Correio dos Açores – Com que intuito foi criada a Festa do Milho? Quais as suas raízes?
Miguel Brás (Coordenador geral da Associação Norte Crescente) – A Festa do Milho foi criada em parceria com as três juntas de freguesia da Bretanha: Ajuda da Bretanha, Pilar da Bretanha e Remédios da Bretanha. Com o apoio da Associação Norte Crescente, acordou-se, entre a Associação e as Juntas, que era importante dinamizar a Cultura e as tradições associadas à produção do milho que são transversais a todas essas localidades. De facto, com a recuperação do Moinho do Pico Vermelho, em 2014, na Ajuda da Bretanha, achou-se por bem impulsionar a sua dinamização. Neste sentido, foi criada a Festa do Milho com o objectivo de chamar a atenção para o Moinho e para as actividades relacionadas com este engenho, como é o casod o cultivo, colheita e, consequente moagem e confecção de produtos alimentares. Aproveitamos, deste modo, o facto de esta tradição estar bem arreigada entre as gentes da Bretanha e despertamos o sentimento de orgulho e de interesse na revisitação e recuperação dessas tradições, trazendo-as para o contexto actual.
No fundo, há neste evento uma componente didáctica, pois mostramos aos mais jovens e aqueles que não têm tanto contacto com o meio rural, a forma como se procedia em relação a esta tradição e, simultaneamente, partilhamos as histórias e costumes da nossa terra, apelando ao orgulho daquelas pessoas que faziam e que foram fazendo, ao longo dos anos, destas actividades o seu modo de sustento. Infelizmente, são hábitos que foram caindo em desuso, mas com a Festa do Milho, acreditamos ter recuperado essas suas raízes, histórias e tradições de antigamente.
Que actividades culturais, etnográficas e gastronómicas abrangem a Festa do Milho?
Primeiramente, é importante salientar que a Associação Norte Crescente procura proporcionar suporte a todas as instituições e pessoas que queiram participar, colaborar e contribuir para as festas. De facto, reconhecemos que são essas vivências naturais entre as pessoas e participantes que trazem riqueza a todo o evento. A Festa do Milho, traduz-se, assim, numa mescla de tradições, onde estão presentes trajes, materiais e as ferramentas agrícolas de uso rudimentar que é disponibilizado pela comunidade da Bretanha, criando-se uma sinergia de forças entre a Associação e essas pessoas.
Nos três dias de festa, vamos ter, graças a essa agregação,o Moinho a funcionar onde os visitantes estão convidados a assistir à moagem do milho; temos, também expostos utensílios relacionados com a produção do milho, como os carros de bois, instrumentos ligados à sacha, à moda do milho, ao semear, à apanha do milho, bem como moinhos manuais (mais pequenos) e toda uma panóplia de ferramentas e utensílios ligados à cultura agrícola.
Quanto à feira gastronómica, disponibilizamos um conjunto de seis barracas que são cedidas às instituições locais (mordomias, escuteiros, grupo de jovens e paróquias)para que sejam dinamizadas de forma a venderem os seus produtos.
Consideramos, portanto, que é importante estarmos mais próximos daquilo que é o gosto das pessoas, porque representa o território bretanhense e, por outro lado, estamos a ajudar a financiar essas instituições, porque obtêm fundos através das receitas que fizerem nessa Festa.
O momento alto vai ser, no Domingo, com o Desfile Etnográfico, onde vamos ter carros de bois apetrechados com ferramentas agrícolas e com o milho que, já semeado, nos campos, vamos buscar, partindo do Pilar da Bretanha, até ao Pico Vermelho, na Ajuda da Bretanha. Nesse desfile, há uma partilha com a presença dos residentes. Com efeito, as pessoas tornam-se figurantes, recriando os costumes de antigamente, alusivos a temáticas como a igreja, o trabalho na terra, o casamento, entre outros.
O cultivo do milho reveste-se de considerável relevo para aeconomia agrícola, mas antigamente revelava-se como fundamental para a sobrevivência das famílias que residiam nos meios rurais de São Miguel…
Antigamente o milho era um dos produtos base da alimentação do dia-a-dia. Fazia-se o pão de milho, as sopas derivadas do milho, e muitas outras comidas. Era, de facto, um produto muito utilizado nos hábitos alimentares do quotidiano. Logicamente, com o aparecimento de outros produtos, com a alteração dos hábitos de consumo, bem como, a dificuldade em se produzir o milho para consumo, acabou-se por alterar esse comportamento, sendo, actualmente, mais produzido o milho de fogagem e para alimentação dos animais. Isso não quer dizer que não continue a ser importante para os agricultores das freguesias, mas enquadra-se, de forma mais evidenciada, na componente da alimentação animal.
Amarrar o milho em frente à porta de casa, colocar o milho nos cafuões e, depois, debulhar o milho à mão para ser transformado em farinha no moinho mais próximo… Esta tradição do passado está a perder-se. Tem memórias destes tempos?
A propósito dessa questão, estamos a trabalhar no sentido de preservar as memórias ligadas às actividades que envolvem o milho. De facto, entre as juntas de freguesia e a Norte Crescente, há algum espólio, constituído por documentos e entrevistas que está relacionado com o território e experiências das gentes da Bretanha. Nesse sentido, pretendemos elaborar um projecto mais consolidado, no próximo ano, no âmbito da Festa do Milho. Vamos, deste modo, tentar fazer um levantamento mais exaustivo e fazer novas reportagens e entrevistas com as pessoas vivas, testemunhas dessas vivencias. É importante documentar esses testemunhos, pois sabemos que a evolução normal da sociedade levou à perda da importância do milho para o consumo humano. E as tradições inerentes a esta prática, perdem-se, igualmente, com os mais velhos.
Qual a adesão da população a este evento? Tem aumentado o número de visitantes à festa?
A maior adesão é por parte dos residentes das freguesias e, isso é importante salientar, pois a ajuda que a comunidade da Bretanha presta é fundamental para que seja possível realizar a festa. De facto, a festa é para eles, mas faz-se também com eles. E nota-se que é com gosto
que as pessoas participam e se mostram disponíveis.
O facto é que esta iniciativa envolve instituições, residentes e as organizações locais, o que leva a que todos unam esforços no sentido de reconhecerem que existe um evento a ser preparado e com o qual podem obter algum rendimento extra para dinamizarem as suas actividades.
Obviamente que, com os contactos e com a proximidade da cidade e das famílias, os próprios residentes vão convidando os seus familiares e amigos, o fortalece e aumenta a presença de mais visitantes.
Por outro lado, também, há aqueles que não têm ligação à terra, mas que apreciam estastradições embalados pelas vivências da sua juventude e, que acabam por querer reviver e participarem, de igual modo. Há, também, outras pessoas, que vêem a Festa do Milho, como um evento diferente.
Os turistas, também, são outro grupo de pessoas que estão presentes. Vêm para ver o moinho, (que na maior parte das vezes está fechado), satisfazem a sua curiosidade, tiram uma fotografia e seguem para o próximo destino. Nos dias da Festa do Milho, têm a oportunidade de o visitarem. Além disso, tomam contacto com os residentes, com a festa em si, com toda a cultura que está associada ao milho, acabando, por exemplo, por degustar os produtos que as instituições exibem nas barraquinhas e na feira gastronómica.
O Moinho do Pico Vermelho é o único moinho de vento que funciona na ilha de São Miguel. Fale-nos da sua importância histórica, cultural, arquitectónica e etnográfica.
Quando o moinho foi construído revelou-se de grande importância para a economia da Ajuda da Bretanha. Com efeito, gerou uma economia associada à cultura do milho, à produção e à própria moagem deste cereal: vinham pessoas de várias freguesias moer o milho. Foi, assim, importante para trazer pessoas e afirmar a freguesia da Ajuda da Bretanha enquanto pólo mercantil.
Quanto à arquitectura, hoje em dia, a importância do moinho é turística, uma vez que se constitui um marco que atrai visitas. Neste sentido, na minha opinião, falta, talvez, juntar sinergias para que este esteja mais tempo aberto ou tenha uma dinâmica de visitação diferente, para que haja uma experiência mais qualificada no âmbito das visitas.
Em que consistem as visitas efectuadas ao Moinho?
Acredito que a curiosidade, em grande parte, é a de saber como é que funciona o moinho. De facto, há que ter a noção que as pessoas com mais idade vivenciaram-no na sua infância e têm conhecimento de como isso se faz, mas os jovens não têm essa noção. É até muito engraçado nós vermos, depois, as pessoas mais de idade irem com os netos, com os filhos e explicarem e relembram frequentemente questões como ‘o nosso moinho da nossa zona era diferente, mas, entretanto, o nosso moinho já deixou de existir e existe este aqui’. Portanto, também acaba por ser um elemento de conversas e de relembrar essas tradições.
Como podemos captar a atenção dos mais novos para as tradições associadas à transformação do milho?
No fundo é trabalhar com os jovens, é explicar a história é explicar a vivência. Claro que o facto de residirem aqui no território onde ainda têm familiares que estão relacionados com a produção do milho, é mais fácil falarmos com estes jovens. Hoje em dia ainda é fácil, mas sabemos que se calhar na próxima geração será muito mais difícil. Mas o que nós fazemos é tentar trabalhar com os jovens ao mostrar e ensinar como é que se faz. Na sexta-feira (hoje) vamos ter uma tarde de intergeracional em que convidámos alguns ATL, os centros de dia e centros de idosos da Costa Norte; e, no fundo, o que nós queremos é depois estimular e meter as pessoas de mais idade a falar e a contar as suas experiências aos mais jovens.
Neuza Almeida
