Realiza-se hoje, entre as 9h45 e as 13h30, no Nordeste, a segunda caminhada de reflexão comunitária do projecto “Não me esqueças” da artista açoriana Margarida Andrade. Esta caminhada propõe uma reflexão sobre as transformações do planeta através da acção humana. Nesta entrevista, a artista explica as razões do foco nas espécies endémicas e invasoras dos Açores, através do qual explora o conceito de luto no contexto da crise climática. Uma forma de abordar o luto que, como afirma, serve para “enfrentar o presente e o futuro, reconhecer as perdas que advêm desta crise e celebrar o luto, aplicado a estas transformações de biodiversidade”. Em 2025 estão previstas mais duas caminhadas nas ilhas de Santa Maria e Terceira. No futuro, a artista quer deixar uma peça de cerâmica em cada uma das 9 ilhas.
Correio dos Açores – Depois de passar alguns anos no continente, decidiu regressar aos Açores no final de 2020. Pode partilhar um pouco sobre o seu percurso até aqui e o que a motivou a voltar e estabelecer-se na Região?
Margarida Andrade (artista visual) – Fui para Lisboa aos 18 anos para estudar Pintura na Faculdade de Belas-Artes. Quando fui, não sabia se iria voltar. Andei pelo Reino Unido em ERASMUS e por Barcelona para fazer um mestrado em Educação Artística, mas acabei por voltar a Lisboa. Em 2020, decidi voltar a São Miguel. A pandemia ajudou a acelerar a decisão. Contudo, eu já andava há uns tempos à procura de um lugar mais calmo, com mais qualidade de vida, por isso a única opção parecia-me ser regressar. Hoje sei que foi a melhor decisão. A ilha de São Miguel é única e é, a meu ver, um excelente lugar para a criação artística. Ao mesmo tempo, acho importante contribuir para a descentralização na produção artística. Por isso, divulgar os Açores como lugar igualmente relevante no contexto artístico nacional é, também, a minha intenção.
Pode explicar-nos o conceito do projecto “não me esqueças” e como surgiu a ideia para a ‘caminhada de reflexão comunitária’?
Desde que comecei a dedicar-me profissionalmente à criação artística que exploro as relações entre humanos e outras espécies. A exposição que fiz no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, “No Futuro também se usavam Pincéis”, e o livro que apresentei no âmbito deste projecto, “A Décima Ilha”, já eram um reflexo desta minha investigação. À medida que fui aprofundando o meu estudo, apercebi-me de que necessitava de levar estas reflexões para fora das quatro paredes das salas expositivas e convidar as pessoas a reflectirem comigo, precisamente, em locais naturais distantes dos centros urbanos. Foi daí que surgiu o “não me esqueças”.
Para mim, o projecto é uma oportunidade de criar espaços de diálogo entre humanos e entre humanos e outras espécies, em particular as plantas. É, também, um convite a interrompermos a agenda frenética que os dias de hoje nos impõem, de sairmos das nossas bolhas, desligarmos os nossos ecrãs e convivermos, fisicamente, com outras pessoas, em comunidade e em espaços não-urbanos.
Por outro lado, com o projecto eu pretendo propor formas alternativas de olhar para a tristeza e para o luto. A minha necessidade de explorar estas relações entre humanos e plantas vem de uma ansiedade que sinto face aos impactos visíveis da crise climática. Por isso, a minha ideia de pensar o luto vem desta vontade de enfrentar o presente e o futuro, reconhecer as perdas que advêm desta crise e celebrar o luto, aplicado a estas transformações de biodiversidade.
Com o luto vem a tristeza que, a meu ver, é ainda um tabu. Todos nós sentimos tristeza nas nossas vidas e penso que se a reconhecermos e lidarmos com ela em comunidade torna-se mais fácil. Eu fiz, inclusive, um “guarda-choros”, que não é mais do que um recipiente em cerâmica para guardar, metaforicamente, as lágrimas do luto. É a minha forma de celebrar a tristeza.
Com este projecto, eu também queria chegar a outras pessoas e sair do contexto artístico local, por isso estabeleci parcerias com a SPEA e a Associação Amigos dos Açores para apoio na parte científica do projecto e divulgação.
No final de 2023, submeti candidaturas de apoio ao Programa PARES da Associação Anda&Fala e à República Portuguesa – Direcção Geral das Artes e, depois de confirmado os apoios, comecei a preparar as caminhadas, com a produtora Mafalda Fernandes.
Este projecto tem o foco nas espécies endémicas e invasoras. Qual é o papel das especificidades do ecossistema açoriano na narrativa do “não me esqueças”?
Eu posso falar sobre os nossos ecossistemas do ponto de vista artístico e, até, emocional. Nunca científico. O que é facto é que, precisamente por não ser da área, comecei por me interessar por esta dictomia “endémicas-invasoras”, para perceber efectivamente o impacto das invasoras nos nossos ecossistemas. Agora já consigo tomar partido pelas endémicas e valorizar ainda mais a riqueza da biodiversidade dos Açores. Há muitas espécies não nativas e invasoras (como a hortênsia) que têm mais protagonismo na nossa esfera social do que as endémicas que são só nossas, são únicas.
De forma mais evidente, eu procuro celebrar as espécies endémicas através da criação de peças em cerâmica em sua homenagem que deixo nos locais das caminhadas por tempo indeterminado. É uma oferta minha a estes lugares.
Em cada caminhada é realizado um funeral a estas espécies esquecidas, desconhecidas e ignoradas. Ao abordar o tema desde o ponto de vista do luto, realizando funerais às espécies esquecidas, estou, também, a convidar as pessoas a conhecer outras espécies, valorizando-as. Isto porque, na minha opinião, o luto pode ser visto como um espaço entre temporalidades, que nos permite olhar para o futuro através do passado. É uma proposta para criarmos formas diferentes de nos relacionarmos uns com os outros. Quem sabe se assim não poderemos contribuir para a salvaguarda da nossa biodiversidade?
O próprio nome do projecto foi emprestado de uma espécie endémica dos Açores, cujo nome comum é precisamente “não me esqueças”. Ao mesmo tempo, é um apelo a não esquecermos as nossas espécies, a cuidarmos delas e, já agora, a repensarmos os modos pelos quais promovemos,para o exterior, o nosso arquipélago (investindo num turismo mais sustentável, por exemplo).
Em Junho deste ano decorreu a primeira edição do “não me esqueças” com a Caminhada de Reflexão Comunitária na Mata Jardim José do Canto (Furnas). Que balanço faz desta estreia? Sentiu uma resposta diferente da parte do público em comparação com projectos mais tradicionais?
Sim! Fiquei muito surpreendida com a aderência das pessoas. Tivemos mais de 30 participantes a acompanhar-me na caminhada e a reflectir sobre estas questões. E consegui cumprir com o meu objectivo de chegar a pessoas de outras áreas que não, exclusivamente, a artística. Isso foi muito bom. Claro que, sendo a primeira, há sempre coisas que sinto que podia ter feito diferente. É sempre uma aprendizagem.
Quais são as expectativas para a segunda edição da caminhada?
Eu quero que cada caminhada seja diferente. Os percursos são sempre diferentes, claro. Mas, os conteúdos também. Enquanto que na primeira caminhada foquei-me mais na minha relação com outras espécies, confessando alguma distância e desconhecimento em relação a elas, nesta segunda caminhada já procuro envolver mais o grupo e focar-me nesta necessidade de celebrar o silêncio, a pausa e o contacto com a Natureza.
Já temos quase 30 inscritos o que é, novamente, surpreendente. Para mim esta aderência só vem confirmar a necessidade que muita gente também sente de parar, de estar em comunidade e de pensar sobre estes temas.
Pode descrever como as caminhadas se desenrolam e que tipo de experiências os participantes podem esperar?
Gosto de deixar esta parte como surpresa para não prejudicar a experiência das pessoas participantes. Posso, apenas, dizer que será num dos lugares mais bonitos da ilha (a meu ver).
Como é que os participantes se podem inscrever? Há alguma condição específica para a participação?
Não há requisitos específicos para participar. Todas as pessoas de qualquer idade podem inscrever-se, desde que tenham mobilidade física e vontade para reflectir sobre estas questões em comunidade. O percurso é curto, fácil e plano.
Nesta caminhada em específico, como está integrada no programa Open Studios da Anda&Fala — Associação Cultural, que acontece entre 12—21 de Setembro na ilha de São Miguel, as inscrições são feitas através do e-mail: info@andafala.org.
Quais são as suas perspectivas para o futuro do projecto? Tem planos para o levar a outras regiões ou explorar novos formatos dentro deste tema?
Sim. Já no próximo ano, e com o apoio da Direcção Geral das Artes, iremos às ilhas de Santa Maria e Terceira com o projecto. A minha intenção é, no futuro, fazer uma caminhada por ilha e deixar uma peça de cerâmica em cada uma das 9 ilhas.
Pretendo, depois, criar um livro a partir do projecto com todas as suas evidências. É uma forma de ter um registo, uma vez que o projecto consiste num conjunto de acções efémeras e as cerâmicas que crio deixam de ser minhas a partir do momento que as deixo nos locais.
Daniela Canha
