santa Maria, com a utilização de tecnologia para a realização de análises arqueométricas não destrutivas?
Outra importante vertente da campanha que estamos a desenvolver em Santa Maria é o estudo do espólio dos sítios arqueológicos escavados na ilha, concretamente aos contextos datados dos séculos XV a XVIII, para tal contando com o apoio logístico do Museu de Santa Maria. Parte desse estudo passa pela realização de análises arqueométricas não destrutivas a peças cerâmicas através do método de fluorescência de raios X portátil (pXRF). Estão também a ser feitas análises com a mesma tecnologia a peças da colecção etnográfica do Museu de Santa Maria de modo a comparar as produções cerâmicas mais antigas com as dos séculos XIX e XX, procurando detectar traços de continuidade e/ou ruptura ao longo de todo o processo histórico de produção oleira na ilha.

Qual é o interesse turístico do projecto para os Açores?
Antes de pensarmos essa investigação como algo com potencial turístico, devemos encará-la como um meio de enriquecimento cultural das comunidades, a mariense em particular e a açoriana em geral. O conhecimento do passado é um elemento estruturante na construção das identidades culturais das populações, pelo que esse projeto deve ser potenciado nesse sentido.
Mas é claro que há potencial numa lógica de turismo cultural. Além do turismo de natureza, os Açores possuem um conjunto notável de bens patrimoniais que se assumem como um ativo valioso que deve ser potenciado pelas entidades públicas e privadas ligadas ao turismo nos Açores. A Arqueologia pode contribuir de várias formas, por exemplo através da musealização de estruturas arqueológicas identificadas e devidamente recuperadas e tornadas visitáveis, como seria o caso do forno existente na rua dos Oleiros, em Vila do Porto. Outra forma seria a criação de mais espaços museológicos dedicados à Arqueologia nos museus açorianos, diversificando o leque de património móvel em exposição. Por fim, a Arqueologia pode contribuir activamente para manutenção ou recuperação de património imaterial em vias de desaparecer como é o caso da olaria, que rareia nos Açores e que em tempos foi uma importante atividade económica, refletindo aspectos importantes da identidade cultural açoriana.

            F.T.
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